Machado, Jesus e os entraves à sua ambição

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Ponto prévio. Dissertar sobre o valor teórico de um treinador, salvo raras excepções, é um exercício essencialmente especulativo, isto se não se teve a oportunidade de presenciar o trabalho semanal do mesmo, ao longo de determinado período de tempo.

A Organização, os bons princípios e boas ideias, sempre me pareceram ser apanágio das equipas orientadas por Jorge Jesus e Manuel Machado. Independentemente das evidentes limitações orçamentais.
Essa percepção, permite-me concluir que tais treinadores possuem, no mínimo, alguma sapiência táctica. Jorge Jesus, apregoa possuír bem mais do que somente “alguma”. E eu concordo. As suas equipas, sempre foram colectivos, e não, soma de individualidades. Os estágios em Barcelona, foram uma grande mais valia na sua carreira.
Na percepção que têm sobre o jogo, parecem-me ser do melhor que temos pela Liga Sagres. Sendo legitimo, a ambos, o “sonhar” com uma proposta de um clube de nomeada.

Há, no entanto, um factor, absolutamente decisivo, a melhorar, se pretendem que a sua “candidatura” seja tomada como algo de sério. Factor comum a ambos.
A linguagem.

Jesus, autentico “Richard Gere de Alfama” dificilmente seria levado a sério por jogadores extremamente bem pagos, com a sua linguagem absolutamente descuidada. Ao primeiro revés, o “jogámos muitá bem” não seria tido como um discurso de bom tom. Os próprios jogadores, cada vez mais, vão tendo (nos bons clubes) treinadores ao longo da sua formação, que se preocupam com a forma como expõem as suas ideias. Encontrar uma realidade totalmente oposta, seria no mínimo motivo para chacota.
Machado, na sua tentativa de se demarcar dos treinadores da “velha guarda”, os tais que agem por instinto, e não por conhecimento, adopta um discurso absurdo. Na tentativa de parecer um “bom falante”, Machado não percebe que não se expressa com mais qualidade que qualquer outro. Apenas o faz de forma diferente. Trocar “ultimo lugar”, por “posição terminal da tabela”, não é uma questão de falar melhor. É apenas diferente. A forma abusiva como tende a complicar todas as ideias que pretende expor, usando um discurso diferente, mas não melhor, tornariam-o demasiado susceptível às brincadeiras dos atletas com estatuto elevado. Tal, seria sempre o princípio do seu fim.
Ao treinador, exige-se, cada vez mais, competências, bem para além do conhecimento táctico. Particularmente em clubes demasiado populares. Compreendê-lo, em vez de passarem a vida com lamentos sobre a sua nacionalidade (“O que é estrangeiro é que é bom” dizem), poderá levar alguns treinadores nacionais, a melhores clubes. E Jesus, bem parece ter conhecimentos para algo mais.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2359 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

6 comentários em Machado, Jesus e os entraves à sua ambição

  1. Concordo com o essencial: ambos os treinadores possuem valor para merecer algo mais do que até agora lhes foi oferecido.

    Mas o futebol não é uma ciência exacta e foi para mim uma surpresa ter visto o insucesso de Machado em Braga, onde Jesus tem agora boas possibilidades de triunfar. Quem sabe se Machado tem pegado no inicio do ano na equipa não teria tido melhor sorte.

    Quanto à questão da linguagem e observando o que dizem os jogadores sou obrigado a concluir que Machado corre o risco de ninguém o entender dentro do balneário, se adoptar o discurso das conferências de imprensa. Jesus fala de forma a que os jogadores o percebam, aquilo que se denomina habitualmente a linguagem do futebol.

  2. Boa observação. Como conheço bem os dois, eis o que penso: Machado não fala no balneário como fala para fora. É bem mais terra a terra e objectivo, tanto para os jogadores como para os jornalistas fora o circuito normal das conferências de Imprensa. Quanto a Jorge Jesus, é um facto que terá de «lapidar» o discurso para o exterior. Para dentro, perfeito, todos o entendem muito bem e nesse caso os estatutos, maiores ou menores de cada jogador não constituem problema. Agora, num clube maior, com projecção nacional e internacional, a «lábia» tem de ser outra – e bem menos rudimentar. Abraço

  3. São os dois bons treinadores. O “machadês” não dá com nada, mas Jesus também precisa de melhorar o seu léxico e, sobretudo, a maneira de falar. No entanto, o que interessa mesmo são os resultados

  4. Não concordo com a comparação. Se considero Jesus competente para uma equipa de segunda linha em Portugal, como o Braga, o Manuel Machado acho-o um treinador muito limitado. Não é muito diferente dum José Mota ou dum Jaime Pacheco. Só para dar um exemplo, é dos poucos treinadores na primeira liga que tem um conceito puro de defesa homem-a-homem. O recente jogo com o Benfica foi disso um bom exemplo, com a equipa a apresentar 3 defesas centrais para fazer marcação ao homem aos 2 avançados do Benfica. Não concordo, por isso, que o Manuel Machado seja um treinador tão competente quanto Jesus.

    Abraço!

  5. Concordo com o Nuno quando diz que são casos diferentes. O MMachado é pragmático e objectivo, mas também algo limitado na forma como concebe as suas equipas (nomeadamente no tal processo defensivo muito à base de referências individuais).
    O Jesus, para mim, é treinador de grande. Pode cometer erros de linguagem, mas creio que isso é secundário para o que é realmente essencial. É muito forte tacticamente e tem a humildade de querer sempre aprender. O único ponto que tenho dúvidas, e concordo com a tua afirmação inicial, é relativamente às suas metodologias de treino, que desconheço. Julgo ser muito possível o Braga ainda se intrometer seriamente entre os grandes este ano. Vamos ver os próximos 2 jogos.

    Abraço

  6. Totalmente de acordo com o Nuno. O Machado é do piorzinho que temos por cá. Não tem qualquer tipo de comparação com o Jesus, que, esse sim, é dos melhores treinadores portugueses da actualidade. Teve um longo período sabático aproveitado para estágios em Itália e Holanda, procurou aprender, actualizar-se e os resultados estão à vista…claro que há ali um problema de postura e compostura, de expressão também, concordo. Mas quanto a isso já é difícl alterar…

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