O SL Benfica de Fernando Santos

white corner field line on artificial green grass of soccer field
Ponto prévio. O texto não pretende tecer juízos de valor sobre a competência de Fernando Santos. Nem tão pouco dar a entender, que o seu regresso, seja uma opção interessante para o SL Benfica.

Nos últimos anos, quando as coisas não parecem correr bem com a equipa de futebol, a massa adepta do SL Benfica parece dividir-se entre os saudosistas de Fernando Santos e os que desde sempre lhe alimentaram um ódio quase visceral.

Bom sinal para Fernando Santos. Quando foi contratado, ninguém pareceu confiar nas suas capacidades. Pensar que muitos ainda recordam a sua época, é, claramente, uma vitória sua.

Alguns dados. Uns mais objectivos que outros.

– SLB termina em 3º lugar, entra na última jornada com (remotas) chances de se sagrar campeão;

– SLB atinge os Quartos de Final da Taça Uefa (onde é eliminado de forma injusta, após ser, previamente, eliminado na Liga dos Campeões, onde estava inserido num grupo relativamente acessível);
– SLB realiza a sua melhor época em termos exibicionais pós 93/94 e consegue 2/3 de vitórias nos jogos do campeonato nacional (tudo isto, com uma pré-época semi boicotada por decisões estranhas. A possível venda de Simão, que o impediu de treinar por um mês, o atraso na contratação de Miccoli e as constantes lesões de Rui Costa e também do italiano, foram grandes handicaps).

Méritos de Fernando Santos:

– O futebol praticado era extremamente atractivo. O SLB tinha a capacidade para criar oportunidades de golo em catadupa. Em vários jogos marcava muitos golos. Em outros tantos, desperdiçava-os. Porém, situações de perigo em jogadas de futebol apoiado e envolvente, nunca faltaram. Faltou, talvez, um goleador.

– O bom futebol em termos ofensivos, era mérito de Fernando Santos. As combinações ofensivas e transições rápidas para contra-ataque (a decisão de colocar Simão como nº10 no losango foi fantástica e possibilitou-lhe realizar, em termos exibicionais, a melhor época da sua carreira) foram movimentos pensados, ensinados e treinados por si. Claro que ajudava ter Simão e Miccoli na equipa.

– Soube sempre perceber o contexto em que estava inserido e moldou a táctica e a dinâmica, às características dos jogadores que compunham o plantel.

Deméritos de Fernando Santos:

– O método defensivo (marcações HxH) impediu o SL Benfica de ir mais longe. Os golos sofridos eram sempre muito similares. Quase sempre, fruto do mau posicionamento defensivo de Nélson. Luisão, surgia quase como o defesa direito da equipa. Tivesse conseguido ou tentado, explicar e colocar em prática uma zona defensiva, em vez das tradicionais marcações HxH, teria melhorado de forma bastante acentuada a prestação do quarteto defensivo. (Luisão, refere-o sempre, como o grande mérito de Quique Flores);

– A incapacidade para se impor perante a direcção, de todas as vezes que o seu trabalho foi semi-boicotado.

Fernando Santos poderá não ser um treinador de excelência, mas percebe-se o porquê do saudosismo. À falta de vitórias (cuja responsabilidade tem de ser repartida por ínumeras pessoas), havia futebol. E bom.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2348 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

7 comentários em O SL Benfica de Fernando Santos

  1. Fernando Santos foi, para mim claramente, o melhor treinador do Benfica desde a conquista do último título. A verdade é que a sua falta de discurso de qualidade para fora (ao contrário de Quique Flores), alguma falta de pulso, e a bandalheira que reinava à sua volta levaram à sua saída.

    Em termos de futebol jogado, se defensivamente havia algumas debilidades, que apontaste e bem, ofensivamente impressionavam a quantidade e qualidade de combinações ofensivas. E acima de tudo, algo importantíssimo no futebol moderno, que se vê frequentemente no Porto de Jesualdo e se vê rarissimamente no Benfica de Quique: a capacidade e disponibilidade de aproximação à área adversária de 5/6 jogadores.

    Nesse Benfica em algumas situações tal facto deixava a defesa e meio campo demasiado desprotegidos e sujeitos a transições eficazes dos adversários, mas no Porto já não vemos isso acontecer.

  2. Excelente artigo!

    Totalmente de acordo. Sou e fui a 100 por cento com a manutenção de Santos à frente da equipa e não compreendo, nunca compreendi e dificilmente alguma vez compreenderei as constantes críticas ao seu trabalho – talvez que aconteça o facto de os adeptos, na sua maioria, terem dificuldade em ver futevol de uma forma séria, apaixonada, sim, mas focada nos aspectos que interessam e não em sabe se o treinador é totó, frouxo ou se é católico. Enfim, comparando o futebol dessa altura com o desta, apetece-me chorar. Se é para não ganhar, ao menos que se jogue futebol.

    E, atenção, defendo a continuidade de Quique, só para esclarecimento.

    Obrigado, PB, por escreveres um texto lúcido sobre uma época que ficou manchada por mentiras e pouca capacidade para ver futebol de muitos benfiquistas.

    Abraço!

  3. Totalmente de acordo, com o texto e com o comentário do Ricardo…

    Ainda hoje mantenho discussões (estéreis) com muitos benfiquistas relativamente a essa época. De facto há coisas insondáveis…daria para um estudo…

    Abraço

  4. Grande post, não fui dos apoiantes á vinda de Fernando Santos mas fui um dos que não apoiou a sua saida, porque acho que fez um bom trabalho, mas teve o azar das lesões de jogadores importantes em alturas ainda mais importantes caso de Rui Costa e Micolli, ou seja penso que Fernando Santos com uma equipa técnica (falo dos fisioterapeutas) que soubessem por os jogadores em forma e penso que ele teria muitas hipóteses de ser campeão.

  5. Excelente artigo! Como foi referido, o benfica não ganhou os jogos todos em casa (empatou salvo erro com Porto, Sporting e Braga) mas era bastante dominador e o futebol sem dúvida muito apoiado e com vários jogadores a aparecerem na zona de finalização. Fui dos muito poucos que foi a favor da contratação de Santos e que fiquei muito desgostoso com a sua saída. Não é extraordinário, mas muito competente e já no Sporting me pareceu que foi afastado injustamente tendo em conta o rendimento que conseguiu retirar dos jogadores. Falta-lhe de facto um discurso ao nível de Quique Flores (mas sinceramente, que se f… o discurso!). Digo apenas que, e já aqui foram focadas as lesões de Miccoli e de Rui Costa, não tenho a mínima dúvida que, com o Maestro a ter uma época parecida com a sua última, e sem todos aqueles problemas a volta da sua lesão mal avaliada, o Benfica tinha todas as condições para ser Campeão e para ter feito história na Taça UEFA. E faltava, como já se disse aqui, um finalizador…

    Um abraço, Tiago Máximo

    http://sarapitolofboobs.blogs.sapo.pt/

    Visitem, alguns post’s falaram, na época de F. Santos, da injustiça de muito poucos o apoiarem e de eu ser um deles.

  6. PB,

    É verdade o que referes sobre Fernando Santos. Não é um treinador muito evoluido em alguns aspectos (falaste e bem nas marcações HxH) mas é bastante competente e teve sempre boas prestações em todos os clubes onde passou (excepto Panathinaikos). Nele destaco a filosofia de jogo porque faz apelo a um pressing mais alto, o que normalmente é importante para equipas que querem dominar a maior parte dos jogos.

    Sobre ele escrevi várias vezes na altura e deixo-te, por curiosidade, 2 links para posts que fiz nesse tempo.

    http://jogodirecto.blogspot.com/2007/03/o-benfica-de-fernando-santos.html

    http://jogodirecto.blogspot.com/2007/09/afinal-qual-era-o-problema-de-fernando.html

    Abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*