Jorge Jesus. O discurso.

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Esqueça a forma, por demais, debatida. Concentre-se no conteúdo.

Na entrevista concedida recentemente, várias são as afirmações, que para além de interessantes, acabam por transparecer um pouco das suas ideias e filosofia perante aquilo que é o jogo e o treino.

“No Sp. Braga nunca pedi tempo. Se a mensagem do treinador passar facilmente, os jogadores vão assimilá-la rapidamente.”

A perspectiva de que a continuidade é fundamental, não passa de um mito. Se o treinador for capaz de tornar as sessões de treino proveitosas (de acordo com (bons) objectivos colectivos pré-definidos), é mais do que viável obter sucesso no 1ºano. Certo, Guardiola?

“A minha ideia de jogo defensivo tem muito a ver com espaços. Se uma equipa tem dois centrais rápidos, é claro que é melhor, mas se não os tiver o fundamental é ter noção das distâncias em relação à bola.”

Não admira que tanto o seu Belenenses, como o seu Sp Braga fossem as equipas mais fortes em termos defensivos da liga. A grande maioria dos golos sofridos, acabaram por ser fruto de incríveis erros individuais. Basta recordar os golos do FC Porto e do SL Benfica na “pedreira”.

“De acordo com as características dos jogadores do Benfica, encontrarei soluções para colmatar a sua saída.” Sobre Katsouranis.

“Como o Benfica tem jogadores evoluídos técnica e tacticamente, dá para colocá-los em várias posições. Aliás, penso que vai ser esse o grande segredo e evolução do futebol no futuro, em todo o mundo: Vários jogadores com capacidade para actuarem em várias posições.”

“Sim. Posso é tentar modificar algumas características individuais desses atletas.” Sobre a possibilidade de integrar extremos “puros” nas suas equipas.

“Os bons jogadores encaixam em qualquer sistema e Reyes é um excelente jogador.”

Com boa técnica, muita inteligência, vontade e abertura para a aprendizagem, e com um treinador com conhecimentos, e capaz de sistematizar e organizar o treino, de forma a potenciar os objectivos pretendidos, qualquer jogador pode fazer, quase, qualquer posição.

Pela entrevista, nota-se que há, ainda, a intenção de testar Urretaviscaya (um avançado) como médio interior direito. E porque não? Parece inteligente, é rapido e muito interessante do ponto de vista técnico. Se aprender a ocupar o espaço e a cumprir os princípios de jogo será seguramente melhor jogador que qualquer outro, com 10 anos de (má) prática.

P.S. – Jesus é extremamente competente, naquilo que é mais importante. Na vertente táctica. Porém, terá de demonstrar, também, capacidade, nas questões relacionadas com o perfil de liderança e comunicação.

P.S. II – “Comigo, os jogadores sempre se valorizaram muito”. Apesar da elevada “taxa de bazófia”, com que prima os seus discursos, é indesmentível o que afirma. Essa será, porventura, uma das razões pelas quais, a generalidade dos seus ex-jogadores, o consideram o melhor das suas carreiras.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2362 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

3 comentários em Jorge Jesus. O discurso.

  1. Excelente entrevista. Directo aos assuntos, conhecedor e com uma ambição de acordo com a necessidade do Benfica.

    Não tenho dúvida em afirmar que, se factores externos não influenciarem o seu trabalho, terá muito sucesso no clube.

    Gostei de saber que conta seriamente com o Urreta. Só ficou um assunto por abordar: Adu, conta ou não?

    Por aquilo que se vai sabendo, e mesmo pelo teor da entrevista, parece que o americano não conta para Jesus.

  2. "A perspectiva de que a continuidade é fundamental, não passa de um mito. Se o treinador for capaz de tornar as sessões de treino proveitosas (de acordo com (bons) objectivos colectivos pré-definidos), é mais do que viável obter sucesso no 1ºano. Certo, Guardiola?"

    Não concordo. É verdade que se consegue obter um trabalho quase perfeito com um trabalho de 5, 6 meses. Mas há muitas variáveis em questão e não existe uma linearidade nestes casos.

    Por melhor que um treinador passe a mensagem o seu fruto está quase exclusivamente ligado à capacidade de interpretação do receptor. Se um treinador chegar a um clube onde a maioria dos jogadores tem dificuldade em assimilar ou alterar processos demorará muito mais tempo a fazê-lo. Sem contar ainda com os totalmente incapazes. Com um sistema de continuidade o treinador poderá, com ajustes no plantel adquirir jogadores mais cultos e mais capazes para interpretar o futebol que deseja.
    Além disso muitas vezes as alterações e dificuldades são tão significativas que o treinador opta por fazer um evolução mais lenta e fazeada dos princípios e sub-princípios de jogo e aí meses de treino não chegam para obter o futebol desejado.

    Apontaste o exemplo do Guardiola. Pois bem. O Guardiola não herdou propriamente um grupo recriativo. Herdou uma equipa com muitos jogadores inteligentes e todos eles bastante rotinados no esquema do rijkaard que em muitos aspectos se assemelhava ao deste novo barça. Com isso, trabalhou-o à sua imagem com a alteração/integração de alguns princípios de jogo em 4 ou 5 meses atingiu o nível ideal.

    Mas em contraponto posso dar-te o exemplo do Mourinho. Certamente um dos melhores do mundo, senão o melhor, e sentiu-se impotente no inter de Mancini. Apesar do plantel do inter ser composto por excelentes jogadores Mourinho não conseguiu aplicar os seus princípios de jogo e preferiu a certa altura consolidar melhor alguns processos defensivos e trabalhar zonas de pressão 10 20 metros à entrada do seu meio campo, do que insistir num dos seus grandes princípios de jogo: zona de pressão alta. Os processos ofensivos foram praticamente de recurso: tudo girava à volta de zlatan (um pouco à imagem de drogba no último ano de mourinho no chelsea) muito pouco trabalhados. Há uma frase de Mourinho muito elucidativa onde diz que a equipa sentia muitas dificuldades em pressionar e ele próprio dizia à equipa que organiza-se um bloco baixo. Não me lembro de Mourinho ser apologista de bloco baixo antes de ter chegado ao inter!
    Agora não tenho dúvidas que contratando alguns jogadores e passando a trabalhar outros princípios a partir dos que já estão assimilados a equipa irá evoluir e aproximar-se do futebol que Mourinho pretende.

    Por isso não creio que a continuidade seja um mito. Creio que ela é muitas vezes indispensável pois só em situações muito favoráveis é que se atinge um futebol pretendido em 5 6 meses.

    cumprimentos

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