O treinador português e os princípios do jogo.

white corner field line on artificial green grass of soccer field

É possível que não haja, em Portugal, treinador que não tenha ouvido, ou lido nada, sobre os princípios do jogo. Outro facto, quase tão comum aos treinadores portugueses, quanto o conhecimento de que tais princípios existem, é a desvalorização dos mesmos. O preconceito de que o jogo de futebol nada tem que saber, ou a desvalorização da teoria (que valida a prática), leva a que uma larga maioria de treinadores ignorem os ditos princípios. Não percebendo, que tais, são a base de todos os comportamentos tácticos a adoptar num jogo de futebol.

Na Liga Sagres, poucas são as equipas, que no campo, mostram dominar os princípios do jogo. No plano ofensivo, a progressão (sempre no sentido da baliza adversária), a cobertura ofensiva (apoio ao portador da bola, numa linha mais recuada no campo de jogo), o espaço (largura X profundidade) e a mobilidade. E no plano defensivo, a contenção (pressão, mais ou menos activa sobre o portador da bola), a cobertura defensiva (apoio ao colega em contenção, através do posicionamento, numa linha mais recuada no campo), a concentração (proximidade entre jogadores. No mesmo sector e entre sectores) e os equilíbrios (troca racional de funções. Quem sai à contenção? quem compensa a saída do colega?), são apanágio das melhores equipas europeias.

Quando Jorge Jesus compara a Liga Sagres ao campeonato italiano e enaltece as qualidades do treinador português, está somente a ser cortês. Em Portugal, espera-se que, na fase defensiva do jogo, a agressividade desmesurada (quase sempre com a complacência dos árbitros), resolva os problemas defensivos. Os ofensivos, estão entregues à inspiração individual. Obviamente. Para muitos, o golo depende sempre da inspiração de uma individualidade.

Jesus sabe que não está a ser verdadeiro. Sabe, perfeitamente, que as suas equipas, são das poucas em Portugal, capazes de cumprir todos os princípios de jogo (derivará a sobranceria no discurso, dessa mesma percepção?). Sabe, que os conhecimentos adquiridos em Barcelona com Johan Cruyff, e em Itália, com Alberto Malesani, não são passíveis de ser aprendidos com José Mota ou Rogério Gonçalves.

P.S. – Um ex jogador do Estrela da Amadora (onde fez praticamente toda a carreira), confessou-nos que, em toda a sua carreira (mais de dez anos a jogar na primeira divisão), Jorge Jesus foi o único treinador que teve, com ideias. Com um pensar colectivo. Todos os outros, esperavam pela inspiração do momento. “Cada um por si, e vamos lá ver o que dá isto”.

P.S.II – Em Portugal, os melhores treinadores, continuam a estar na formação.

P.S. III – A esperteza, na qual muitos dos treinadores portugueses são férteis, é a saloia. Queimar tempo, simular lesões, resolver os problemas à cacetada e defender com 11 na grande área, não é inteligência. Para além de estupidez, é o reconhecer de uma incapacidade, quase atroz.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2348 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

14 comentários em O treinador português e os princípios do jogo.

  1. Dos mais de 20 treinadores de futebol que estão ao serviço do Benfica, escolheste aquele q provavelmente menos competência tem…

    Simples anónimos. Poderia dizer-te vários nomes , mas são de ilustres desconhecidos.

    Na formação do sporting, há mais treinadores competentes (do ponto de vista táctico) do que na superliga.

  2. Há muitos. Eu participei na organização de um torneio de infantis, iniciados e juvenis em Alcochete e vi lá treinadores com grandes capacidades, com ideias muito boas, muito esclarecidos e pensei mesmo: será que não fariam boa figura na 1ª Liga? Alguns até o 3º nível tinham (não é para desvalorizar clubes como Palmelense, Alcochetense ou Porto Alto, mas um treinador com o 3º nível estar a treinar os iniciados do Palmelense é um pouco mal aproveitado, penso eu).

  3. Muito bom o post.

    Apetece-me perguntar, no meio de toda esta teoria, qual o papel que se atribui à capacidade de gestao de homens e de "motivacao" (embora nem sempre goste de usar esta palavra, mas é a de mais fácil compreensao)?

    i.e., o PB falou e muito bem da grande competencia TECNICA dos treinadores da formacao do Sporting. Mas quantos deles teriam "unhas" para se aguentar na Superliga?

    Cumprimentos

  4. Vou te fazer uma pergunta q nao tem nada a ver com post, mas como acompanho o teu blog sei q percebes "disto".

    No golo que o benfica sofre contra o aek, de qual dos centrais do benfica é a culpa?

    Se pudesses responder seria óptimo.
    Obrigado e um abraço.

  5. Perguntei Diamantino precisamente porque a minha opinião sobre ele também não é lá muito boa, pensei que pudesse estar enganado. No Benfica, a nível de formação há um tal de Bruno Lage que dizem ser muito bom, mas como nunca fui treinado por ele… 🙂

  6. Mas desde quando um nível de treinador dá qualidades?!!!

    Eu já vi treinadores de 4 nivel dar cursos, falar muito bem e terem grandes ideias e grandes powerpoints ao nivel dos melhores, e depois na pratica, ao treinarem as suas equipas, ao tentarem expor no terreno aquilo que mostram no quadro e na lingua, são uma figura ridicula, tal como muitos grandes escritores de blogues que pensam que falar e escrever bem sobre futebol, é um grande treinador e que fazia melhor que os outros, pois a realidade nos demonstra o contrario.

    A prática é sempre diferente da teoria.

  7. Eu falei de treinadores na formação com nível 3 mas apenas para dar um exemplo de treinadores muito qualificados a trabalhar na formação em equipas bem modestas. Mas obviamente que falei neles porque os vi a trabalhar ao vivo e vi neles muita qualidade, excelentes ideias e visão do futebol e poderiam mesmo ter muito sucesso numa primeira liga. Muito mais que muitos desses Carvalhais, Ulisses Morais e outros que tais.

  8. Deixo de cá vir uns dias e perco umas conversas brutais! Mais uma vez excelente post.
    Devo dizer que estive a tentar aprender com um treinador da formação de um clube de Portalegre, que ainda assim duvido que venha a ler isto, mas que, à parte do que é como pessoa, não passará da cepa torta como treinador. Uma ou outra ideia, para mim às vezes redundante, mas mesmo que não fosse, isto a nível dos mais miúdos, 11 anos, de uma incapacidade comunicacional tremenda, quer comigo, quer com os miúdos, mas que, ao fim ao cabo, na época anterior se revelou capaz de vencer a série, só perdendo a Taça da região, para o Campomaiorense, completamente espoliado pela arbitragem, para fazerem o jeito ao Campomaiorense. Que dizer disto? Posso ainda acrescentar que o dito treinador chegou a jogar na Divisão de Honra, nos seus tempos de futebolista. Boa pessoa, mas a meu ver limitada na parte de transmitir conhecimentos.
    Como é que propõe passar o conhecimento em processo de treino? Só falar? Exercícios integrados? Se sim, como é que se integram as partes do jogo num exercício? Isto são coisas que quero mesmo aprender!

    Abraço

    Márcio Guerra

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  9. Só falar n dá nada 🙂

    Na nossa opinião, é decisivo, explicar o que se pretende, e criar exercício(s) que trabalhem o objectivo pretendido.

    Para que as coisas saiam, é preciso saber o q se quer, e depois disso, repetir. Repetir. Repetir imensas vezes, até ficar bem.

    A construção dos exercícios depende sempre do objectivo…

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