Da ignorância sem fim

white corner field line on artificial green grass of soccer field

Nos momentos em que, por falta de ideias, se torna mais difícil a actualização do blog, há um exercício que não dispensamos. Ler o Correio Sport. Luis Sobral e Querido Manha são inspiradores.

Diz Manha que o modelo de Jesus está esgotado e que Javi Garcia tornar-se-à no novo Yebda.

A razão que leve alguém a crer que uma equipa que em 11 jogos da Liga, soma 26 pontos, marca por 31 vezes, consentido somente 7 golos, e que na Liga Europa lidera com enorme categoria o seu grupo, tem o seu modelo esgotado, só poderá ser estupidez, ignorância ou maldicência. Provavelmente, a mesma estupidez ou ignorância, encontrada em todos os que supunham que o jogo de Alvalade não seria jogo de tripla.

O ridiculo do texto centra-se, contudo, na sugestão de uma nova táctica para o SL Benfica. Diz Manha que Javi se tornará no novo Yebda. Não percebendo que o francês, esse sim, foi vitima de um sistema táctico que coarctou todas as possibilidades de êxito colectivo e individual a que o SL Benfica poderia aspirar.

Se Javi Garcia tem estado em plano de destaque, tal deve-se, não só à imensa qualidade do espanhol, mas, principalmente à importância que tal posição assume no sistema táctico do SL Benfica. No modelo de Jesus, o trinco é o responsável pelo equilibrio da equipa. Não raras vezes, o vemos a ocupar a posição de defesa central. Em situação ofensiva, quando o central sai com a bola. Em situação defensiva, quando um dos elementos do sector defensivo, sai à bola, cabendo-lhe nessas ocasiões, o reassumir de uma posição na linha de 4 (troca com o tal jogador que saiu da linha, por forma a pressionar o portador da bola). Javi é o centro da equipa. Não por ser Javi, mas porque o modelo de jogo assim o impõe.

A principal mudança do anterior para o actual SL Benfica, reside precisamente no espaço que o espanhol ocupa. Sugerir o regresso ao duplo pivot, para uma equipa que tão poucos golos sofre, e tão poucos ataques consente é hilariante e demonstradora da percepção que os tipos do Correio Sport têm do jogo. Quando se pensava que seria impossível afirmar uma barbaridade tão grande, quanto o sugerir a troca de Saviola por Weldon na equipa titular, eis que é sugerido o abandono do actual sistema táctico. Priceless.

P.S. – Talvez nem todos tenham a percepção daquele que é o valor da equipa do Sporting, e da dificuldade e imprivisibilidade que é jogar um derby. Por aqui, que o sabemos, parece-nos que a exibição bastante madura e o resultado do SL Benfica em Alvalade, poderá ter significado um passo bastante importante rumo à glória que Jesus tanto ambiciona.

P.S. II – Sobre Yebda. Quando Javi, eventualmente, for transferido, o francês será uma opção bastante interessante. Não dúvide que num modelo de jogo com tanto sentido, e que tanto valoriza quem joga à frente dos centrais, Yebda, estaria de novo com a cotação em alta.

P.S. III – Não se percebe se desvalorizando o resultado do SL Benfica em Alvalade, se pretende desvalorizar a equipa de Jesus, ou a do Sporting. Seja qual for a ideia, está bastante errada.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2355 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

17 comentários em Da ignorância sem fim

  1. para variar… concordo quase na totalidade.

    O quase prende-se com o facto de se fazer deste post uma leitura às palavras do Manha e não uma análise…

    Eu entendo o que ele quís dizer e até acho razoável, apesar de ser um pouco excessivo… no entanto, também ninguém vai dar-se ao trabalho e despesa de ler um comentário onde só são apresentadas constatações, frase-feitas, lugares-comuns e politicamente-correctos… aliás… penso que estás a seguir a mesma lógica na elaboração do teu post.

    O que é facto é que o 4-4-2 losango do Jesus, do Benfica… está monocórdico.

    Falta variabilidade de jogadas e de adaptações durante o jogo. Defensivamente o Benfica está sólido, consistente e relativamente eficaz, faltando apenas maior segurança na lateral esquerda… agrava a este facto que o Di Maria é mais frágil na transição defensiva que o Ramirez.

    Ofensivamente, exceptuando os lances de bola parada, o jogo peca por previsibilidade. No entanto, diga-se que é uma boa previsibilidade, já que os executantes são de boa qualidade. O que é facto é que todo o jogo ofensivo passa por Aimar, e se este for bem marcado ou se estiver em baixa de forma não tem mais ninguém para o substituir nas funções e responsabilidade nem o Jesus tem alterado a equipa de forma a que não seja necessário que o jogo passe pelo meio. Poderia eventualmente preparar um 4-3-3 como opção, ou um 4-1-2-3, com duplo pivot ofensivo e um ponta de lança único (aliás, poderia trabalhar o Saviola para baixar, jogar de frente para Cardoso e apoiar o Aimar). Para ambos falta um extremo direito.

    Já o tinha dito antes do jogo com o Braga… em termos estratégicos é fácil planear a situação para bloquear ofensivamente o Benfica… depois é esperar que os jogadores sejam eficientes e que o Benfica tenha alguma falta de inspiração.

    Psicológicamente, está a instalar-se na mente dos jogadores do SLB uma sombra de incerteza e falta de segurança quanto ao continuar do sucesso deste estilo e modelo de jogo… tenho a certeza.

  2. "Psicológicamente, está a instalar-se na mente dos jogadores do SLB uma sombra de incerteza e falta de segurança quanto ao continuar do sucesso deste estilo e modelo de jogo… tenho a certeza."

    Nuno Silva, se a tua certeza for tao certa como o facto de nao veres que o Benfica nao joga em 4-4-2 mas sim em 4-1-3-2 entao nao me preocuparei minimamente com a tua delirante bitaitada.

  3. Em toda as equipas existem jogadores que são demasiado importantes para serem vendidos. Não só na colocação estratégica da equipa mas pelo que simbolizam, e pelo exemplo que são , para os outros jogadores e também para os adeptos. E até pelo respeito que incutem nos adversários. O Javi é um deles. Penso que rapidamente absorveu e interiorizou o que é ser um jogador à Benfica.

    Em todas a empresas e organizações existem prioridades que são mais prioridades do que outras.

    Na minha humilde opinião, uma dessas prioridades do Benfica terá de tentar manter o Javi a todo o custo, como manteve o Luisão, e NUNCA vendê-lo por melhores que sejam as ofertas que venham.

    Saudações Benfiquistas

  4. Li o artigo do manha no record. É incrível e sinceramente não dei grande valor ao que escreveu lá. Pareceu-me apenas uma tentativa frustrada de provocar os benfiquistas. Falhada.

    Apesar de mais por desejar do que por acreditar ter previsto que o Benfica ganhava e bem, toda a gente sabe que era um jogo de tripla.
    Obviamente há coisas a melhorar e há novas estratégias a desenvolver, é idiota dizer-se que o modelo se encontra esgotado.
    Dizer que é previsível é absurdo.

    Fico apenas triste pois o Benfica devería, e até mostrou que podería, ter ganho o jogo.

    Ah… e concordo a respeito do Yebda. Pode até não ser tão eficaz como Javi, visto não ter as rotinas de central que Javi tem, daí necessitando mais tempo de adaptação, mas faría bem o lugar.

  5. Posso até compreender essa do 4-1-3-2… não é a minha opinião … nem a do Jesus que como sabemos jogou e joga em 4-4-2 losango.

    No entanto, qual é a diferença entre os 2 sistemas?

    o Benfica, se quiseres, tem no Ramirez o que seria um médio e no Di Maria um avançado… 4-3-3? é um 4-1-3-2 do lado esquerdo do campo… e um losango do lado direito!

    🙂

  6. Concordo em muito com o post, e contrario em muito o Manha… mas temos que ver que a principal diferença do Yebda e o Javi (e foi isso a razaão da sua dispensa) é o tempo de passe, o tempo que ambos demoram a soltar a bola, o que é curcial naquela zona do terreno… a primeira fase de construção é ali! e nisso Yebda era um pouco "burro" porque nunca percebeu o craque que não era, enrolando-se muitas vezes com a bola… na tentativa de sair a jogar com ela… uma coisa que não sabia.
    Fisicamente e posicionalmente, sim são parecidos! mas em termos construtivos, era essa a grande pecha de Yebda…
    Mas parabéns pela óptima leitura do post!

  7. Livre Directo

    O Yebda era "obrigado" pelo sistema de apenas dois medios a ter alguma bola. em 4-4-2 classico ambos os medios devem ter a capacidade execução a nivel da média. Nunca te perguntaste porque é que os ingleses produzem tantos box-to-box?
    O Javi com o Quique seria mais um flop de todo o tamanho…

  8. sim, eu sei disso, o problema neste esquema é que o Yebda teria que soltar rápido a bola… coisa que para o rapaz era um pouco impossível… e isto por culpa própria. Notou-se na pré-epoca, onde já nao ca estava o Quique nem o 442 clássico

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