Adaptações – o pesadelo dos adeptos. Jesus, a voz da prática.

Pesadelo que não tem razão de ser, se durante a(s) semana(s) o treinador preparar correctamente o atleta para jogar num espaço diferente ao qual está habituado.

“Não inventei nada. Nem com o Coentrão, nem agora com o Melgarejo. Só se pode fazer este tipo de trabalho quando o jogador tem qualidade. É preciso reunir uma série de características e, a partir daí, trabalha-se nesse sentido” Jorge Jesus

Muitos são os que olham para o futebolista como se tivesse uma espécie de rótulo. É defesa esquerdo. É médio. É avançado. Quando no fundo, a realidade é tão simples como a que se encontra logo desde bem cedo na escola nas aulas de Educação Física. O melhor aluno é melhor em todas as modalidades. O melhor em Andebol, é melhor em Futebol, Basquetebol e Voleibol. O desajeitado é o menos apto em todas.
No alto nível não há descoordenados. Mas há quem seja substancialmente melhor que outrem. Se há um jogador bastante inteligente na tomada de decisão, capaz o suficiente de perceber como deve ocupar o espaço e actuar perante os princípios defensivos/ofensivos, mais rápido, mais forte e com melhor qualidade técnica, então esse jogador não será melhor que um colega menos apto em qualquer posição, só porque no rótulo aparece uma posição diferente? É seguro que as experiências anteriores são absolutamente decisivas, e que há posições que poderão requerer mais tempo de adaptação do que outras. Ou porque servem de referência ao jogar da equipa, ou porque enfrentam mais situações fora da norma comum.
Enquanto a equipa for verdadeiramente equipa no sentido colectivo do termo. Enquanto os princípios de actuação e movimentação defensiva ou ofensiva (em função da situação de jogo. Quantos contra quantos?) estiverem bem definidos, será sempre possível aprendê-los. Desde que no treino o treinador seja capaz de fornecer os estímulos adequados.
O rápido sucesso de Melgarejo não foi surpresa. A questão principal seria perceber se era o suficientemente inteligente para aprender a posição. E desde os primeiros jogos se percebeu que interagia com assertividade com os colegas. A partir daí e cada vez com mais experiência / vivência de situações que enfrenta naturalmente que o nível haveria de subir.

“Não inventei Coentrão ou Melgarejo. Houve criatividade? Alguma, mas só porque tinham capacidades físicas e técnicas.” Jesus. 
Um exemplo. Trabalhado nesse sentido, Carrillo seria sempre o melhor lateral do Sporting. A questão é que tamanho talento talvez pudesse ser um desperdício na posição. Mas isso são outros quinhentos. Garantidamente que o peruano até na baliza seria melhor que Miguel Lopes ou Joãozinho.
Algumas frases interessantes do treinador do SL Benfica:
“Ola John não conhecia os princípios do jogo. Mas atenção, não sabia, mas a maioria dos jogadores também não sabe.” 
“Quando equipa falha no processo defensivo a culpa maior é do treinador. Mas não tanto no ofensivo. O treinador não pode ensinar um jogador a driblar”
“Os jogadores exigem hoje saber o porque do trabalho que estão a fazer. Antes, não, até porque os treinadores também não sabiam assim tanto”
“A maior parte da bateria de treinos foi criada por mim. Porque é para o meu modelo de jogo”
O conteúdo de tudo o que transmite é super interessante. Sobretudo porque decorre da prática. Não há livros que possam fazer bons treinadores. Quem nos segue desde sempre e leu ou ouviu atentamente Jesus, sabe que tudo ou praticamente tudo daquilo que Jesus transmitiu já foi algures no tempo abordado no “Lateral Esquerdo”. A segunda frase transcrita, pode por exemplo, servir de argumentação a tudo o que tem sido apontado ao Sporting na presente época. Primeiro o caos defensivo com responsabilidade total de Sá Pinto. Posteriormente com a equipa organizada, a falta de talento/inteligência individual para na frente se chegar às oportunidades com regularidade.
Quando por mail nos pedem livros ou textos que recomendemos para que saibam um pouco mais do jogo ou do treino, a resposta habitual “não temos e não conhecemos” não revela da nossa parte indisponibilidade para partilhar conhecimentos. Todas as ideias que aqui tentamos apresentar nasceram, tal como as de Jesus da prática. Mesmo que a um nível inferior, tudo nasceu da experimentação, correcção e do sentir dos atletas. A base teórica é apenas uma: os princípios do jogo. Gerais e específicos. A partir daí constrói-se tudo. No treino, repetir exaustivamente os comportamentos que se pretendem implementados no modelo de jogo, construindo jogos que potenciem o máximo de repetições do que se pretende treinar (que momento do jogo treinar? qual o comportamento colectivo no momento que se está a treinar?).
P.S – O “problema” da adaptação de Dier não se relaciona com o que poderá ou não o inglês dar como centrocampista. Sem dúvida que será sempre um bom jogador onde quer que jogue. A questão é que é a central que se torna distinto, pela personalidade e qualidade técnica na saída de bola que evidencia. Invulgar em quem habitualmente faz a posição.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2355 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*