O desenvolvimento das capacidades do jogador. Os jogadores muito velozes. Os lentos. E os génios. Os que são lentos e rápidos.

Ponto prévio. O texto que se segue não surge depois da leitura de qualquer livro ou documento. Decorre da prática e da observação.

Já reparou que regra geral os jogadores mais velozes são mais limitados na tomada de decisão? E os mais lentos os mais interessantes nas suas decisões?

Tudo começa desde bem cedo e relaciona-se sobretudo com as experiências que se vivênciam. O sucesso / insucesso das tais experiências. 

Sobre a tomada de decisão já aqui referimos que “…cada situação de jogo tem uma forma mais eficiente de ser resolvida. Tal não significa que optando pelo pior caminho, se estará sempre condenado ao insucesso. Tão pouco que, optando bem, se será sempre bem sucedido. Significa somente que, optando bem, está-se sempre mais próximo de ser bem sucedido.”


A principal razão pela qual parece haver uma clara dicotomia entre os muito rápidos e os que decidem sempre bem, deriva sobretudo do sucesso das suas acções enquanto jovens. 


Imagine Capel com 10 anos de idade. 2×1, 2×2 ou 3×2. É indiferente. Aquela aceleração e capacidade de manter a bola junto ao pé vai fazer golo sem precisar de jogar com os colegas. Capel cresceu a driblar e a ter sucesso. Cresceu em situação de 3×2 a driblar os dois defesas e a fazer golo. Porque é rápido e tem boa condução e drible.  Agora pense em André Martins. Não podia tomar a decisão do seu colega de equipa. Se fosse para cima, o pequeno craque possivelmente perderia a bola. E no jogo como na vida, surge uma espécie de lei da sobrevivência. Tens de te adaptar para seguir. Os que não ultrapassam individualmente os adversários pelo drible ou velocidade começam desde bem cedo a desenvolver capacidades cognitivas mais direccionadas para o jogo. Para o resolver de forma alternativa (colectiva) os problemas com que se deparam. André Martins temporiza, espera pelos colegas e joga com eles. Sozinho não daria. E então aos 23 anos já leva 15 a fazê-lo todos os dias. Capel não. Cresceu a ultrapassá-los e a ter sucesso. E é muito difícil condicionar a decisão de alguém quando esse alguém tantas vezes é bem sucedido.  Martins sabe que se fixar o adversário e soltar nas costas deste no 2×1 vai ser bem sucedido. Fá-lo há 15 anos. Capel passou a vida a driblar o seu adversário ignorando que tinha um colega ao lado. Porquê? Porque conseguia. Porque era bem sucedido no drible e depois fazia golo. 

Os miúdos vão crescendo, o jogo vai tendo menos espaço e uma componente cada vez mais táctica. O sucesso de uns passa tantas vezes a insucesso. Os adversários sobem o nível, as diferenças individuais esbatem-se. Estarão mais preparados os que desenvolveram competências cognitivas, porque se assim não fosse, não teriam chegado a profissionais de futebol. 

E depois, contra a norma corrente, há uns pouquíssimos génios, que sendo extraordinariamente velozes e bons nas qualidades individuais, desenvolveram ainda assim toda a competência cognitiva que o jogo tanto requer. São muito poucos. Mas também os há. E o sentido da afirmação “os rápidos jogam rápido, os lentos jogam lento, e depois há um extra terrestre que joga rápido quando deve jogar rápido e joga lento quando deve jogar lento” na caixa de comentários do texto anterior era sobretudo este. O da dificuldade e do quão especial é quem consegue fazê-lo. 

E como ajudar desde bem cedo os ultra velozes na sua tomada de decisão? Volta e meia retire-lhes a velocidade. Dê-lhes o corredor central para jogar. Como retirar a velocidade? Condicionantes. Neste exercício só conduzes de sola. Por exemplo. Os toques não. Não os retire. Regra geral prejudicarão a tomada de decisão, porque demasiadas vezes se impõe a condução. Apenas mais pausada, direccionada para o adversário para em seguida lhe colocar a bola nas costas, ou tabelar com o colega. E sobretudo, não deixar cair os mais rápidos e com maior qualidade técnica, porque esses serão sempre os de maior potencial. Assim desenvolvam os atributos que carecem e serão naturalmente superiores aos outros. Como afirmou o treinador do SL Benfica “Não posso ensinar um jogador a driblar”.  É preciso é “criatividade” para tratar das necessidades de desenvolvimento de cada um dos seus atletas.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2355 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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