Perceber e não decorar, e criatividade. Os jovens treinadores acabados de sair da faculdade.

Bem sabemos que uma percentagem muito importante de quem nos lê são jovens treinadores ou aspirantes a tal. O texto pretende sobretudo ajudar, ou para aqueles a quem não estamos acrescentar nada de novo, consolidar.
Ouvimos na faculdade o quão errado é trabalhar o físico pelo físico. Dar voltas a correr à volta do campo. E já vos ouvi rir de treinadores que, e mal, o fazem. Porém, há que, sobretudo, perceber o porque de tal não ser uma necessidade. Não basta saber que perder quinze minutos em corrida contínua é um disparate. 
É um disparate essencialmente porque se consegue maximizando outros factores (técnico / táctico) treinar ainda de forma mais específica a parte física. Como? Pelo jogo!
Observámos recentemente um treino verdadeiramente assustador naquilo que (não) proporciona ao desenvolvimento do jovem jogador. Primeiro, situação de 1×1. Filas de cinco jogadores cada. Fila de espera de 50”, tempo em actividade de 7”. Vinte minutos com esta situação. Em vinte minutos de treino, cada atleta teve pouco mais de dois minutos e meio de actividade. O restante, fila de espera.
Seguiu-se uma situação de 2×1. Mesma organização, mesmo tempo de empenhamento motor. Estamos certos de que quem organizou o treino se ri dos colegas treinadores que mandam os seus atletas correr à volta do campo. Tal como certo é que este treinador decorou, mas não percebeu o porque de tal não ter sentido.
Por mais ideias que tenham os treinadores, esta incapacidade para operacionalizar coarctará sempre o desenvolvimento dos seus jogadores e das suas equipas. Não é só a parte técnica e táctica que fica altamente prejudicada. Que resistência e qualidade física terão jogadores que durante o treino têm dez minutos de prática? Correr à volta do campo mesmo errado, continua a ser melhor que muitos dos treinos que se presenciam por esses campos fora.
Falou em criatividade como uma característica indispensável para um treinador, Jorge Jesus. E assim o é, quando se pretende operacionalizar as ideias.
Queres uma situação de 1×1? Tens dez jogadores? Faz cinco campos reduzidos e pois que joguem um contra um com duas balizas. Em dez minutos de treino, tens os atletas dez minutos em prática. Melhor que os  dois minutos e meio de prática em vinte minutos perdidos de treino, não? Queres trabalhar as situações de 2×1? Faz campos com duas balizas. Jogos de 2×2. Na equipa que não tem bola é obrigatório um jogador de campo ir para a baliza. Tens 2×1 no campo, com situações reais, com bola em diferentes espaços a obrigar-te a diferentes decisões, e sempre 2×1. Em dez minutos de prática terás outros dez minutos de prática, ou quinze em quinze.
E verás que jogando, quintuplicando o tempo de prática os teus jogadores não precisem de facto das voltas ao campo a correr. Estarão ainda mais preparados fisicamente para responder ao que o jogo lhes pede, pois desenvolvem nos treinos a resistência específica do jogo que encontram na competição. 
P.S. – São óptimas, em determinadas situações, sobretudo numa fase inicial de aprendizagem, as formas jogadas que podem em determinados momentos levar-te para as tais filas. Desde que, e bastante importante reter, filas bem curtas e que haja no planeamento um pensamento para que progressivamente estas se transformem em jogo. 
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2366 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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