Trabalho de Jesus é táctico


“No último jogo o Benfica ficou com menos um jogador a meia hora do fim. Quem saiu foi o lateral-esquerdo, acabando por ser eu a fazer a posição. Essa situação era impensável quando estava no Boca, mas entretanto cresci muito tacticamente.”
Uma das grandes qualidades de Jesus é o potenciar da capacidade de muitos jogadores. O crescimento dos jogadores que passam pelas suas mãos, dentro daquilo que ele melhor controla (Trabalho táctico defensivo), tem sido fabuloso. Tem conseguido transformar os mais “selvagens” atletas, em futebolistas extremamente competentes ao nível do rigor no posicionamento e agressividade defensiva.
Sendo que na Europa nem todos trabalham com o rigor defensivo de Jesus, Gaitan deixa sinais claros que na Argentina o trabalho que teve não passou por aí.
“Em termos de marcação é ‘tramado’, nada fácil. Tento sempre ajudar a equipa. Posso jogar bem ou não. Compete ao treinador corrigir as movimentações e a mim… melhorá-las. “
No treino, onde não nos cansamos de dizer que 80% do trabalho é feito, Jesus corrige os erros do jogo anterior. Cria contextos de variabilidade (dentro dos exercícios) necessários para um maior transfer dos princípios de jogo. Obriga a agir e reagir, a adaptar e readaptar, cada comportamento (sobretudo defensivo) a determinado contexto. Sabendo o quanto Jesus é exigente com o cumprimento posicional, o resto fica sob responsabilidade de quem tem o privilégio de aprender com ele.
Fica mais uma referência às aprendizagens que o treinador do Benfica possibilita aos que consigo trabalham.
“Tenho de estar atento à forma como jogam os colegas, mesmo os laterais e centrais, pois nunca se sabe o que vai suceder no jogo”

Exacto. O jogo é caótico. E independentemente do espaço, e posição, que ocupamos mais vezes no decorrer do jogo, as estruturas modernas organizam-se por forma a que todos os jogadores, num determinado contexto, pisem terrenos desconhecidos. Exige-se, dessa forma, que todos os jogadores conheçam o funcionamento global da estrutura. Isso, para que se possam integrar em todos os momentos, sem comprometer a estabilidade e relação harmoniosa da organização.
O mais difícil de treinar, em organização/transição defensiva são os ajustes. Ou seja, o posicionamento que se deve adoptar consoante o colega que saiu na bola, ou que foi ultrapassado, nas situações em que temos menos tempo para agir/reagir.
Situação de treino. Exercício em situação de jogo

Momento do jogo: Organização defensiva e transição defensiva.
Objectivo geral: Tomada de decisão na organização do processo defensivo. Tomada de decisão em transição defensiva.
Objectivo específico: Criação de losangos e triângulos defensivos, de contenção e cobertura. Agressividade inteligente na contenção. Critério na contenção, defendendo sempre os espaços interiores. Baixar rapidamente para trás da linha da bola.
Critério de êxito: Defender bem, sem sofrer golos. Com a bola no corredor central, cumprimento rigoroso do posicionamento zonal, fechando linhas de passe, à esquerda, à direita, e apoio frontal, ao portador da bola. Cumprimento rigoroso do posicionamento zonal quando a bola está no corredor lateral, formando triângulo defensivo. Ocupação racional dos restantes espaços, fechando sempre os espaços mais importantes. Criação de zonas de pressão nos corredores laterais, em bolas divididas, nos passes para trás. Reacção forte à perda de bola, pressionando logo o portador. Recuperação rápida para trás da linha da bola. Critério na contenção, com objectivo de não deixar enquadrar, progredir, ou rematar. Em inferioridade numérica leitura correcta da situação, e bom timing de contenção/pressão.
Forma: GR+7×7+GR.
Espaço: Dois terços do campo.
Tempo: 20 minutos.
Condicionantes: O jogador que mete a bola fora sai para ir buscar. A equipa adversária segue com qualquer uma das bolas dispostas corredores laterais. O jogador que foi buscar a bola deve coloca-la no local de onde a equipa adversária seguiu a outra bola, por fora do campo, para não atrapalhar quem está dentro. Depois de colocar a bola no sítio certo, volta para dentro de campo. Cada vez que uma equipa fizer um golo, o GR da equipa que sofreu deve pegar nessa bola e coloca-la na baliza adversária. A equipa que marcou segue com a bola da sua baliza. O GR da equipa que saiu com bola não pode fazer golo, enquanto o GR adversário estiver a repor a bola. Caso a equipa, sem GR, sofra um golo antes que este tenha conseguido voltar para à baliza, deve ir outro jogador qualquer repor essa bola na baliza adversária.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2362 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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