Futebol de rua em Munique

Muito se reconhece hoje a importância que o futebol de rua teve na formação de tantos talentos. Afinal o que oferta o futebol de rua aos jovens praticantes que estes não encontram, tantas vezes na prática orientada? Ao contrário do que por vezes se supõe não são as dificuldades por pisos menos próprios que fazem crescer os talentos. A chave de tudo está no jogo. As crianças / jovens quando se juntam jogam. E é isso que tantas vezes não encontram nos treinos.


Na prática organizada pelos seus treinadores. A chave de todo o processo de treino é o jogo. E por jogo não entenda os formais 7×7 ou 11×11. Tudo é jogo quando tem oposição, duas balizas e os atletas sempre na tarefa e não à espera em filas. Que melhor forma de treinar situações de 2×1 que colocando os atletas a jogar 2×2 com a obrigatoriedade da equipa que não tem a posse da bola ter guarda redes? Em 10 minutos de jogo, os jogadores somam 10 minutos de tempo de empenhamento motor. Para o mesmo objectivo, com filas, por vezes em 10 minutos somam 2 ou 3 de prática. Ao menor tempo na tarefa, junte o ´ligar/desligar´ constante que nunca enfrentam na competição onde têm de estar sempre concentrados. Com criatividade nas regras / condicionantes nos exercícios, todos os objectivos podem perfeitamente ser treináveis em jogo ajudando os atletas a cumprir com mais qualidade os critérios de êxito. 


E é sobretudo pelo constante jogar que hoje é tão reconhecido o futebol de rua. Se a este jogar sempre em actividade, sempre ligados que a rua proporciona aos mais jovens, lhe juntarmos a total ausência de coarctação da sua individualidade (´…é preciso deixarmos que os miúdos sejam individualistas aos 10,11 anos, para termos jogadores de futebol aos 20´ Francisco Silveira Ramos), sabemos que por vezes estão melhor entregues a si mesmos que a treinadores que desde bem cedo pretendem um jogar totalmente mecânico, sem rasgos de criatividade que complementem o modelo de jogo que preconizam nas suas mentes. Há que ensinar e não decorar a jogar. A evolução dos jovens dá-se sobretudo com as experiências que vivenciam. Pouca relevância terá a parte teórica ou verbal que treinadores e pais sempre procuram incutir. É preciso errar e deixar errar para haver evolução. 


Refere Daniel Coyle no ´Talent code´ que as aprendizagens se efectuam dez vezes mais rápidas quando há um erro para corrigir. Para errar há que jogar (2×2, 3×3, 4×4, 3×3+Joker, 4×4+Joker, o que for, mas jogar). Jogar na competição, mas essencialmente no treino porque é ai que os atletas mais horas passam. Menos filas, menos decisões tomadas pelo treinador, mais jogo, maior valorização do talento e do potencial. Maior trabalho sobre os que poderão mais tarde dar mais e não os deixar cair porque não seguem todos os comportamentos mecânicos e pré estabelecidos do modelo de jogo definido. É a única forma de no futuro podermos voltar a ter os talentos em qualidade e quantidade de outrora.

P.S. – Não há qualquer juízo de valor em relação ao video. Nem para o bem nem para o mal. Mas, se há dois marcadores com iguais capacidades, parece uma bela forma de decidir quem marca…
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2362 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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