Adaptação a novas exigências

O jogo, o treino, a equipa, sofre um processo evolutivo ou degenerativo de ano para ano. Isso implica, que existam novas tarefas a cumprir, novos estímulos ao qual se devem adaptar. Em princípio, todos os jogadores durante a época desportiva passam por esse mesmo processo de adaptação. No entanto, há diferenças no caso de Cardozo e Sálvio, que perderam esse processo por lesão. 
Nesta fase da época, em que se treina pouco, e apenas se recupera para jogar (fruto da equipa estar a disputar todas as competições) o tempo de adaptação que eles têm, ao modelo de jogo, é zero. 
Diz-se que os jogadores estão mal fisicamente. Mas não é isso que se passa. Eles estão é mal adaptados ao modelo de jogo. Logo agem e reagem com uma velocidade diferente da dos colegas, jogam com uma linguagem corporal diferente da deles. Isso leva a que, os colegas não percebam as suas intenções não conseguindo antecipar os lances. Aquilo a que se chama velocidade colectiva. A adaptação a novas exigências, sendo crível que o SLB continuará em todas as competições, para os jogadores em questão será impossível. Isto acontece, também, porque os jogadores que ocuparam as suas posições, conseguem elevar o jogo para um nível muito diferente daquilo que são as melhores qualidades dos dois. E a equipa ganhou uma dinâmica muito própria, derivado das características dos jogadores, que mais jogos foram fazendo, durante a fase decisiva de implementação e aquisição do modelo de jogo. 
Hoje, o Benfica joga com uma matriz, e identidade, diferente do ano anterior. Evoluiu o processo, e houve quem não conseguisse acompanhar.
O que Jesus pede hoje aos avançados é impossível para Cardozo. Com e sem bola. Não consegue fechar as linhas de passe a tempo, não consegue apertar o portador da bola obrigando-o a lateralizar, ou bater, não consegue fechar o médio defensivo, obrigando os colegas a desgastarem-se o dobro. Com bola, não consegue dar a intensidade que Jesus quer na desmarcação, para receber a bola, ou para facilitar a progressão interior ao portador da bola. Não esboça sequer uma intenção de fazer os movimentos que os outros avançados fazem, porque  não os conhece. Não os vivenciou.

Sálvio cumpre relativamente bem defensivamente, porque aí não mudou muito. O problema surge quando tem a bola nos pés. A tomada de decisão dele já não era famosa. Tornando-se mais evidente quando joga com pressão de todos os lados. Por dentro, no espaço interior, onde mais jogam os alas do SLB este ano, Sálvio é mediocre, por não ter capacidade para tomar boas decisões. Não consegue receber e enquadrar com qualidade, não consegue romper linhas de contenção e cobertura pelo corredor central. As corridas muito conhecidas pelo corredor lateral, hoje, não são reconhecidas pelos colegas, pelo que se torna estranho. Quando ele tenta esses movimentos raramente os colegas o conseguem apoiar, ou arrastar marcações, para facilitar a sua progressão.

O modelo de jogo é isso mesmo: a ideia do treinador em conjunção com a interpretação que os jogadores fazem dele. Sem tempo para interpretar, Cardozo e Sálvio, são como jogadores acabados de chegar ao clube, sem qualquer relação com o treinador, com os colegas, com as ideias da equipa.
São dois jogadores que foram absolutamente fundamentais e preponderantes no modelo de Jesus no passado. Mas nada disso interessa. A realidade de hoje, é que não têm espaço para jogar, sequer em jogos importantes. O passado é para esquecer. A realidade é o momento.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2366 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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