Não seria futebol

Caro professor Pedro Adão e Silva,

Em primeiro lugar, muito obrigado pela referência ao Blog na sua crónica ao Jornal Record.

Em segundo lugar, muito obrigado por ter explanado de forma quase perfeita a crítica que se faz ao Salvio.

Por último, respondendo à sua questão – “Mas o que seria do futebol sem o atrevimento serpenteante de jogadores como o Salvio?” – não seria futebol.


O Salvio, e deixe-me reforçar aqui os fantásticos atributos individuais, não possui o mais importante deles todos: a percepção de quando deve forçar os 1×2, 1×3, e por vezes 1×4. Inteligência. Por vezes, em muitos jogos, num jogo, será imperial ele forçar essas situações, porque está sozinho e abandonado no ataque, porque a equipa não consegue encontrar espaços e ele com essas acções abre espaços aos colegas, para meter o adversário em sentido, quando não tem tempo nem espaço para tirar a cabeça do chão (por diversos motivos, mau passe do colega, mau estado do relvado, pressão forte do adversário, etc).

Sobre uma discussão que tive ontem com um amigo acerca de um jogador meu, driblador por natureza:

EU – Preciso de arranjar energia para ajudar este puto. Não o quero perder. Acho que vai ser o melhor deles, se aprender…

Amigo – A probabilidade de ele não aprender e vir a ser melhor que os outros é alta na mesma, lol. Um gajo quando já é o melhor a fazer mal… Imagina a fazer bem lol

EU – Tenho outros que o vão ultrapassar se ele continuar a jogar sozinho. Ele no treino é o melhor, mas não o é em jogo. No treino marca 10, no jogo zerozero… LOL

Amigo – Se treinasses num clube chamado athletic club de espana, talvez. em Portugal ninguém quer saber disso. lol. Ou melhor, poucos querem saber. Vais ter que o desmontar passo a passo, porque sempre que ele puder vai fugir para isso. Tens de camuflar as acções até que aquilo faça parte do modelo de decisão dele. Esse tipo de putos só entende a fazer.

EU – Sim. Como disse, já falei muito com ele. Tentei pelo caminho do entendimento. E sei que tudo isso funciona com experiência, com prática. Mas a experiência e a prática viciam… e esse é o meu medo. Depois nem dar para um,nem dar para outro.
(…)
Amigo – As vezes o tratamento tem que ser de choque. Mas com o tempo depois passa.

Eu – Não gosto de obrigar. Já o fiz antes e não gosto. Até porque não quero que ele perca o que tem de melhor.
(…)
Amigo – Se tiver perdido o resto vale do mesmo. Jogadores de dois toques há aí ao magotes e com mais experiência, com menos erro, portanto.

EU – Mas eu sei disso. Eu adoro putos fortes individualmente. Por isso é que nunca quero que percam isso. esses, afinal, é que vão ser os melhores do mundo.

Amigo – Claro. Mesmo quando olhas para aquele barça de antigamente não vias ali quase ninguém que não fosse capaz de ir embora. Não era só toque.

EU – Exacto.

Amigo – Não forçavam, e aí era a diferença. Mas fds todos eles iam embora quer com ela, quer em apoio, quer em ruptura.

EU – Ali 1×1 era imperial. Por isso, também, é que ninguém lhes sacava a bola.

Isto tudo para que perceba que, ninguém mais do que nós aqui no blogue aprecia jogadores com qualidades individuais marcantes, como Salvio. Mas apreciamos ainda mais jogadores como Brahimi. Porque o Brahimi percebe quando é que pode forçar e ir para cima, e quando é que deve fazer a bola circular para os colegas. Afinal de contas, são os “Brahimis” com o seu atrevimento serpenteante, mas com a percepção dos momentos para serem atrevidos, que vão ser os melhores do mundo.

Para quem não teve oportunidade de ver no facebook, aqui fica a resposta ao professor.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2348 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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