Paco e o ensino do jogo

«Tento aprender sempre e Paco sabe isso. Ele fala comigo e tenta explicar-me as coisas para que possa fazer bem o meu trabalho. Estou contente por estar preocupado comigo, pela forma como trabalho. Estou a melhorar a cada dia que passa», disse o português, em conferência de imprensa de antevisão do jogo com o Eibar. 

«Precisava de melhorar a interpretar o jogo. Agora tenho formação e penso que estou melhor do que estava. O treinador está a ajudar-me e vou continuar a melhorar com os treinos», acrescentou..

As entrevistas mostram imensa coisa sobre o que acontece nos treinos e o que os jogadores necessitam (ou querem) para crescer. 
A interpretação do jogo é importante na fase defensiva, mas é ainda mais importante quando a nossa equipa tem a bola. Que linhas de passe dar, para onde atrair o adversário, onde e como o desequilibrar para que a bola chegue nas melhores condições à zona de finalização.
Quando Bebe diz que agora tem formação, revela o que se passou em todos os anos que jogou futebol ate agora. Ou não lhe explicavam o que estava a fazer e qual o transfer para o jogo, ou ele não percebia…
Ou então, e mais provavelmente, o treino não tinha um transfer claro para o jogo.
Exemplos:
– Correr na mata, com mochilas dos marines as costas. Mesmo explicado… tem pouco transfer para o jogo. Pode servir como dinâmicas de grupo, pode servir para ganhos de condição física geral, mas a falta de especificidade gritante, impede que faça sentido. Seria como um atleta de Crossfit de repente vir jogar futebol. E óbvio que esta numa forma física impressionante, o Rich Fronning ]e visto como o homem em melhor condição física no mundo, ainda assim…. 10 minutos a jogar 6v6 em metade de um campo de futebol e se lhe tapassem a boca ele caia para o lado.
– Exercícios de finalização quaisquer, finta 2 manequins e finaliza. O jogador acredita que esta a trabalhar finalização, mas ainda assim a especificidade é muito reduzida porque não há necessidade de se relacionar com colegas e adversários, que influenciam todas as decisões que toma.
– Jogos com direcção, colegas e adversários, com um mínimo de 3v3 com 2 guarda redes.  O jogador não identifica directamente o transfer para o jogo, mas todas as acções que realizam estão dentro do centro de jogo e assim, decisivas para que ao domingo as coisas corram melhor. Um 4v4 em que cada vez que um jogador passa a bola deve desmarcar na direcção da baliza com os restantes jogadores a terem de se adaptar para manter a estrutura, pode parecer uma coisa parva, porque um jogador que joga a defesa central, raramente vai fazer uma desmarcação para a frente, mas passar por essas experiências vai melhorar o seu entendimento do jogo. 
Se melhora o entendimento do jogo, vai conseguir prever e antecipar situações a favor e contra, quando o jogo passa de 4v4 para 11v11. 
Um jogador que sente que o treinador se importa com ele, que o treinador lhe explica as coisas, está muito mais aberto a seguir o que o treinador lhe pede, mesmo que seja coisas diferentes do que lhe pediam ate agora.
Dificilmente um jogador com o perfil do Bebe vai fazer alguma vez na vida coisas como o Nolito. O perfil de decisão ]e radicalmente diferente. Mas vai de certeza, com o tempo e com algum sucesso nas acções, melhorar um bocadinho. E as vezes é tudo o que é preciso.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2359 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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