A condição e preparação física não existe

Nada mais falso. É preciso saber interpretar as afirmações. Quer a de Guardiola quer as que vamos tecendo por aqui desde sempre.
Todo o movimento é gerado pelo músculo. Levantar da cama é físico. Jogar futebol muito mais físico será porque envolve vários tipos de movimento que envolvem uma participação quase infinita de músculos seja em que função for. De agonistas, antagonistas ou apenas estabilizadores ou neutralizadores.  Portanto, sem físico não há movimento e muito menos futebol.
O importante é perceber que ao contrário de outrora, a tão falada “forma” do futebolista não se relaciona com aquilo que é a “forma / condição” física. Ao contrário de alguns desportos individuais em que a época é preparada para que se retire o maior rendimento físico em pontos muito específicos, o futebol não deve ter nada disto. 
Estar muito bem fisicamente não significa nunca que determinado atleta esteja em “forma”. Porque no futebol, “forma” é o como o atleta se relaciona com o modelo de jogo da sua equipa. São as decisões que toma e o sucesso que tem que advém da sua tomada de decisão relacionada com a componente técnica. A forma chega muito mais pelo estado anímico e pela confiança (que chega pelo sucesso descrito anteriormente) do que pelo trabalhar mais as capacidades condicionais.
Portanto, naturalmente que o físico existe e está sempre presente. Mas não se dissocia dos restantes factores de rendimento. Todo o treino de futebol é físico, a menos que se esteja parado a fazer de barreira enquanto o colega treina os livres. Mas, o físico não deve ser o motor principal do exercício. Do jogo. É isto que sempre se referiu por aqui. 
Treinar o modelo de jogo é treinar o físico. Porque no modelo de jogo os jogadores movimentam-se. Correm. A diferentes velocidades. Saltam. Agacham-se e realizam cargas de ombro. Mudam de direcção. Aceleram e travam. Tudo sempre relacionado com o jogo. Exemplo extremo e absurdo para que se perceba a ideia. Haverá algo mais físico que jogar um 5×5 a campo inteiro? Impossível! 
Em suma, naturalmente que a preparação física existe. O jogo é preparação física. O que não existe ou não deve existir é desenquadrada da realidade do jogo. A forma existe. Mas não se relaciona com determinados “picos” físicos. Mas antes com aspectos mentais positivos, que chegaram pela boa relação com o jogo e com o modelo em que se está inserido. Podemos de forma subjectiva perceber que Jonas deverá ser o jogador em melhor forma da Liga. Mas seguramente que não será o que consegue correr por mais tempo. O que consegue correr mais rápido, saltar mais vezes ou mais alto ou levantar mais peso. 
Hoje, mais do que nunca o factor diferenciador dos bons para os muito bons e destes para os excelentes é a capacidade para tomar decisões. E não as capacidades condicionais.
E se o Messi tivesse mais força sem perder um único atributo. Não seria melhor jogador? Naturalmente que sim. A questão é: Se tivesse mais força, não teria perdido outros atributos? É que teria seguido um caminho diferente. Com sucesso noutras coisas, as suas vivências seriam outras. Teria tido sucesso de outra forma e talvez não tivesse desenvolvido de forma tão clara aquilo que faz com que seja hoje o melhor de sempre.
E sobre isso, há que citar Luis Enrique: “Pensei, mais vale não mexer para não estragar”.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2348 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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