Ri Vitória

Ponto prévio. Quando me convidou para escrever neste espaço, o Maldini apenas pediu para que não inventasse. Para me reportar unicamente ao que via no campo de jogo, sem falar em motivações e psicologias, não porque não importem ou não sejam em demasiados casos até decisivas, mas porque não estando presente, tudo o que podemos fazer é especular. Mesmo que com todos os indícios a apontar no mesmo sentido. Este texto respeitará ao máximo o pedido e a excepção será até uma das “teorias” do próprio.

Rui Vitória acabou de ir buscar a liderança à casa do maior rival e chega na Liga dos Campeões onde o seu antecessor havia chegado apenas por uma vez em cinco épocas. Não há como negar. Está próximo de obter uma marca melhor que Jorge Jesus, que terminou sem qualquer troféu a época em que chegou aos quartos de final da Liga dos Campeões.
Como é possível, se não tem qualidade?
Primeira premissa desde logo completamente falsa. Rui Vitória é um bom treinador, mesmo estando apenas a reportar-me ao que é possível confirmar pelo relvado. Na vertente táctica. Antes de ser autor, segui o blog desde sempre. A critica foi sempre para com as equipas que não eram equipas. Cujos posicionamentos defensivos eram em função do adversário. Equipas sem ideias comuns, onde a aleatoriedade de tudo, sobretudo posicionamentos era levada ao limite. Equipas que com bola tinham cada um por si. Extremos no desequilibrio individual, ponta de lança para finalizar somente, defender era para os médios centro e para a linha defensiva. De lá para cá muito mudou e as equipas de Rui Vitória são trabalhadas. Qualquer um consegue identificar a organização no conjunto encarnado! Ninguém pode afirmar que os jogadores são soltos no campo sem uma ideia. Impossível não perceber que há uma ideia geral muito bem definida. Porque se defende que Jorge Jesus é melhor, tal não significa que se inferiorize quem quer que seja. De facto, se esta época tem provado algo é a excelência do agora treinador do Sporting, que se prepara para bater um recorde pontual de décadas em Alvalade, ao mesmo tempo que colocou pela primeira vez em mais de uma década o Sporting próximo de ser campeão.
Posto isto. É o modelo de Rui Vitória aquele que mais te agrada?
Não. Porque ao contrário, por exemplo, do de Jorge Jesus, não tem os posicionamentos tão definidos. Não trabalha tanto o pormenor. No modelo de Jorge Jesus podemos identificar sempre o mesmo posicionamento nas situações que se repetem. O mesmo posicionamento para os onze! E não somente para quem está no centro do jogo. E posicionamentos pensados para ligarem a equipa entre os momentos. Por exemplo, Jefferson aparecer a rematar à trave no jogo com o Benfica não foi uma casualidade. Como já se demonstrou há alguns anos na altura em posts sobre o SL Benfica, nas equipas de Jorge Jesus em organização ofensiva o lateral do lado oposto assume posição de interior para garantir superioridade na transição após a perda. Tudo é ao pormenor. Jefferson estava ali, como estará em todas as vezes que a jogada se desenrole pelo lado direito, estando o Sporting em organização ofensiva. 
Por isso, se foi afirmando aqui que para os de Jesus o jogo será sempre menos caótico. Há uma maior identificação com os comportamentos a adoptar em cada situação, em cada espaço, em cada momento.
O modelo de Rui Vitória não é assim. Há uma ideia geral. Há princípios especificos. Mas não é tão pormenorizado ao ponto de definir o posicionamento dos onze. É tudo muito mais pensado unicamente no centro do jogo. E mesmo ai, há uma liberdade muito maior. É por haver essa liberdade que vemos jogadores com vários anos de SL Benfica a repetir comportamentos antigos e outros recém chegados que se posicionam de forma diferente. É por não haver esse pormenor em todos os momentos, em todas as fases. Pegando no exemplo em cima, Eliseu aparece dentro com bola no lado oposto em organização ofensiva. Já Nélson Semedo não. Maxi no FC Porto aparece dentro. E os dois laterais do Sporting também. 
O Benfica de Rui Vitória, tal como o Braga de Domingos fizeram ou estão a fazer uma época extraordinária após a saída de Jorge Jesus. O mérito é total de ambos (Rui Vitória e Domingos). Todavia, não se pode ignorar o trabalho anterior que ainda é tão visível em muitos comportamentos. Não é igual pegar numa equipa que nunca teve organização ou numa que praticamente todos os jogadores estão habituados a um determinado tipo de jogo. Mesmo que tal também implique dificuldades gigantes em satisfazer quem estava habituado a um nível elevadíssimo. Seja directores, jogadores e próprio publico. E num clube da dimensão do Benfica todos querem meter a colher.
Convicção de que Rui Vitória no Sporting nunca teria feito o número de pontos que Jorge Jesus já leva, batendo recordes de décadas em Alvalade, porque a herança seria totalmente diferente em termos de hábitos e comportamentos em campo. Nos jogadores não há resets imediatos. Sobretudo enquanto estão juntos. Ninguém acredita que se eu sair da minha equipa e amanhã chegar outrém que mantém o mesmo sistema táctico, que as dinâmicas mudem radicalmente. Que os jogadores que aparecem em determinadas zonas, que fazem determinadas coisas a cada instante passem a fazer totalmente diferente.  Apenas se “apanharem”  alguém com o perfil de Jesus ou outros tantos, que preparam e definem em tudo o pormenor.
Chegamos à teoria que o Maldini partilha em privado para a espantosa pontuação de Rui Vitória no Benfica 2015 / 2016. E fazendo algum sentido, é ai que se poderá afirmar que Jesus perde o campeonato. Se tal suceder, porque as probabilidades de cair para uns ou para outros não são tão díspares como de repente se quer fazer crer. Foi Jesus quem ao longo de todo o tempo deu “asas” e “vitaminas” ao Benfica para prosseguir na sua perseguição. Incapaz de ultrapassar o final da relação com o seu antigo clube, o treinador do Sporting foi dando armas nas suas declarações, dia após dia, semana após semana, para que do outro lado da circular ninguém adormecesse. Ninguém desligasse. Ninguém caisse de forma natural e silênciosa. As próprias bancadas do Estádio da Luz nunca se desuniram mesmo quando tudo parecia seguir para o abismo. Sem a adrenalina que Jesus provocava no outro lado, talvez tivesse chegado um “desistir”, um “abrandar”. Foi Jesus quem manteve o Benfica alerta e a respirar.

Hoje ri Vitória porque o sucesso está ao virar da porta.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2364 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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