Engane-se quem pretende a falência do jogo de posse pelo destroçar do Belenenses no Restelo.

O desnível evidente entre Sporting e Belenenses na partida de ontem, e que ntão teve quase comparação com qualquer outro jogo que se tenha visto na Liga portuguesa nos últimos anos abriu azo a diversas discussões.
Em traços gerais. Quem acusa o “lirismo” de não funcionar, versus o “o lirismo aproxima mais da vitória, mesmo que em determinados jogos possam acontecer catástrofes”.
É ingrato e errado que se declare a falência de um modelo de posse como o que mais aproxime do sucesso porque o Belenenses pareceu uma equipa de infantis a defrontar os séniores do Sporting. O problema é focar-se determinadas virtudes no Belenenses, quando não as tem de todo. A equipa do restelo é uma equipa extremamente mal preparada para jogar futebol, mas isso não tem, nem é uma característica das equipas de posse! Tem intenções aprazíveis e que a deveriam aproximar do sucesso. Mas, está mal preparada para o fazer. Não basta atirar aos sete ventos que se vai apostar num futebol de ataque, e abrir a equipa em posse para que como por magia se passe a ter competência. Ainda que muitos nos queiram fazer crer que funciona assim.
Na verdade, o problema do Belenenses na partida com o Sporting, ao contrário dos que pretendem a falência do futebol de posse, esteve bastante longe de ter sido o seu conceito de jogo. Sim, é verdade que perdeu algumas bolas na construção e que tal poderia ter custado caro. Todavia, esse é um preço a pagar por quem quer chegar com mais qualidade aos espaços mais perigosos (entre linhas, de frente para a última linha adversária) para quem quer sair daí para a finalização. E quando tens bola, deves querer antes de mais procurar o melhor caminho para fazer golo e não apenas proteger-te da perda. Portanto, o problema do colectivo do Belenenses não é de todo o abrir para jogar. Essa será porventura praticamente a sua única virtude. A sua intenção. 
O problema é a forma como a equipa não está preparada para ter rendimento. Não é nada difícil querer ter um jogo de posse quando para uma equipa do nível do Belenenses há Tiago Silva, Bakic, Carlos Martins, Rúben Pinto, Miguel Rosa, Juanto  e Sturgeon. É um plantel absolutamente apetecível para a parca realidade portuguesa. Díficil seria convencer jogadores com esse perfil a quererem fazer diferente. O problema é que da teoria, do quero ao consigo a distância é enorme. O problema não é querer ser de posse. Em última instância será o não ter conseguido. Ainda que perante um adversário muito superior, não só individualmente, tal é expectável.
Bastante mais penalizador do que não ter conseguido ter a bola é a facto da equipa ser extremamente desorganizada nos momentos em que não tem bola. E o jogo não são só dois momentos. 
Só nos primeiros vinte minutos, para além da mão cheia de lances de golo criados pelo Sporting, o que chocou bastante mais, foi a incapacidade para travar construção e criação leonina. A cada posse o Sporting chegava ao espaço entre sectores do adversário, mesmo partindo de construção. Mesmo que a bola se iniciasse nos centrais, com todos os jogadores do restelo atrás da linha da bola, a facilidade para chegar aos tais espaços mais prometedores, perante menos oposição foi algo que ainda não se tinha visto por cá (e se tantas vezes partiu da construção, nada terá a ver com a forma como o Belenenses ataca!) E não saber condicionar linhas de passe, saídas para o ataque e fechar espaços nada tem a ver com qualidades individuais. Surgem fruto de um modelo muito fraco que por opositor encontrou um modelo cheio de virtudes, capaz de desmontar com incrível facilidade todos os modelos que não têm a minima noção de como controlar espaços. 
Não foi portanto de espantar que o primeiro golo do Sporting surja precisamente numa das “milhares” de vezes que os jogadores leoninos receberam e enquadraram entre linhas.
As próximas imagens são de alguns exemplos referentes aos primeiros minutos de jogo (enquanto estava empatado e quando o foco ainda era maior) e como com apenas um passe a sair na construção o Sporting chegava à criação em condições óptimas para criar perigo.

Em suma, o Belenenses é uma equipa que procura ter bola, como muitas outras o fazem e tem alguma qualidade ao fazê-lo quando defronta equipas de nível semelhante (importante referir que tem qualidade individual muito inferior ao adversário de segunda feira, mas muito superior a quase todas as outras equipas da Liga). Só essa intenção é de louvar. Não pode é traçar-se a competência de X ou Y apenas porque “quer” atacar. O jogo é demasiado caótico e complexo para que coisa tão pequena determine a superioridade de uns perante outros. E importante perceber-se que não é por ter essa intenção que tem sido trucidado em determinados jogos! Isso, é fruto de uma incompetência gritante do ponto de vista colectivo nos momentos em que a equipa não tem bola. E um treinador tem de preparar a sua equipa por forma a aproximá-la da vitória! Ter organização e qualidade em todos os momentos! Com desorganização tão gritante, com tamanha incapacidade para controlar espaços, para perceber momentos de baixar e juntar quando adversário recebe entre linhas (e quantas vezes o recebe!) como se pode afirmar as qualidades de um treinador? Apenas porque quer sair a jogar? É isso que define competências? Então, citando outrém, “qualquer treinador de benjamins tem mais que qualidade para estar na Liga. Afinal, nesse escalão (quase) todos abrem para jogar”.
Podemos portanto concluír que não basta ser-se espanhol e apregoar determinada filosofia para que se passe por artes mágicas a ser um suprasumo. E esta já é a terceira experiência que nos permite concluir tal premissa.
Marco Van Basten
Sobre Marco Van Basten 85 artigos
Licenciado em Desporto, treinador Uefa Pro pela FA. Desde cedo partiu para terras de sua majestade. Experiência como professor e treinador numa Academia no Reino Unido.

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