Nascer jogador de futebol

Não se nasce. Não que a genética não possa ter um qualquer papel. Mas chegar lá é o resultado de um sem número de vivências e experiências. Motoras, sociais, cognitivas, psicológicas.

De uma forma sucinta, um pequeno exemplo do que se pretende afirmar. Há não muito, numa discussão enquanto se elogiava a capacidade de trabalho de Ronaldo, e a forma como se tornou uma lenda sobretudo pela capacidade incrível de superação, criticava-se também um pouco o seu egocentrismo. Mas, será que se não fosse pelo seu egocentrismo Ronaldo teria chegado onde chegou? Não é este prazer desmedido pelo “eu”, pela sua própria afirmação enquanto individualidade que o tornou numa máquina de trabalho?

Nunca se pode separar aquilo que se é enquanto pessoa, enquanto criança, enquanto jovem, enquanto uma personalidade, daquilo que se é enquanto jogador de futebol. Qualquer diferença aqui ou ali trará sempre coisas diferentes para o campo de jogo.

Ninguém nasce jogador. Mesmo que desde bem cedo se percebam crianças com mais aptidão motora que outras.

Thiago e Rafinha, não são jogadores de topo por serem filhos de Mazinho, antigo campeão do Mundo. São as experiências adquiridas. O número de horas com bola no pé. Todas as suas vivências. Tudo contribuiu para chegarem onde estão. Inclusive e quem sabe tão determinante, crescerem juntos. Cada pontapé que o mais velho Thiago deu no irmão para mais facilmente ficar com a bola em criança, contou para a formação do seu carácter, do seu “eu”. Sem um tempo de prática (não formal!) exacerbado e sem vivências como catalizador, não há jogadores de futebol. Ninguém o nasce!

Nada como citar Laureano Ruiz. Antigo formador de jogadores de La Masia, e cuja entrevista ao “Olé” deixa a antever que poderia perfeitamente ser ele o criador do “Lateral Esquerdo” tantos são os pontos comuns que deixou bem patentes em cada ideia.

– Hay un mito: futbolista se nace. Sin embargo, en el Barcelona sostienen que “futbolistas, se hacen”.
-El futbolista “se hace”. Esta idea la llevé al Barsa y el lío que se armó.

-¿Por qué?
-Ellos creían que futbolista se nace. Casi toda la gente del fútbol sigue hoy pensando lo mismo. Mire, he preguntado a futbolistas: ¿cuántas horas en tu niñez, cada día, dedicabas al fútbol? Las respuestas de los antiguos iban de 6 a 8 y los actuales nunca menos de 4. Y Maradona y Messi me dieron la misma respuesta: “¿Cuántas horas? ¡¡Todas!!”. Creer que el futbolista nace enseñado es un gran error, ni siquiera ocurre con los grandes ases.

-Díganos un buen ejemplo, entonces.
-Cruyff es un buen ejemplo; los que lo vieron jugar con aquella pasmosa facilidad para hacer fácil lo más difícil, pensaron que había nacido jugador. No lo crean, Johan tuvo la suerte de nacer junto al campo del Ajax y que su madre fuera empleada del club. Si hubiera nacido en un hogar eminentemente musical, con unos padres profesionales y enamorados de este arte, Cruyff, dada su gran inteligencia natural, hubiera sido un gran músico, pero no futbolista.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2359 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

37 comentários em Nascer jogador de futebol

  1. Sou adepto de futebol, sou dirigente de futebol, mas o futebol não é a minha formação.
    Mas no futebol como na minha área ninguém nasce assim…
    Uma criança até pode também mais destreza para desenhar mas tem ainda muito que treinar, que desenvolver, etc.. E eu que o diga que parei de desenhar regularmente e quando o faço actualmente quase me apetece bater na mão
    Em resumo, é preciso acabar com os mitos dos talentos natos. Existe sim uma maior predisposição, uma curva de crescimento mais rápida, mas também implica muito trabalho, muita prática e um ambiente adequado.

  2. Um bom exemplo é o João mário e o Wilson Eduardo, um dos grandes responsaveis pela evolução do JM é o facto de crescer ouvindo o seu irmão

  3. Eu continuo a achar que há maior predisposição para o futebol (o caso em discussão) em alguns do que em outros. Muitos podem treinar a vida toda que nunca marcarão tão bem livres como um Mihalovic marcava (olha, o Ronaldo que o diga).

    É um debate polémico.

    Para mim não estamos todos em pé de igualdade em todas as coisas que podemos fazer mas ainda nunca fizemos.

    • Pedro, Pré disposição para o futebol? Essa pré-disposição que deve ser uma característica do ser humano nasceu quando? Antes ou depois de aparecer o futebol? Ou há pré-disposição para todo o tipo de tarefa, mesmo para as que ainda não foram inventadas?

      • Pré disposição para algo. Neste caso futebol. Não é antes ou depois, isso é irrelevante. É no momento em que se faz, executa, trabalha, etc. Amanhã pode ser inventada uma qqr tarefa que tu, na primeira vez que a executas és 10 vezes melhor do que eu quando a executo.

        • Não, isso não acontece. O que acontece é que a tarefa pode estar mais ou menos inclinada para aptidões que tu já adquiriste através de outras tarefas. Porque já somos adultos. Com crianças da mesma idade que tocam numa bola, num lápis, numa flauta, pela primeira vez é impossível. Impossível!

  4. “Não que a genética não possa ter um qualquer papel.”

    Caro Paolo Maldini

    Há uns anos vi um documentário onde era feito um diagnóstico antropométrico a jovens jogadores de futebol e haviam uns que se destacavam pela sua aptidão espacial (não motora). Curiosamente, alguns desses jogadores que se destacaram nesse diagnóstico eram os que se destacavam dentro do campo.

    Presumo que hoje em dia, estes diagnósticos sejam efectuados pelos clubes aos jovens para verificar a sua predisposição para essa aptidão espacial e consequentemente para o futebol.

    “…a capacidade de trabalho de Ronaldo, e a forma como se tornou uma lenda sobretudo pela capacidade incrível de superação”

    A capacidade de trabalho do jogador basicamente é individual, já o rendimento desportivo depende de muitos factores, não só o individual como da própria equipa, do adversário e até da própria arbitragem.

    Em relação à parte individual, os jogadores tenderiam a melhorar o seu rendimento significativamente se renunciassem às selecções e se concentrassem exclusivamente no seu clube, afinal como muito bem diz o lema do blog Lateral Esquerdo; A PREDOMINÂNCIA DO CÉREBRO SOBRE O FÍSICO. mESMO NO FUTEBOL.

    Vejamos o exemplo de CR7, que por norma participa à volta dos 50 jogos por época ao serviço do clube.

    Ao serviço da selecção principal já efectuou 134 jogos ao longo da sua carreira.

    Quanto melhoraria o rendimento de CR7 se não brincasse na selecção? quão mais rápido seria? quanto mais fresco estaria? quantas menos lesões teria? Ainda na época passada falhou a 1º mão da meia final da CHAMPIONS LEAGUE contra o Manchester United por lesão.

    A idade biológica de CR7 é de 31 anos mas qual é a sua “idade futebolística”? Num cálculo básico, poderemos afirmar que devido aos seus 134 jogos pela selecção principal já vai a caminho dos 34 anos.

      • Caro André Lopes

        Existe o FUTEBOL PROFISSIONAL (praticados pelos clubes) e existem os TORNEIOS DE VERÃO, vulgo, Campeonatos do Mundo, Campeonatos Continentais (Euros, Copas Américas, Cans, etc), Torneio das Confederações, Jogos Olímpicos, Torneios de sub21, etc.

        Considero que um jogador que representa a sua respectiva selecção (hoje em dia, até representam mais do que uma) não está a jogar pelo clube/sad com quem tem contrato profissional de jogador de futebol, então logicamente considero que representar a selecção é algo não profissional, uma brincadeira.

    • Penso que se alguma vez tivesse representado o seu país em que atividade fosse,certamente nao falaria de brincadeira.
      Nao foram os 134 jogos que fizeram o cr7 mais lento, secalhar foi a idade e o tipo de jogador que se foi transformando… até porque nao vejo o messi mais lento pelos 100 e tal jogos nem vejo o pepe mais lento pelos 77 jogos e ja com 33 ano, nao percebo a sua logica mas ok.

      • Caro Dumas

        Eu estou a falar de FUTEBOL PROFISSIONAL.

        Não disse que CR7 está mais lento, apenas defendo que ele ainda seria melhor jogador se não brincasse na selecção, ou, por outras palavras, que ainda fosse mais e melhor PROFISSIONAL do que é.

      • “Vejamos o exemplo de CR7, que por norma participa à volta dos 50 jogos por época ao serviço do clube.

        Ao serviço da selecção principal já efectuou 134 jogos ao longo da sua carreira.

        A idade biológica de CR7 é de 31 anos mas qual é a sua “idade futebolística”? Num cálculo básico, poderemos afirmar que devido aos seus 134 jogos pela selecção principal já vai a caminho dos 34 anos.”

        Caro Blessing

        Conforme acima “copy paste”, facilmente deduz-se que “idade futebolística” é o acréscimo de tempo à idade biológica pelo número de jogos na selecção.

        134/50=2.68 (para este cálculo até desprezei os jogos que fez pelas selecções jovens)

        31+2.68=33.68 (quase 34)

        • Ou seja, idade futebolística é o número de jogos que um jogador soma no futebol profissional, dividido por 50, é isso? Então, se um jogador durante uma época fizer 30 jogos pelo clube, mais 19 pela selecção, dá 49. Não soma ano nenhum em idade futebolística, é isso?

          • Caro Blessing

            Os 50 foram aplicados no caso do CR7.

            Para quem faz 30 jogos pelo clube, divide-se por 30.

            “Idade futebolística”= Idade biológica + Número de Internacionalizações/Média de jogos que faz por época no clube

          • Fantástico Superleão. Registou a patente de tão brilhante formula? olhe que ainda a roubam…

          • Caro Paolo Maldini

            É livre de ironizar o quanto quiser, ainda nem sequer paga impostos por isso.

          • tenho ideia de que o Maldini não estava a ser irónico… se n está registada… vou eu já registar…

  5. Pa, oh superleao, mas algum seleccionador ou dirigente federativo te comeu a mulher ou assim…? q k7 mais gasta Dass. Vai lá ler os teus comentários todos. Só choras.

  6. Isto é muito interessante e ajuda-nos a perspectivar melhor o futebol. Relacionado com o tema, em particular quando se apela à prática não-formal do futebol, devo referir um documentário que vi há uns tempos. Nele se falava da importância de os miúdos jogarem futebol na rua. Não apenas devido a questões motoras ou de relacionamento com a bola, mas também porque, na rua, as crianças é que negoceiam as regras do jogo, logo é o seu desenvolvimento moral, cívico e ético que ali é trabalhado. É bem diferente de jogar futebol num clube, onde tudo é feito de forma mais estruturada, onde as crianças recebem acriticamente as regras feitas por adultos. Para além disso, alguns dos pedagogos e técnicos desportivos, nesse documentário, sublinhavam que o futebol é um desporto muito imprevisível, porventura o mais imprevisível, por mais evoluções tácticas e estratégicas que existam. Nesse sentido, ajuda todos os seres humanos que o praticam a lidar um pouquito melhor – o que é bem difícil – com a imprevisibilidade própria da vida. Neste aspecto, deve referir-se como exemplar a postura de Guardiola, que, apesar que querer controlar todos os imponderáveis do jogo, resigna-se e até admira o facto de que nem tudo é antecipável pelo treinador, por mais meticuloso que ele seja. Quão diferente esta postura parece ser quando comparada com a de Jorge Jesus, que se deixa frustrar – embora menos do que noutros tempos – por tudo o que inevitavelmente lhe escapa.

    • Grande comentário Pedro. Enorme mesmo. Queria só deixar aqui um ligeiro ajuste: Guardiola, como Jesus, frustra-se tanto quando a imprevisibilidade caí sobre a sua equipa. Porque são dois treinadores que compreendem melhor do que ninguém que o seu trabalho é retirar isso mesmo do jogo, ainda que percebam que a ideia é utópica e que nunca o vão conseguir. A diferença é que Guardiola guarda isso para quando nenhuma câmara está a filmar, e Jorge Jesus não tem essa capacidade para esconder o que sente.

    • Acredito, Blessing. Quando escrevia “parece ser” queria deixar claro que tenho reservas quanto ao que digo. É que nunca teremos a certeza daquilo que alguém sente ou pensa, por mais calmo que aparente estar. Só podemos acreditar. Enfim, acho mesmo que o futebol ajuda a compreender que nem tudo está nas nossas mãos – o que não deve impedir, aliás deve motivar, os treinadores a reduzir sempre o mais possível os imponderáveis.

      • Pedro, Guardiola já o disse em público. Fica “doido”, “doente”, fecha-se no escritório à procura de soluções colectivas quando o imponderável acontece. Ofensivo ou defensivo. Tendo sempre na mente que isso vai fazer parte do jogo e que vão surgindo sempre outros. O que ele tem sempre em conta é que é a batalha contra isso que também o faz crescer, e melhorar. Mas repito, comentário muito, muito, muito bom.

    • ” exemplar a postura de Guardiola, que, apesar que querer controlar todos os imponderáveis do jogo, resigna-se e até admira o facto de que nem tudo é antecipável pelo treinador, por mais meticuloso que ele seja.”

      ” Guardiola, como Jesus, frustra-se tanto quando a imprevisibilidade caí sobre a sua equipa. Porque são dois treinadores que compreendem melhor do que ninguém que o seu trabalho é retirar isso mesmo do jogo”

      Caros Blessing e Pedro Ribeiro

      Não chega tentar retirar os imponderáveis e a imprevisibilidade ao jogo, porque antes do jogo há o treino e, muitas vezes, torna-se impossível controlar o próprio treino.

      Basta ver o exemplo de CR7 que devido à lesão na selecção vai perder a pré-época prejudicando assim o trabalho de Zidane.

      Ainda agora, JJ não pôde contar com Rui Patrício, Adrien, William Carvalho e João Mário neste início de época; Já levaram uma coça do Mónaco.

      Quantas vezes ao longo da época os treinadores das principais equipas europeias ficam praticamente sem o plantel disponível quando há paragens para os jogos das selecções.

      Melhorar os resultados depende da melhoria das condições de trabalho dos treinadores.

  7. Recordo-me de ver um vídeo do Messi a jogar, talvez com 5 anos, e basicamente a dar baile todos, inclusive alguns miúdos que pareciam mais velhos. Certamente que com aquela idade não foi a aprendizagem, mas sim o talento, que o pôs a jogar assim.

        • Um gajo vê um vídeo desses, em que aos 5 anos ele está a jogar numa equipa, ou seja, só mostra que a prática dele começou muito cedo, muito mais cedo do que os outros, e conclui daí que era impossível aos 5 anos ele ter aprendido.

          Pá, menos, porque se percebesses um pouco de aprendizagem saberias o disparate que estás a dizer. Ninguém nasce a saber praticar seja o que for. Aprende-se, com muitas horas de prática. E depois aperfeiçoas ou não. Assim como é perfeitamente possível e normal falar duas línguas, ou tocar instrumentos com essa idade, muito melhor que outros da mesma idade, se for estimulado para isso.

          • E se em vez de uma bola de futebol lhe tivessem dado uma de basket, o Messi seria hoje tão bom como o Michael Jordan. Menos indeed.
            Claro que ninguém nasce a saber praticar o que seja, mas é absurdo pretender ignorar o talento: aquilo com que se nasce. O “disparate” é presumir que alguém disse isso e ter a arrogância de começar logo a distribuir insultos. Nada de novo neste blogue.
            Outra coisa, se o Messi e o Maradona passaram “todas” as horas com a bola nos pés, teria curiosidade de saber quantas passou, por exemplo, o Kroos, ou outro de um país onde se vá à escola. Muitas, claro, mas assim tantas que justifiquem a qualidade que ele mostra hoje?

          • Qualidade que se compara a de Maradona, Messi, ou Ronaldinho, Zidane, ou o Fenómeno, com bola? Claro que não. Muito, muitíssimo longe.

            Quanto à questão da bola de basquetebol, se lhe dessem uma bola de basquetebol podia ser ou não tão bom como é no futebol. Quer dizer, com a altura que tem, e tendo em conta a importância da morfologia aí, seria sempre difícil. Messi é o que é porque começou a jogar muito mais cedo do que o outros. Porque cedo se apaixonou pela bola de futebol. Porque cresceu num país apaixonado por futebol, e que por isso, em qualquer lado podia praticar, enfrentar adversários, jogar sozinho com a dificuldade dos terrenos de jogo, etc. E é o que é hoje porque foi para o Barcelona na altura em que foi. Se fosse para o Chelsea, ou se viesse para Portugal, já não era o mesmo jogador com a mesma dimensão, com a mesma aptidões. O talento, é uma construção constante que depende do contexto. Depende dele, do ambiente familiar, do ambiente que o rodeia na escola, na rua. Da forma como ele aprende ou não e interage com o jogo. Da percepção que ele desenvolve das diferentes situações de jogo. Das escolhas que faz na carreira, etc. Ninguém nasce com nada de disso. Aprende-se. Agora, podes é ter melhores ou piores aptidões do ponto de vista morfológico que influenciam muito a aprendizagem. Coisas que te dão ou não mais vantagem e mais sucesso ao executar determinado tipo de movimentos, que vais repetindo, aperfeiçoando, e tornando especialista.

            Por exemplo, Xavi nunca teve velocidade, logo nunca teve grande sucesso no 1×1. Messi teve sempre, e por isso é fortíssimo nisso.

            As coisas são mais simples do que as pessoas julgam, e não têm nada de oculto ou de geração espontânea. Chama-se aprendizagem, e um bocadinho de estudo sobre essa temática não faria mal a ninguém.

          • “Pá, menos, porque se percebesses um pouco de aprendizagem saberias o disparate que estás a dizer. ”

            Andaram a dar-te resumos de Piaget na Faculdade de Motricidade? Como defines ‘talento’, Blessing? Isto é: o que faz de Messi melhor que os outros?

            A tua teoria parece ser de estímulo-resposta. Mas não pode ser assim tão simples. Isso é de um simplismo grosseiro.

            Tal como é absurdo falar de genéticas e de dons divinos, também é absurda essa equação.

          • “Xavi nunca teve velocidade, logo nunca teve grande sucesso no 1×1”

            Caro Blessing

            Xavi desmarcava-se, procurava o espaço vazio para receber com menos pressão, talvez seja mais apropriado dizer que Xavi não precisava de fazer o 1X1, usava mais a mobilidade que a velocidade.

  8. Superleão, espero que reflita bem sobre o que disse de os jogadores andarem a brincar às seleções:

    a) Quase todos os jogadores que competem num Mundial, Europeu ou outra grande competição levam aquilo muito a sério, seja porque motivo for: porque representam o país, porque as seleções marcam a história do futebo, porque são competições especiais, etc. Isso é clarissímo, só não vê quem não quer.

    Se algum treinador proibisse um jogador a ir ao Mundial ou a um Europeu, a relação entre os dois em 99% dos casos ia dar para o torto a partir daí.

    b) Caso não saiba, os jogadores das seleções são pagos ao dia por representar a seleção. Cada jogador de Portugal ganhou 300mil euros pela conquista do Europeu. Os clubes que cedem jogadores às seleções são pagos, por quantias já bem interessantes – o Sporting recebeu 1,1 milhões neste Europeu. Já para não falar da frequente valorização dos passes dos jogadores que entram nestas provas.

    c) À exceção dos Jogos Olímpicos, essas competições de seleções são datas FIFA, ou seja, constam do calendário de futebol, e por isso os clubes têm que ceder os seus jogadores.

    d) A “brincadeira” que será o Mundial 2022, como vai ser disputado no Inverno, provavelmente obrigará os principais campeonatos europeus a pararem. Uma brincadeira, portanto.

    • Caro Blog de Portugal

      Sem dúvida que a história do futebol é marcada por essas competições, mas não será a história do futebol que enche e irá encher a barriga dos jogadores de futebol.

      Não são nem serão os treinadores a proibir os jogadores de brincar nas selecções, são e serão os dirigentes dos clubes/sads, hoje já o fazem escolhendo brasileiros e outros que não brincam nas selecções.

      Não faz sentido pagar milhões em transferências e salários e depois deixar ir brincar os jogadores para as selecções sujeitando-os a cansaço, lesões, castigos e à habitual desvalorização. Também a nível extra-desportivo, a nível comercial, as federações são sérios concorrentes ao nível de receitas de bilheteira, direitos televisos, merchandising, etc.

      Compete aos dirigentes dos clubes/sads a implementar uma estratégia que leve a que sejam os próprios jogadores a renunciar às selecções, já os jogadores, especialmente, os das camadas jovens, têm de acordar prá vida e tentar alcançar um contrato no FUTEBOL PROFISSIONAL e de preferência um contrato com os melhores clubes/sads. As alternativas são ir jogando em divisões inferiores, irem jogando em ligas menores (apesar do crescimento destas) ou até se não conseguirem fazer carreira no futebol existem sempre empregos nas Forças Armadas, Polícia, no telemarketing, nos hipermercados, etc.

      Ao contrário do Fernando Santos, os dirigentes dos clubes/sads, jogadores e aspirantes a profissionais deixam-se embalar pelas cantigas de que os jogadores valorizam-se nas selecções, de servir o país com orgulho, de ficar para a história do futebol, etc. Já lá vai o tempo, em que os Mundiais tiveram importância, não havia internet, pouca televisão e rádio, os jornais ainda eram relevantes. Para conhecer jogadores estrangeiros só mesmo em competições deste tipo, hoje com o desenvolvimento das comunicações praticamente todos os jogadores são conhecidos (pelos insiders do futebol) ainda na formação, olheiros, empresários, agentes, dirigentes andam atrás deles desde as camadas jovens.

      Essa gorjeta que as federações dão aos jogadores e aos clubes serviu para calar e parar a contestação de ambos. Em relação aos jogadores portugueses, a contestação começou no México86, Saltillo diz-lhe alguma coisa.

      É uma gorjeta, porque os valores pagos pelas federações não são os valores que os clubes/sads pagam aos jogadores, se as federações pagassem aos clubes/sads o verdadeiro custo da sua utilização estariam falidos. Assim sendo, as federações estão ricar, já os clubes/sads estão em sérias dificuldades financeiras.

      CR7 recebe à volta de 1 milhão de euros/mensais no Real Madrid (isto sem contar com os descontos que os clubes fazem para a Segurança Social, seguros, tratamentos médicos, etc.)

      Com os milhões arrecadados pelas federações já que praticamente não têm custos salariais a pagar aos jogadores, conseguem pagar milhões a vários treinadores que poderiam estar nos clubes a um custo mais baixo.

      Ainda há uns tempos, Robben lesionou-se ao serviço da selecção holandesa, sendo que o Bayern de Munique pediu uma indemnização de 5 milhões de euros. A resposta da selecção holandesa foi similar à que JJ daria: “BÓÓÓLA, BÓÓÓLA”, ou como diria Maradona, “chupen y sigan mamando”.

      A instituição das datas FIFA serviu para assegurar disponibilidade das selecções aos jogadores com o menor atrito possível com os clubes/sads. A FIFA tem experiência nisto de enrabar os clubes/sads até porque estes deixam-se enrabar, tanto assim é que impuseram um TORNEIO DE VERÃO no Inverno prejudicando as competições desportivas dos clubes.

  9. Relativamente ao conteúdo do artigo, gostei muito.

    No caso do futebol, há alguns fatores de nascença que podem ajudar a ter mais sucesso, como a altura, a morfologia corporal, a percentagem de fibras rápidas e lentas…

    De resto, depende muito das experiências e vivências que se vão acumulando ao longo dos anos. Numa entrevista qualquer o Messi refere que desde que tem memória das primeiras vivências que se vê sempre com uma bola. Isto reflete bem os milhares e milhares de horas com que passou a bola no pé.

    O local onde se vive, os pais que se tem, a cultura em que se está inserido, as oportunidades que podem vir desse contexto são de extrema importância em criar um desportista. Se o S. Curry nascesse em Portugal até poderia dar basquetebolista, mas dificilmente seria tão bom como é hoje. Se o Kelly Slater nascesse no Texas e não na Florida não teria marcado a história do surf.

    Há muitos estudos sobre isso. De facto, é só pesquisar um pouco.

  10. palavras do William Carvalho:

    “Mas eu não era especial: havia muitos miúdos como eu a fazer sacrifícios. Muitos miúdos tinham de sair de casa dos pais aos 13 anos e ir viver para a Academia, coisa que eu não tive de fazer. Sei que para esses rapazes foi muito difícil. (…) Joguei com colegas que tinham tanta ou mais qualidade do que eu, que fizeram tantos ou mais sacrifícios do que eu… Acho que é acima de tudo uma questão de trabalho e de oportunidade. Graças a Deus tive um treinador que apostou em mim e até hoje estou-lhe grato por ter apostado em mim.”

    Fala-se tanto da aleatoriedade do jogo ultimamente, e isto não é diferente. Há muitos que são bons e têm potencial, mas porque acontece o que normalmente se designa por “é a vida”, não chegam lá. O argumento do talento natural falha precisamente pelo que diz no texto. É o contexto onde se cresce. Quantos jogadores de golfe ou pilotos de automóveis vieram de bairros sociais e famílias pobres?O investimento que esses desportos exigem excluem logo à cabeça uma enorme fatia da população. O schumacher se calhar aos 5 anos também já conduzia kartings. Mas quem é que pagou o karting? Quantos putos da favela não poderiam ter sido um Ayrton Senna se já nascessem com um volante nas mãos? E se o Ayrton nascesse na favela? Se calhar era o motorista designado para o carro da fuga, mas mais do que isso era difícil.

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