Evolução: o próximo passo

Ao contrário do que se poderia pensar, e com o estrondoso sucesso do brilhante Guardiola, a tendência que o jogo revela é para evoluir no sentido da defesa e de parar o adversário. Colocar sempre muitos na bola, e muitos a fechar os espaços em redor da baliza. Mesmo as marcações individuais mais tradicionais percebem que é muito mais fácil e eficaz aglomerar jogadores numa determinada zona e partir daí pegar individualmente. Nunca defender o campo todo. Assim, conseguem esconder os movimentos de arrastamento que se fazem por terem sempre gente perto para cobrir quem sai da posição. A reacção do futebol ao jogo ofensivo e altamente colectivo com que Guardiola nos brindou foi defensiva. Como tal, nos dias que correm é muito mais difícil bater equipas em organização antes do primeiro golo. Pela redução dos espaços e pela necessidade de furar por entre blocos compactos, o passo seguinte é a evolução no sentido ofensivo. Colectivamente, mas sobretudo individualmente. Porque é da melhoria individual que se fará o melhor sumo.

Será cada vez mais importante ter jogadores com qualidades individuais marcantes, criativos. Com qualidade técnica para quebrar a contenção, com velocidade e agilidade para deambular por entre os labirintos do adversário. Com cérebro para criar estratégias para desmontar os sólidos muros defensivos que hoje se criam. Não menos importante será a forma como cada um lê o lance quando a bola está nos pés do colega. A capacidade para se associar quando não se tem a bola, é tão importante quanto ter um jogador que dê o devido seguimento ao lance. Afinal, ninguém resolve os problemas todos sozinhos e é preciso haver colegas que percebam o que fazer por forma a que o lance tenha o melhor seguimento. Apenas será possível ter sucesso continuado se os jogadores sem bola fizerem a papinha toda ao portador. Devem, por isso, perceber como se devem colocar por forma a aumentarem as probabilidades de sucesso de cada lance. Fico para tabelar ou vou para abrir espaço? Pela esquerda ou pela direita do meu colega? Por fora ou por entre os adversários? Acelero para criar dúvida ou fico como apoio exterior? Aproximo da bola ou espero aqui para receber e atacar com mais espaço e menos oposição?

Para o caso pouco interessa o nome dos jogadores, que são utilizados apenas para que se possa seguir o lance da mesma forma como eu o segui. Tão pouco se pretende inferir o que seja da tomada de decisão dos jogadores. Trata-se apenas de um exemplo casual.

Corona solta para Maxi, vê a possibilidade de receber no corredor e acelera para lá. Dessa forma garante ao colega duas opções: 1) Caso os adversários o acompanhem retira jogadores que poderiam estar focados na bola, abrindo mais espaço para Maxi individualmente decidir o lance; 2) Caso os adversários não acompanhem o seu movimento abre uma linha de passe segura para que Maxi dê continuidade ao ataque, aproximando-se da baliza.

Os adversários acompanham e Maxi, bem, opta pelo movimento interior enfrentando e ultrapassando a contenção. Assim que Maxi se começa a movimentar por dentro percebe-se Bueno a acelerar para o espaço que existe entre os elementos da linha defensiva do Leverkusen, aproximando-se da bola e dando-lhe uma solução de passe vertical. Pela forma como coloca o corpo que se percebe desde o início que Bueno quer receber a bola para atacar aquele espaço, sem equacionar uma outra possibilidade. Quer que seja o colega a definir em função do movimento dele e não o contrário. Não é mau que isso aconteça, que se façam movimentos no sentido de solicitar a bola para determinado espaço. Mas, deverá ser sempre a situação a ditar se o movimento deve ser realizado ou não em função das necessidades do colega. Neste caso muito particular, tendo em conta a aglomeração de jogadores que Maxi enfrentava, Bueno deveria ter percebido a necessidade de Maxi e ter servido como apoio frontal. Deveria ter ficado como opção segura para Maxi conseguir ultrapassar os adversários e receber de frente para o jogo com menos oposição. O movimento de arrastamento que Bueno faz poderia ter resultado num maior foco do central para acompanhar o seu movimento, abrindo assim mais espaço para André Silva poder receber, mas seria sempre muito difícil de aproveitar tal era a dificuldade de execução, tempo, e espaço, de Maxi. Claro que um passe de Maxi para Bueno colocava-o num 1×1 já dentro da área (ainda que desenquadrado), mas também a execução de tal passe tem um grau de dificuldade elevado.

Maxi opta novamente bem por continuar o movimento interior, e André Silva mostra-se em apoio frontal. Estava criada a situação ideal para que os dois se envolvessem e dessem o devido seguimento ao lance, por forma a criar uma situação de finalização. Maxi demora a solicitar André Silva que se precipita para um movimento de ruptura. O movimento de André Silva não é mau, mas dá a Maxi apenas uma possibilidade. Se olharmos para a forma como André Silva estava inicialmente posicionado Maxi tinha duas soluções com o mesmo jogador: A tabela, ou a ruptura. Com André a ir embora sobrou apenas a ruptura. André Silva talvez não tenha percebido que mantendo a posição poderia na mesma ter recebido no espaço, e mesmo que recebesse no pé teria espaço para ele próprio com a recepção orientar-se para a finalização. E ainda garantia a Maxi e a ele próprio a tabela como solução caso o contexto se desse.

Venham daí opiniões!

Blessing
Sobre Blessing 88 artigos
Treinador de futebol, de momento na formação. Experiência como Treinador Adjunto no escalão de seniores masculino e feminino, tendo esta época culminado com a conquista de todas as provas nacionais em disputa. Desempenha também funções como Scout para 1ºLiga. Criador do Blog Posse de Bola

14 comentários em Evolução: o próximo passo

  1. Acredito que a organização ofensiva ainda vai dar muito que falar! Eu percebo e estou de acordo que a qualidade individual faz toda a diferença, mas há sub-princípios que podem desequilibrar por completo organizações defensivas. Contudo isso está nas nossas cabeças, e depende dos treinadores criar, inventar e reformular as ideias do seu jogo todos os dias! Se errar-mos?? Que mal tem o erro! Sem ele não há evolução! Precisamos perceber que da mesma maneira que a formação dos jogadores é importantíssima a dos treinadores é igualmente importante! E se eu enquanto treinador transmito ideias de liberdade e de criatividade aos meus jogadores eles vão ter de compreender que eu também vou ter essas ideias! O futebol é tão complicado quanto simples e é isso que nos faz apaixonar por este brilhante jogo!´

    Tudo a pensar fora da caixinha que isto tem que ser ainda mais brilhante que Guardiola e eu quero presenciar isso!

    Um abraço e parabens pelo fantástico site!

    Isto é para quem gosta do jogo!

    • Grande comentário!

      Deixa-me só dizer que eu também acredito que a organização ofensiva ainda vá dar cartas. Muitas mesmo!!!!! Mas, para mim, da exposição à situação descrita os próprios jogadores vão acabar por melhorar muito. De forma voluntária, ou não. Afinal, eles querem ter sucesso, e vão aprender a tê-lo ali.

      • Sim sem dúvida, há uns tempos atrás estive a ver uma entrevista do klop em que ele se referia precisamente a isso! Que acreditava, e que desejava presenciar o momento em que os jogadores serão na sua maioria rápidos a receber, enquadrar e decidir em qualquer momento do jogo. Eu pessoalmente tenho uma visão um bocado distorcida dessa, porque para isso acontecer creio que é primeiro necessário uma evolução do treinador! Não a nível de processos pq isso cada um tem os seus, mas quanto à visão do jogo, à procura de praticar mais isto com coragem e menos com resultado à vista! É preciso criar estímulos que levem os treinadores a correr o risco de praticar bom futebol! Essencialmente , como já referi, a visão de quem comanda tem de ser mais em função do jogo e não da tabela!

        Não querendo estar alongar-me muito mais(para nao correr o risco de estar a ser redundante e chato pa crl ahah) quero apenas dizer-vos que já presenciei uma fantástica evolução de um grupo de jogadores, em formação, que fizeram/fazem coisas que nem a maioria dos seniores dos escalões principais tentam fazer e isso é tão ou mais saboroso que qualquer vitória!

        Concluindo, parte de nós treinadores cultivar gosto pelo jogo e não pela vitória, e a partir daí dar-lhes asas para os ver voar e cair quantas vezes forem necessárias até que uns cheguem mais longe que outros.

        Abraço!!

        • “Eu pessoalmente tenho uma visão um bocado distorcida dessa, porque para isso acontecer creio que é primeiro necessário uma evolução do treinador!”

          Concordo, mas acho que já se deu um bocadinho no sentido de criar a dificuldade – redução dos espaços – que cria a necessidade =)

  2. faltou o maxi ser o messi o andre o suarez e o otavio o neymar…movimento tipo da msn…messi diagonal suarez com apoios para tabelar faz com que central seja agressivo e defesa esquerdo marque mais dentro,movimento de ruptura do otavio (neymar) e o de sempre…saco e tudo abracado!!!!

  3. problema é que os hazards desta vida so querem receber no pé para serem eles a brilhar,nao sei se acham que o 1×0 como tu dizeste e bem,seja facil demais,nao quero acreditar aquele nível que seja pouca inteligência a ler o que o jogo pede e nao o que eu quero!

  4. Na minha opiniao Corona solta para Maxi desmasiado cedo, creio que podia ter fixado e soltar mais tarde para o Maxi que ficava com o corredor direito mais livre, com possibilidade de entrar para o eixo.
    No lance do video, Maxi decide mal, nao creio que o passe para Octavio era de maior grau de difficuldade. Contudo o movimento mais estranho foi aquele do Silva como foi referido.
    Desculpem pelo o meu mau português.
    Peace

  5. Imaginemos que cada vez mais se formem jogadores fortes no 1×1,velozes,com grande capacidade de drible,criativos,inteligentes, tecnicamente top. Tendo 2 ou 3 jogadores com as qualidades que referi, o treinador devia optar por jogar com eles abertos no caso de serem extremos? Ou jogadores com essa capacidade tanto desiquilibram na ala como nos espaços interiores? É que tenho em consideração o modelo do Guardiola para dar um exemplo.«, ele tem esses extremos mas joga com eles constatemente abertos(constatemente não, mas a maior parte do tempo) e será que um Douglas Costa não ia ter a mesma capacidade de desiquilibrio que tem na ala nos espaços entre-linhas? Ou o facto de receberem por vezes sem pressão nas costas ia dificultar o trabalho?

    • O Douglas não é um jogador para jogar em espaços interiores… Mas o Neymar é. E joga tanto por dentro como por fora. Assim como o Messi. O treinador deverá escolher o mais benéfico para o jogador, e para a equipa de forma geral. Não há regra que digas este fora o outro dentro. Claro que há situações pontuais assim, como já fomos criticando por aqui. Mas regra geral não há, na minha opinião.

      • Eu coloquei a questão porque agora é “normal”usar os extremos entre-linhas e deixar a largura para os laterais, mas com extremos com grande facilidade de rasgar contenção e cobertura nas alas como é o Douglas que enumerei, o treinador vai ter que optar por sistemas e dinâmicas diferentes.

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