Um retrato do génio

Queres saber do treinador? Pergunta aos jogadores.

É dessa forma que Fernando Valente diz se traçar a mais fiel das caracterizações de um treinador. E por isso, talvez o melhor retrato deva ter como principais personagens  os que com ele trabalharam ao longo dos anos. Este é um retrato não tão fiel à ideia inicial do mister, mas com um ou outro ingrediente que podem acrescentar valor.

Hipnotizados pela qualidade de jogo e superioridade tremenda que exibe sempre somos levados a pensar que tal trabalho se deve apenas à qualidade técnica e inteligência no jogo ofensivo. A magia contagiante de cada passe e devolução, de cada recepção orientada para deixar o adversário fora do lance, e de cada decisão na finalização que tira notoriedade e garante o golo, faz-nos duvidar de todo o trabalho que é necessário para se chegar até ali. Para se ser uma equipa dominante é necessário correr… muito! É sempre necessário um esforço hercúleo para recuperar a bola no momento da perda, e fazer acelerações constantes sem bola que muitas vezes afastam a individualidade do golo mas aproximam a equipa. É preciso rapidamente entender a situação do portador da bola e deslocar-se em conformidade para lhe dar as melhores soluções de passe. E é também imperativo que todos respondam de acordo à cada iniciativa pressionante de um colega de equipa. Isto não tem nada a ver com talento, é uma questão de vontade. E quem não tem atitude para competir no jogo como um todo, quem não tem vontade de correr, nunca será perdoado por um treinador tão exigente. Porque para ter a bola é preciso que o adversário não a tenha, e para que ele não a tenha é preciso que se recupere.

Pelo forma como o futebol das suas equipas nos apaixona, pelo maravilhoso sentimento de satisfação que nos invade a cada instante que as suas equipas estão em campo, sugerimos que com ele a liberdade é uma constante. Afinal, não há arte sem índices elevados de liberdade criativa. Será mesmo assim?! A complexidade de um jogo tão evoluído exige uma obsessão pelo controlo tão grande quanto a paixão que tem por ter a bola na sua posse. Nos aspectos tácticos, em cada detalhe de jogo, na exigência no treino, e nos factores que influenciam o rendimento, é implacável. Há liberdade, claro. Mas apenas na medida em que permite aos jogadores a sua expressão individual em campo, nos momentos adequados.

Acusado de ter um jogo aborrecido pela forma responsável como os seus jogadores cuidam de cada bola que recebem, e sobretudo porque demonstra uma superioridade que nos leva a pensar que é impossível que seja derrotado. Tem a bola de forma radical e obsessiva. Monopoliza. E só o faz por ser mais defensivo do que aquilo que todos julgam, e fundamentalmente por ser mais ambicioso do que todos no momento ofensivo. Porque quer que em cada ataque apareçam os padrões que treinou, as situações que os seus jogadores estão habituados a identificar, os espaços que se falaram para explorar no adversário. Quer expor ao máximo a sua equipa aos estímulos a que estão mais habituados, e com isso aumentar de forma exponencial as hipóteses de ser bem sucedido no ataque. De superar o adversário e fazer golos… muitos golos. A ambição ofensiva não tem limites, e por isso continua a conseguir chegar mais mesmo que por vezes tentando menos.

Quando falamos na imposição de uma ideia de jogo, muitas vezes esquecemos que mais duradoura ela será quanto maior for a identificação dos jogadores com o jogo que se quer. Seria sempre muito fácil depois do sucesso estrondoso com o Barcelona dizer, Eu sou Pep Guardiola, e vocês têm que jogar assim! E até aqui, no mais bonito dos pormenores, ele se distingue. Talvez por isso vá deixando largos legados por onde passa. Porque convence, tenta convencer os jogadores de que aquele é o caminho para o sucesso colectivo e individual. Não impõe. Mostra, explica, e promove o entendimento do seu modelo de jogo.

O conto de fadas do maior génio da história do jogo apenas entendido, na sua fase embrionária, por outro génio que também foi Autor nas páginas do livro catalão. Cruyff, o pai do jogo ofensivo e do ataque posicional.

Blessing
Sobre Blessing 88 artigos
Treinador de futebol, de momento na formação. Experiência como Treinador Adjunto no escalão de seniores masculino e feminino, tendo esta época culminado com a conquista de todas as provas nacionais em disputa. Desempenha também funções como Scout para 1ºLiga. Criador do Blog Posse de Bola

10 comentários em Um retrato do génio

    • Peço desculpa pela demora, mas o teu comentário requeria uma resposta mais cuidada e mais longa, e foi-me passando e só hoje me lembrei que o tinha de responder. Espero que ainda venhas cá!

      Não vou falar de Guardiola, vou falar do que penso pessoalmente sobre isso.

      O que é liberdade? Tudo parte do entendimento disso. O Paulo Bento dizia uma coisa muito importante, não para as questões dentro de campo na óptica dele, mas para mim não podia resumir melhor aquilo que para mim deve ser a liberdade… condicionada. A liberdade nunca é liberdade total, e está sempre condicionada. “100% de liberdade para 200% de responsabilidade”. Eu traduzo o que penso sobre isso.

      100% de liberdade significa que um jogador tem a possibilidade de agir como quer. 200% de responsabilidade significa que tem a perfeita do noção de como o jogo se vai modificar quando o fizer. Ou seja, como é que os colegas e o adversário vão reagir quando optar por determinada acção – com e sem bola. Tem que no fundo ter conhecimento do jogo. Eu nunca dou liberdade a um jogador por dar. Dou porque sei que ele é capaz de a assumir como uma mais valia para ter maior sucesso no jogo dele. Por exemplo, os meus médios defensivos quando as coisas não estão a correr bem e não conseguimos chegar à frente, quando o jogo está difícil e não estamos a ganhar, o tempo passa e eles perdem a paciência. Começam, com bola, a progredir e tentar várias vezes ultrapassar o adversário em condução, ou drible. Colocando em causa a saída segura da equipa. De imediato intervenho e lhes digo que eles têm que ficar na posição deles. E depois alerto os médios mais próximos que se aquilo acontecer um deles tem que baixar (o mais próximo), porque a equipa precisa de manter aquela estrutura posicional. E depois digo a todos o quão importante é para atacar e para defender melhor aquela posição estar sempre ocupada. Explico as consequências de existir ali alguém ou não, etc. E ainda digo ao ouvido do puto que tentou a progressão, quando fizeres isso diz a alguém para ficar. No fundo, estou a fomentar a liberdade com responsabilidade. Uma liberdade condicionada aos objectivos da equipa, e que tende a pedir aos jogadores que analisem se as condições estão criadas para fazerem determinado tipo de movimento. Ou não estando, que sejam capazes de prever como o alterar a seu favor, e que comuniquem com os colegas essa alteração. E isto acontece no jogo todo. Obviamente, há momentos em que deves ser criativo e que o jogo pede criatividade. E há outros que não. Mas a liberdade, essa tal liberdade, só serve se vier acompanhada de responsabilidade. Responsabilidade que se ganha a medida que estimulas o jogador a perceber as consequências das acções dele.

      Não consigo dizer, por exemplo em que zonas ou situações isso deve acontecer.

      Olha outro exemplo diferente, se treinas para fomentar essa tal criatividade e liberdade com responsabilidade não raras vezes ficas surpreendido com a resposta e entendimento dos jogadores da situação de jogo. Eu faço muitos exercícios reduzidos onde peço sempre X linhas de passe próximas ao portador da bola, orientadas em determinado sentido. Mas que as opções sejam sempre válidas. Ou seja que não estejam tapadas. E estando, que seja para permitir espaço ao colega para avançar. Quando passo isso para jogo, porque nos jogos reduzidos muitas vezes não peço para se colocarem de acordo com a posição deles, é que eles vão ser estimulados para perceber onde se devem colocar, dentro da estrutura que eu defini. Estou a permitir que eles possam escolher onde estar, desde que cumpram com o objectivo. Por isso, quando passo para uma situação de jogo, e o meu lateral está tapado individualmente pelo extremo adversário, os meus laterais começam a vir dentro para receberem sem oposição. Eu não trabalhei isso especificamente, mas eles o fazem. E é óptimo, e eu aplaudo de imediato. Depois é questão de haver um outro jogador a compensar aquele movimento interior, e assim se cria um principio de jogo adaptado ao que os jogadores fizeram… E são demasiados os que surgem assim, e se calhar são os mais importantes. Porque criam uma ligação e fomentam uma participação activa do jogador à forma de jogar do treinador. Portanto, liberdade, sim. Mas consciente. Se fizer isto vai dar aquilo. Se eu subir o meu colega fica. Se eu subir, mesmo que o meu colega não fique o adversário vem atrás por isso ficamos em superioridade na mesma lá atrás. etc.

      • Mas suponhando que tens um jogador mais forte no 1×1, pedes lhe para ir para cima mesmo que seja complicado,porque pode ter sucesso, ou pedes que se não existe a possibilidade de rasgar dar na cobertura ou numa outra linha de passe? Condicionas a decisão nesse momento, ou deixas o jogador decidir sabendo que se perder a bola vai ser o primeiro a defender?Se esse jogador falhar uma,duas,três vezes o drible, percebes e condicionas lhe a decisão?

        • Depende do jogador. Há milhares de jogadores fortes no 1×1, e todos eles decidem de forma diferente em contextos semelhantes. Portanto, a forma como condiciono depende da percepção que eu tenho daquilo que é a forma como ele entende ou não o jogo. Não há nenhuma fórmula para um ou outro, e não há por isso nenhum exemplo prático que te possa dar. É uma questão de sensibilidade minha, portanto do treinador, de uma identificação ou não do jogador com o que se quer. O texto todo acima foi para te dizer, para te mostrar, que não há uma fórmula. A resposta será sempre depende.

          Ps: o facto de ter perdido a bola, consecutivamente, no 1×1 não implica necessariamente que tenha decidido mal.

          • A mesma coisa com os criativos, nunca lhe condicionar a decisão, e estimular a mesma tendo um jogo complexo, com muitas linhas de passe etc etc.

  1. Nao sei se conhecem “Football Made in Germany” – https://www.youtube.com/watch?v=3beI0f8G-3A Estava a procura de outro documentario sobre futebol que vi ontem num canal belga sobre o futebol alemao (muita coisa sobre futebol feminino e sobre a equipa de reservas do Bayern), mas encontrei este que tambem me parece interessante

  2. que jogador,sempre 5 segundos a frente de todos,como treinador igual,chamar lhe génio é pouco,existe claramente um antes e depois de pep…

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