O jogo como um todo. Da DFB ao Barcelona, passando por Manchester.

O Futebol transformou-se completamente nos últimos 10 anos. A mudança tem sido brutal. Os dois elementos básicos – ter a bola, não ter a bola – são os mesmos, mas as transições entre esses dois estados não têm nada a ver com o que eram. A maior probabilidade de marcar um golo surge nos primeiros dez segundos depois de ganhar a bola.

A citação é retirada do livro “Das Reboot – Como o futebol alemão se reinventou e conquistou o mundo”

Já muitos foram os textos em que fomos partilhando esta obrigatoriedade de ter a equipa preparada para todos os momentos do jogo. Preparada para responder a tudo o que o jogo estiver a dar. A pedir e a proporcionar. Só há uma bola e por mais que todos as queiram ter (e tantos são os que não a querem), ela não fica com quem quer, mas com quem pode. Num Barcelona x City, a UEFA não ordenará a presença de duas bolas em campo. Por isso, será sempre melhor treinador e serão sempre melhores equipas, as que mostrarem competência em todos os momentos. Porque entreter os adeptos é diferente de ter rendimento. Enquanto adeptos todos preferimos ver um jogo com dez golos e um empate a cinco. Todavia, os melhores profissionais são os que preparam as suas equipas para marcar os cinco, mas não sofrer outros tantos!

Os alemães perceberam-o. E apesar do injusto insucesso no último Europeu, demonstraram o porquê da sua superioridade. Competência em organização ofensiva, com um ataque posicional extremamente bem trabalhado e definido, mas também uma qualidade ímpar nos momentos que se seguiam à recuperação da posse. Foi um regalo de bem jogar o seu golo de contra ataque logo na primeira partida contra a Ucrânia.

Ontem duas equipas ditas de “posse” fizeram vários golos em transição nesses dez segundos… há que treinar tudo, tentar ter qualidade em todos os momentos.

As palavras são do internacional João Vilela e referem-se à forma como no dia de ontem Barcelona e Manchester City chegaram ao golo.

Muitos foram os que nunca compreenderam o Barcelona de Guardiola. Não era somente uma equipa de organização ofensiva. Foi também a melhor transição ofensiva do futebol mundial. Porque o conhecimento sobre o jogo era absolutamente invulgar, e a tomada de decisão dos intervenientes se aproximava da perfeição, percebiam sempre, atempadamente, o momento em que seria mais profícuo guardar a bola e passar para ataque posicional. Porque guardavam a bola eternamente, ficava sempre a sensação de que era aborrecido e de que só jogavam nesse momento. Nada mais falso! Sempre que havia oportunidade (leia-se espaço e vantagem ou igualdade numérica) após a recuperação, o Barcelona era letal.

O Barcelona de Pep, como a melhor equipa da história porque perfeita em todos os momentos! E ser perfeito em todos os momentos significa que há poucas perdas e consequentemente, o tempo em organização ofensiva aumenta exponencialmente! Não significa que não se aproveite o espaço e o tempo quando este nos beneficia. Nunca ninguém viu Messi não acelerar ou não ir para cima quando há condições para desequilibrar.

O futebol evoluíu de forma incrível. Tem sido essa evolução o que tem feito mover o “Lateral Esquerdo” a falar continuamente sobre o jogo. Só quem se actualiza poderá continuar a tentar ser competente. A Alemanha é um exemplo claro de quem preferiu manter a humildade, ouvir, ler, ver, aprender. Ao contrário do que se passa no Brasil, por exemplo. Ignoraram-se os “galões” e os estatutos. Os troféus anteriores e o longo historial. Aprendeu-se, modernizou-se, evoluiu-se. E a nova Alemanha voltou a herdar a célebre frase da velha DFB. “São onze contra onze e no final ganha a Alemanha”.

 

capa

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2366 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

8 comentários em O jogo como um todo. Da DFB ao Barcelona, passando por Manchester.

  1. Ontem, houve outra equipa dita de posse que também marcou em transição e que vai ao encontro do artigo, já que também foi na Alemanha. O primeiro golo do Dortmund é uma transição muito boa, iniciada no guarda-redes e que a meio tem mais um belo passe do menino Weigl, chegando a bola a Raphael Guerreiro.

    A forma exuberante como depois Thomas Tuchel celebrou o golo, diz bem sobre como adorou aqueles segundos em que a bola chegou de baliza a baliza.

    Abraço.

    • Vamos ver o que o Dortmund faz este ano. O Bayern já começa a evidenciar a perda de alguns processos do antecessor enquanto que na Westfália a derrota com o Leipzig, que segue confortável na primeira metade, foi encarada como alerta e mais trabalho.

      Raphäel Guerreiro tem sido um monstro naquela equipa. O Weigl está mais apurado. O Bartra, não sendo nenhum Hummels, tem feito por estar à altura (só não ataca com a mesma qualidade). E até agora o Mkhytarian ainda não deixou saudades, e isso diz muito da alegria de jogar que o Götze reencontrou.

  2. O jogo evolui de forma constante, o que se passa com Mourinho? adoptou uma fórmula de sucesso que lhe deu títulos nos últimos anos mas com a constante evolução do futebol, essa fórmula tornou-se gasta, porque o próprio não soube evoluir?

  3. “Os alemães perceberam-o. E apesar do injusto insucesso no último Europeu,”

    Discordo em absoluto e nem do jogo com a Itália deviam ter passado, sendo que nesse mesmo jogo mudaram toda a sua ideia de jogo para tentarem clonar o sistema tático e modelo da turma Italiana.

    “Muitos foram os que nunca compreenderam o Barcelona de Guardiola. Não era somente uma equipa de organização ofensiva. Foi também a melhor transição ofensiva do futebol mundial.”

    Discordo em absoluto, o Barcelona de Luis Enrique dá 10-0 ao de Guardiola em transição ofensiva, era um Barcelona sobretudo de organização, posse e molengão. A melhor equipa em transição ofensiva dos últimos 10/15 anos foi o Real Madrid de Ancelotti na época da final de Lisboa.

    Compreendo que seja um entusiasta do Barcelona e de Guardiola, mas há que ver as coisas como elas são.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*