Tomada de decisão. Ganhar / perder pontos.

Mesmo que pouco visível e tantas vezes pouco perceptível qual a melhor decisão a cada instante, a tomada de decisão é o factor diferenciador no jogo moderno. Ser rápido, forte e / ou ter qualidade técnica aprazível, de nada servirá quando o mais importante não se verifica. O perceber o melhor caminho para se chegar ao objectivo colectivo. O golo.

Em situações de vantagem numérica, é sempre decisiva a progressão na direcção da meta (baliza adversária), o atrair em si a atenção dos defensores e só depois decidir (soltar…). Tantas vezes é o soltar cedo, ou soltar para o lado errado, o que impede a sua própria equipa de chegar ao golo.

Tantas vezes jogadores menos rápidos, menos fortes e até menos aptos tecnicamente, são bastante melhores que outros com traços individuais mais acentuados e mais perceptíveis ao grande olho do público. Tudo porque há quem solte sempre a bola com ideias, quem idealize toda a jogada na sua mente e não apenas o seu toque na bola. Porque há quem veja tudo e há quem faça por fazer.

Em Arouca, a pouco mais de dez minutos do fim, o Braga desperdiça sem finalização sequer, um lance de incrível superioridade. Uma má decisão (não atrair e colocar bola no corredor lateral) a reduzir drasticamente as probabilidades de terminar em golo um lance cuja eficácia deverá sempre ser muito grande.

4x2

 


Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2366 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

9 comentários em Tomada de decisão. Ganhar / perder pontos.

  1. Há algo muito importante que deve ser tido em conta . A tomada de decisão, só é qualificada como boa ou má mediante o resultado que tem. O que quero dizer com isto é que se um maluco se enfia no meio de três defesas, apesar de ter colegas em apoio, sai de lá e marca golo depois de ter rebentado com os três, quem somos nós para avaliarmos tal situação como má decisão. Grande blog! Continuem!

    • Nao posso concordar Tiago,

      Caso contrario… vale tudo desde que seja golo. Tomar boas decisoes tem a ver com aumentar as probabilidades de chegar ao golo, mesmo que nem sempre se marque. Tomar boas decisoes aumenta as probabilidades de o fazer.

      Milhares de vezes demos este exemplo. Se no 2v1 mais GR o portador da bola fixar e passar para as costas do defesa, vai deixar o colega em 1×0, aumentando a probabilidade de golo.

      Se o portador da bola fintar, ate pode conseguir marcar golo, mas tera sempre menos possibilidades do que da maneira que explicamos antes.

      o resultado nao tem nada a ver com uma boa decisao.

      Isto de uma forma simplificada, porque a competencia dos intrevenientes mexe com o ser uma boa ou ma decisao, tal como o reconhecimento dessa competencia tambem mexe.

      Se formos ao micro entao.. os apoios do defesa tambem influenciam a avaliacao de ser uma boa ou ma decisao, bem como o posicionamento do GR.

  2. Aquilo que eu fico a pensar, sempre que vejo contra-ataques mal resolvidos (e na nossa Liga isto acontece dezenas, centenas de vezes), é como é que se passa uma semana inteira sem trabalhar este tipo de situações?

  3. Parece-me que não têm existido uma abordagem cientifica ao processo de tomada de decisão em contexto desportivo. Treina-se e explica-se, mas o processo de interiorização está pouco estudado. Aqui, o Psicólogo Desportivo têm que entrar e desenvolver com o treinador situações que melhorem a tomada de decisão.
    A meu ver, primeiramente o que se deve fazer é analisar as competências envolvidas:
    -Controlo de Bola sem necessidade de observação continua
    -Avaliação espacial, leitura do espaço, distâncias e ângulos.
    -Avaliação e desenvolvimento da percepção dos movimentos dos jogadores (geralmente é o que se treina).

    Depois é estruturar exercícios que desenvolvam estas competências de forma integrada.
    Continua-se a ver o Psicólogo Desportivo como um apoio terciário e não como um participante.
    Futebol sem estruturação mental, dificilmente será de alta competição.

  4. Juntando os comentarios do Luis e do Avancado,

    Tem, na nossa opiniao (e aqui acho que posso falar por todos os “escribas” aqui do sitio), a ver com com o treino.

    Todas as situacoes sao diferentes, mas teem semelhancas entre si. Na psicologia ecologica chamam-lhe “affordances”. Traduzindo por miudos, sao detalhes que fazem identificar estimulos e isso faz com que seja possivel ligar situacoes novas, a coisas que conhecemos.

    Essas affordances so conseguem ser treinadas, se o treino for o mais semelhante possivel aquilo que vivemos no jogo.

    Imagina que (e nao sabemos o que o Braga faz nos treinos, mas por vermos isto vezes sem conta, assumimos que sera assim) treinam estas situacoes sem oposicao. Ou com varas ou bonecos a fazer de opositores.

    Todas as situacoes vao ser iguais no treino, as distancias entre os defesas nao se alteram, as decisoes deles tambem nao. Mesmo que os colegas corram a velocidades diferentes e adoptem diferentes angulos.. as coisas mudam muito pouco, e no treino.. em cada 10 jogadas, fazem 9 golos… porque ainda assim, o pino conseguiu cortar umas bolas sem sequer se mexer.

    Estao a treinar.. coisas mecanicas, sem relacao com o jogo.

    Ao treinar isto, com 4v2 com 1 defesa a perseguir, mais o guarda redes.. e com a equipa que defende a ter de meter a bola em certos espacos se ganhar a posse, vai fazer com que tudo o que se passa nesse momento seja mais proximo da realidade. Os posicionamentos dos defesas vao ser semelhantes, mas ainda assim sempre diferentes, dando possibilidades de accao diferentes tambem. Umas vezes o melhor vai ser fixar e dar a direita, outras vezes a esquerda, outras vezes fingir que passa e assumir a jogada porque os defesas em vez de se preocuparem com a bola foram pressionar os adversarios a contar com um passe que … nao precisa de existir.

    Sem se treinar, tendo em conta tudo isto… a ligacao entre o que se faz no treino e o que acontece no jogo… sera sempre muito fragil.

    Por isso Avancado, acho que tens muita razao no que dizes, mas em 2016, na primeira liga, nao deveria ser preciso estar a espera do psicologo desportivo para perceber isto. Basta pensar 10 segundos sobre o que se esta a fazer, para perceber que os cones nao chegam para aproximar o treino da realidade. Nem nos benjamins, quanto mais em seniores.

    O que nao quer dizer que nao se deva treinar sem oposicao. Eu posso fazer bacalhau assado no forno a meter o bacalhau no pirex e siga la para dentro, ou… posso fazer uma cama de cebola, regar com azeite, meter umas ervas e tal. Mil maneiras de se fazer as coisas, umas dao mais trabalho do que outras.. mas depois o almoco sai bem diferente.

    • Mas aqui ocorre-me uma outra reflexão. Ok, eles treinam situações semelhantes, sem oposição e, dessa forma, os ganhos não são os mesmos.

      Agora, não será preocupante que jogadores atinjam o nível profissional sem saber fazer isto? Ou seja, eu posso aceitar que uma situação mal treinada, ou pouco treinada, não tenha transferência para o momento do jogo. Mas não sei se aceito que um jogador, em todo o seu processo de formação, não tenha estado exposto a isto uma série de vezes, não tenha visto a situação ser analisada após o jogo, não tenha apreendido como se resolve um contra-ataque (de uma forma rudimentar, básica…), numa “quantidade” suficiente para, quando se depara com ela num jogo, tomar uma decisão melhor.

      É polémico, isto?

      • Luis,

        A resposta “facil” a isso eh que se nao vives uma situacao regularmente… desaprendes. Ou “desafinas”, isto eh, deixas de estar ligado as affordances que falava no outro comentario.

        A Psicofisiologia, fala (desculpem la quem percebe realmente disto, e estejam a vontade para corrigir), de forma muito simplificada, que se criares uma sinapse e lhe deres muito reforco, e reforco positivo.. ela vai ficar teoricamente para sempre. Se nao lhe ligares muito.. se nao a utilizares com frequencia, ela vai enfraquecer e desaparecer para dar espaco a outras.

        Teoricamente, um jogador que chega a profissional, so conseguiu la chegar porque tem as capacidades para isso, que se transformam em competencias pela maneira como vivencia as experiencias proporionadas. Tanto pelo jogo, como pelo treino.

        Mas, e mesmo que tenha tido bom treino e bom jogo durante a sua formacao, se nao replicar em treino e em jogo os mesmos estimulos… muita coisa vai ficar para tras.

        Eh impossivel revisitar o que estes jogadores fizeram na formacao, tal como eh quase impossivel saber o que treinam e o que lhes pedem.

        Mas, conhecendo o fenomeno como conhecemos… nao seria surpresa se muita coisa tivesse ficado para segundo plano, que agora eh decisiva.

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