Suso e Bernardo Silva. O triunfo dos que maturam mais tarde.

Já nas categorias que se aproximam do nível profissional, quando os atletas já estão maturados do ponto de vista físico, o desempenho físico também é levado em conta, mas associado ao alto grau de desenvolvimento técnico. O aumento do número de atletas profissionais nascidos no segundo semestre é proveniente da “sobrevivência” dos atletas que mantiveram a qualidade técnica elevada, elemento que foi extremamente importante e desenvolvido durante as fases em que a diferença maturacional se fez presente.

    Conclui-se que o processo de captação que privilegia os aspectos maturacionais e físicos pode estar descartando muitos talentos nascidos nos meses finais do ano que são ofuscados pelos atletas mais velhos da mesma categoria (nascidos nos primeiros meses do ano), que se “aproveita” de seu maior desenvolvimento para as variáveis físicas, técnicas, táticas e psicológicas do jogo, visto que no profissional a maioria dos atletas é nascida no segundo semestre do ano. Portanto, ao pensar dessa forma, os atletas que compõem a equipe profissional são a pequena porcentagem de atletas das categorias de base que se mantinham nas equipes pela sua qualidade técnica, e não pela sua vantagem maturacional e física por ter nascido nos meses iniciais do ano. Devemos então, pensar mais no futebol arte, e não somente em vertentes físicas, e, sendo assim, deve-se repensar e remodelar o processo de captação de atletas no futebol.

Retirado do estudo “Influência da idade relativa no processo de captação de atletas no futebol”, na EF Deportes, nº 173.

Foi há mais de três anos que pude observar Suso pela primeira vez. Como Bernardo, o seu pé esquerdo é uma autêntica maravilha. Mas, só o é porque o seu cérebro percepciona o jogo. É um talento criativo, que define. Cria e não recria, como o português. Fui perdendo-lhe o rasto e hoje na Tim Cup voltou a “aparecer-me”. Colado ao corredor direito, só porque recebia e colava a bola no seu pé esquerdo, atraía “meia” Juventus. Suso, como Bernardo sempre foi demasiado bom para cair. Um protótipo de jogadores que surgem mais tarde, precisamente pela maturação mais lenta. Todavia, se mesmo com tais dificuldades chegam às selecções mais jovens e acabam por chegar ao topo, imagine o quão bons são e o quanto poderão dar depois da maturação.

Bernardo teve a felicidade de crescer numa era diferente, numa casa onde encontrou profissionais competentes que souberam perceber e adivinhar-lhe o potencial. Alguns anos antes e talvez não fosse hoje sequer profissional de futebol.

Por vezes, tudo o que é preciso é paciência. Reconhecer que o sucesso imediato nem sempre é o sucesso de amanhã. E miúdos desta natureza a sobreviverem no meio dos mais fortes e que chegam mais rápido, só significa que estarão a produzir ainda mais adaptações naquilo que mais importará. A velocidade de raciocínio. A decisão. Boa e rápida. Saber esperar por quem vai crescendo nesta evolução poderá não ser tentador, mas garantidamente que será proveitoso. Porque também eles chegarão ao estado maturacional dos outros. E se sobreviveram ali, garantidamente que terão qualidades técnicas e terão desenvolvido capacidades de tomada de decisão que farão a diferença quando o seu momento chegar.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2436 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

4 comentários em Suso e Bernardo Silva. O triunfo dos que maturam mais tarde.

  1. “Por vezes, tudo o que é preciso é paciência.”

    Caro Paolo Maldini

    E também é preciso que se foquem exclusivamente em ascender ao FUTEBOL PROFISSIONAL nos seus clubes e não a passar o tempo em brincadeiras nas selecções.

    Suso e Bernardo eram mais dois que brincavam muito nas selecções jovens o que os prejudicou na sua ascensão ao FUTEBOL PROFISSIONAL.

    • Sim, porque há diversos exemplos de jogadores que não andaram a “brincar às seleções” e que ascenderam ao topo do futebol profissional… Enfim, essa repetida conversa sobre as seleções só pode ser fruto de algum tipo de patologia. Já foi ao médico?

    • Caro SuperSeleção

      Brasileiros que não brincam nas selecções e que jogam nas melhores ligas há muitos, e argentinos, uruguaios.

      Quem sofre de algum tipo de patologia é quem paga milhões em transferências e salários e depois deixa os jogadores irem brincar nas selecções.

  2. Iniesta é um exemplo disto mesmo. Um dos melhores jogadores de sempre, mas que só aos 20 e alguns anos começou a provar estar nesse lote.

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