Jogar o jogo. Senti-lo.

Se é jogo é para jogar

Citava recentemente o genial Prof Frade, o mui estimado mister Fernando Valente.

Ler Frade é recordar a infância. As horas intermináveis “lá atrás” de bola no pé a tarde toda, até anoitecer. É perceber o porquê de no irmão Brasil não pararem de surgir talentos em quantidades industriais. É recordar o jogo pelo seu prazer imediato e não pela ideia de um futuro de “estrela de cinema”.

Se há quem conheça o caminho do desenvolvimento nas idades mais criticas, esse alguém são as crianças.

Na rua não se jogava em igualdade numérica. O Vital que jogava horas a fio connosco, só interrompidas para ir uma horita e meia ao treino, era também capitão do seu escalão no SL Benfica. Formar equipas com igualdade numérica era condenar o resultado. Não era estranho pois que todos estivessem sempre de acordo quanto à injustiça que seria jogar 5 contra 5, ou 6 contra 6.

Mesmo que de forma despreocupada, as crianças têm esta capacidade de promover o seu desenvolvimento, de forma bastante mais assertiva do que o que sucede quando tantas vezes se entrega o processo aos adultos.

Na rua ninguém queria o jogo ou o lance fácil. Na rua, todos queriam a bola. Quem não a tinha era obrigado a crescer para merecer a confiança dos seus pares. Não havia paizinhos a reclamar que a bola não chega ao menino. Escola de futebol pelo constante impor de dificuldades que cativem e promovam o desenvolvimento pelo aumentar do estímulo. Escola de vida pela luta familiar e saudável que nos obriga a superar para sermos tidos em conta em cada contexto. Jogar mais, esforçar mais, procurar o espaço para se ser mais útil para poder entrar no círculo. Quem não tinha de entrar pela baliza para se integrar? Nada dado. Tudo conquistado.

Não quero só ganhar. Quero sentir.

A bola. A essência de tudo. As balizas poderiam ser feitas de pedra e o número de jogadores demasiado reduzido. Houvesse bola e tudo era possível.

No alto rendimento o resultado é tudo para quem investe. Há que procurar compreender o caminho que cada um traça. Ninguém como quem está no processo perceberá as maiores possibilidades de lograr o resultado que quem paga exige. Porém, a essência deste jogo, a sua evolução e beleza estará sempre na mente e nos pés daqueles que se preocupam e divertem com o bom trato da “menina”.

Klopp que sente, sempre à frente de um qualquer Avram Grant. Não haverá Champions League conquistadas que o mudem.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2495 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

3 comentários em Jogar o jogo. Senti-lo.

  1. Ainda hoje abordava algo semelhante no meu site. E creio ser um assunto super pertinente no futebol…

    Este post está espetacular. Como já vem a ser hábito.

    Li recentemente que na Holanda, penso que o Ajax, iriam propor treinar na rua x vezes por semana. Treinar como quem diz…Meter os miúdos em liberdade!

    Cada vez mais formatamos em vez de formar. Penso que a federação deverá agir na formação dos treinadores. Quantas vezes vemos festejos de treinadores em vitórias de miúdos que mais parece champions?

    Liberdade a formar…acho que a chave se reside aí. Curiosamente esse post lembra-me eu pequenino a meter me no meio dos grandes. E que grande prazer aquilo dava…

    Continuem o (grande) trabalho!

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