O passe para o fim dos rebeldes

São muitas as equipas e os projetos de formação que se vão guiando pela ideia de um futebol apoiado, assente num controlo que advém da posse e da cultura do passe curto como a maior arma para a progressão. Talvez influenciados pelos resultados obtidos pelo Barcelona de Guardiola, ou, simplesmente, porque acreditam que esta forma de jogar potencia as qualidades técnicas dos jovens que a tentam interpretar.

A prática, algo extremista, deste tipo de jogo, vai trazendo outros problemas. A procura incessante pelo domínio absoluto, representada, sobretudo, pela qualidade de passe encontrou lacunas como a diminuição do aparecimento de jogadores criativos que sejam capazes de romper entre os defesas, com dribles tão ou mais apaixonantes que qualquer troca de passes.

À intenção de chamar ao jogo dos jovens jogadores, um futebol mais pausado, mais pensado, com um aumentar do número de ações e decisões no momento ofensivo, surgiu, em contraponto, o défice de liberdade para criar de forma individual.

Esta tendência evolutiva depara-se agora, com algumas dúvidas: o jogo que jogam está a limitar o aparecimento de futebolistas mais rebeldes e capazes do ponto de vista do drible? O desejo de potenciar a qualidade de passe dos jogadores estará a inibir os mais fantasistas? Estará este padrão de jogo a dar de um lado para retirar do outro?

É possível que sim mas não terá, obrigatoriamente, de o ser.

Olhemos para Messi. O argentino é melhor no drible ou no passe? O jogo de posse que sempre jogou, alguma vez impediu que este fosse capaz de enfrentar qualquer adversário em situações de 1×1 ou mesmo 1×2?

Não consigo dizer se Messi é um driblador, fantasista ou puro rebelde…não consigo dizer se é mais rompedor do que maestro. A sua capacidade de passe é tão assombrosa como a sua capacidade de drible!

“Tiene libertad para jugar en cualquier posición porque si se pone de “6” es mejor “6” del mundo, si se pone de “8” es el mejor “8” del mundo, si se pone de “10” es el mejor “10” del mundo (…). Leo Messi tiene libertad. Es el fútbol total.”

Luís Enrique

O caso de Messi parece algo à parte. Mas se nos deixamos influenciar pelo que fazem as melhores equipas, não o devemos fazer, também, pelo que fazem os melhores jogadores?

Terá de existir sensibilidade na forma como se vão guiando os jovens, para que, no fundo, não estejamos a conduzi-los por caminhos mais restritos do que aqueles que desejamos. Parece-me claro que temos, nós treinadores, de intervir na forma como este jogadores interpretam o contexto de jogo. A mensagem que passamos será fundamental para condicionar futuramente a sua tomada de decisão.

Acredito que se devam garantir dinâmicas que previnam a perda da bola. Entender o erro, aumentando a frequência com que lances de 1×1, 1×2, acontecem, sem que isso se traduza na perda de equilíbrio.

Aplaudir o drible falhado, parece-me mais importante do que aquela repreensão que surge, muitas vezes, independentemente, da qualidade da decisão.

Para formarmos jogadores com melhor qualidade de passe, não temos de perder os desequilibradores que muitas vezes resolvem. Valorizar a posse não implica desvalorizar os rasgos individuais.

Existem momentos em que o drible é a melhor opção e outros em que é o passe. A chave será a “boa decisão”. E, esta capacidade de agir adequadamente em função da compreensão da situação, apenas acontecerá se o processo de treino for bom e o feedback adequado.

Bruno Fidalgo
Sobre Bruno Fidalgo 36 artigos
Licenciado em Ciências do Desporto. Criador e autor do blog Código Futebolístico. À função de treinador tem aliado alguns trabalhos como observador.

14 comentários em O passe para o fim dos rebeldes

  1. Em Portugal, também porque as pessoas beberam mas sem conseguir verdadeiramente interpretar, passou mta gente a pensar que os dribladores são burros e os que só passam são espertos…

  2. O problema é a padronização de jogo que alguns treinadores na formação tentam implementar, que retira muitas vezes a criação, a decisão, e também aleatoriedad de jogo tão necessária nas idades precoces de aprendizagem!!

    Decidir bem o que treinar, para treinar bem a decisão.

    Grande artigo. Abraço

  3. E quantas vezes a condução, mesmo não sendo a melhor decisão, é aquela que mais desequilibra?! Já para não falar no drible. Excelente artigo Bruno!

  4. Foi isso que me levou a viajar a Barcelona com o meu filho! Para ver o talento em forma de pessoa( Messi) é isso que as pessoas vão ver aos estádios! Magia, aquele drible maravilhoso,o futebol é isso. Improvisação no momento, golos como os do Messi e Maradona nascem porque tiveram treinadores que perceberam o talento raríssimo neles e lhes deram liberdade! Excelente artigo! Tenho um filho que sofre um pouco com isso. Tem capacidade para driblar 4 ou 5 mas é castrado por vezes pelos treinadores.

    • Caro Alexandre

      O objectivo no jogo é o golo.

      Um passe permite ultrapassar as linhas da equipa adversária muito rapidamente, muitas vezes põe o colega em posição de finalização.

      Os dribles, especialmente de 4 ou 5 jogadores são mais demorados permitindo à equipa adversária reagrupar novamente a defesa, tornando praticamente inútil essa acção e desgastando quem o faz.

      É isso que precisa de ser explicado.

  5. Messi representa, num só jogador, o futebol moderno na sua essência:
    Ultrapassar o adversário até enquadrar com a linha defensiva.
    A partir daí tomar a melhor decisão. E o argentino toma sempre. Quer seja a assistência mais criativa e inteligente ou o remate em arco mais colocado.
    Messi é o reflexo e a consequência do paradigma futebolístico atual.
    Como tal, MESSI É O FUTEBOL.

  6. Bom artigo.
    Tenho um amigo que diz não compreender nos dias de hoje quem são os bons jogadores. Ele acha que existe uma excessiva formatação dos actuais atletas. E diz mais: que cada vez menos reconhece atletas com capacidades que o motivem a testar os seus movimentos, os seus dribles, os seus pormenores técnicos.
    Eu…discordo. O espectáculo está mais intelectual. Tem uma beleza diferente. Mas não menos excitante.

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