Sem sofrer porque se retira o contra ataque ao adversário, mas à custa do quê? FC Porto.

Independentemente da possibilidade nada pequena de poder ser a equipa de Nuno Espírito Santo a campeã em Portugal na presente temporada, será preciso recuar muitos anos para encontrar um FC Porto tão pouco aprazível do ponto de vista táctico quanto o da época actual.

Inconcebíveis as opções ofensivas de uma equipa com qualidade para muito mais. Não é uma questão de incapacidade, a equipa de Nuno com bola nem sequer tenta construir e criar de forma inteligente. Não tenta sequer chegar às zonas ofensivas proporcionando que quem receba o faça de forma confortável. É tudo à procura do choque, do físico, do duelo ganho no ar, da vontade imensa. Entrega tudo à maior aleatoriedade das bolas paradas (mesmo tendo os melhores de Portugal nesse capítulo específico, é sempre mais difícil ao treinador de controlar o sucesso / insucesso em tal momento do jogo).

A forma como jogadores deste nível seguem planos de jogo que em nada os beneficiam, e se entregam sem rodeios a este tipo de jogo será sem dúvida um dos maiores méritos do treinador portista. Acredite que não é fácil convencer jogadores de nível alto a terem como principal recurso ofensivo o passe longo para a frente, e se os atletas do FC Porto demonstram tal nível de perseverança, tal só é passível porque algo de bom Nuno vai construindo. Porém, algo de bom bem longe do que é a competência que se deve trazer para o relvado.

Construiu Nuno uma equipa colectivamente bem preparada para os momentos defensivos? Não, de todo.

No momento defensivo o FC Porto é uma equipa com poucos princípios. Vale-se exclusivamente de dois pontos chave.

1 – Qualidade individual dos cinco mais recuados, cujos traços defensivos são incríveis (diferente de serem os melhores defesas e médio defensivo da Liga), que lhes permite mesmo enfrentando muito espaço e pouca entreajuda, resolver cada lance;

2 – Opção de ofensivamente esticar na frente e nada “arriscar” no ligar o jogo pelo chão, garante que nunca perde a bola demasiado balanceado para a frente. Nunca perde a bola exposto defensivamente. E é precisamente na transição ofensiva (nos primeiros 6,7,8,9,10 segundos após a recuperação) que nos dias de hoje surge a grande maioria dos golos.

 

O video (pelo qual peço desculpa pela falta de qualidade! Tive problemas com o editor de videos) traz a maioria das perdas de bola dos primeiros dez minutos (!!!) do FC Porto em Braga e ajudam a perceber dois pontos já por cá muito debatidos:

a) Processos ofensivos rudimentares, pouco elaborados e à espera somente do ganhar a bola no ar, no duelo, na bola parada.

b) Opções ofensivas a serem do ponto de vista táctico a principal razão para consentir tão poucos golos a equipa azul e branca. A perda que se dá com a equipa bem preparada defensivamente. Afinal, quando se bate tanta vez na frente, a equipa fica praticamente toda atrás da linha da bola. Retira as transições ofensivas ao adversário a equipa de Nuno. Porém, fá-lo à custa de um processo ofensivo lastimável.

Pensar no quão criticado foi Vitor Pereira, cuja equipa apresentava um estilo de jogo do melhor visto por essa Europa fora na última década, relembrando a consternação com que as críticas feitas ao jogo rudimentar de Nuno Espírito Santo foram recebidas, só demonstra o nível de entendimento do jogo que grassa por este Portugal.

Rodrigo Castro
Sobre Rodrigo Castro 38 artigos
Rodrigo Castro, um dos fundadores do Lateral Esquerdo. Licenciado em Ed física e desporto, com especialização em treino de desportos colectivos, pôs graduação em reabilitação cardíaca e em marketing do desporto, em Portugal com percurso ligado ao ensino básico e secundario, treino de futsal, futebol e basquetebol, experiência como director técnico de uma Academia. Desde 2013 em Londres onde desempenhou as funções de personal trainer ligado à reabilitação e rendimento de atletas. Treinador UEFA A.

9 comentários em Sem sofrer porque se retira o contra ataque ao adversário, mas à custa do quê? FC Porto.

  1. Concordo com o texto, mas o porto do nuno é o melhor ataque da liga. independentemente de achar que têm um modelo de jogo “antigo”, a verdade é que para portugal chega…

    • Bolas paradas, individualidades e resultados muito desnivelados em jogos contra equipas pequenas, a verdade é que não é uma equipa de ganhar regularmente por alguns golos de vantagens, mas construiu esse numero de golos marcados com base em resultados avolumados em casa contra algumas equipas pequenas que se abriram depois de sofrer o primeiro golo.

  2. Acontecei um pouco este síndrome com o sporting. O que andavam a fazer de mal, estava a ter resultados e continuaram a fazer. Dai o muito mérito de nes fazer com estes jogadores. Preparar para apenas defender poderá ser um bom princípio é fácil de incutir a um jogador como o oliver. Não singrou no atlético e veio para cá, dizer lhe que ele se torna melhor a fazer carrinhos e a ver a bola a passar por cima….!

    O pior para o futebol e que o porto arrisca se a ser campeão…..!

  3. Não é mérito nenhum o que o Nuno está a fazer.

    Os jogadores são como qualquer pessoa normal, que se deixa convencer com resultados. A equipa ganha, os jogadores acreditam. É uma fotocópia do que aconteceu em Valência. Enquanto a equipa ganhava, os jogadores acreditavam. O problema é quando as vitórias deixam de aparecer. E como este “modelo” não está desenhado para ganhar consistentemente, dificilmente o Nuno consegue mais que uma época atípica com os jogadores do seu lado.

    E este sucesso deve-se principalmente a uma conjugação de fatores muito favorável ao treinador, como a presença no plantel de jogadores que são muito fortes nos duelos defensivos individuais e que lhe permite ter mais sucesso que o esperado nesse aspeto. Tivesse o NES a defesa do Benfica, por exemplo, e até ia meter dó.

  4. A grande qualidade do NES foi mesmo conseguir que o plantel faça o que ele quer. Mas também só tem assim o plantel porque vão ganhando os jogos e estão na luta… Se isso se inverter não estou a ver os jogadores do porto satisfeitos por muito tempo.

  5. “Não é uma questão de incapacidade, a equipa de Nuno com bola nem sequer tenta construir e criar de forma inteligente.”

    Caro Rodrigo Castro

    Não vale a pena, ainda no último Barcelona-Juventus, o Barcelona tentou construir e criar de forma “inteligente”, sendo que diversos lances foram parados com recurso à falta mas simplesmente não foram assinalados.

    A única crítica fiável é a de que o FCPorto não joga em bloco.

  6. A impressão que fica muitas vezes é que o processo ofensivo do FC Porto só conhece um caminho: o jogo mais directo e o ataque à profundidade. Quando o adversário tem alguma qualidade e alinha com o bloco mais subido, a velocidade de Corona e a força e capacidade de desmarcação de Soares ainda colocam a defesa contrária em sentido. Quando o FC Porto enfrenta um rival com um bloco baixo ou médio/baixo, sente dificuldades que não se justificam se atendermos ao valor do plantel. E é um desperdício do talento de jogadores como Óliver, cuja visão de jogo e capacidade de execução (passes de médio e longo alcance) são abafadas pela forma como a equipa salta linhas em organização ofensiva à procura do choque e das segundas bolas.

  7. Acho que o Nuno quer recuperar o espírito portista, seja lá o que isso for. Quer incutir a história do Porto nos jogadores. Só por isso se pode explicar a titularidade de André.

    Creio que para o ano vai preocupar-se mais em jogar à bola. São muitos anos sem títulos e este ano serve para o jogar à Porto.

    Claro que JJ quando chegou ao Benfica foi imediatamente campeão e a jogar muito. Mas isso só prova que ele é dos melhores do mundo. Nuno é competente mas igual a centenas que andam aí.

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