“MarsBet”

O caderno desactualizado. O desmontar e o modelar.

Começo o presente texto com um forte agradecimento a todos os que me abordaram com palavras e gestos de simpatia no último congresso na cidade do Porto. Não iniciei o blogue à procura desse reconhecimento, mas é impossível negar que vos ouvir falar da influência que os “gajos de Lisboa” tiveram na forma como olham para o jogo, é um orgulho. A propósito, começou em Lisboa, mas hoje é de Portugal!

Há dez anos no nascimento do Lateral Esquerdo, a visão era sobretudo ou branca ou preta. Ou era assim, ou estava errado.

O jogo estava muito atrasado em Portugal. A forma como se defendia, como se atacava. A importância que ainda não se dava ao jogo pensado e à capacidade para tomar decisões dos jogadores. A forma como as equipas eram o somar de várias características individuais e o jogo não se ligava, era uma marca do jogo nessa altura. Em simultâneo, eu orientava um grupo de rapazes universitários que absorviam absolutamente tudo o que pretendia e tudo o que se treinava. Tudo o que idealizava acontecia no campo. Os miúdos goleavam os jogos todos e naquele contexto em que estávamos inseridos venceríamos tudo ao longo das duas épocas que tive o prazer de os ter sob o meu comando. E sobretudo vencíamos tudo com uma equipa em que todos se comportavam cumprindo ao milímetro aquilo que EU idealizava.

Obviamente que tal experiência, mesmo a um nível amador, condicionava fortemente tudo o que acreditava. Era Deus. Tudo o que trazia e propunha acontecia. Portanto, cinzento não existia.

Que saudades… (de Jackson e de James)

Com os jogadores que fui tendo depois… percebi que não sou Deus

Vitor Pereira

O que não percebia na altura é que tal só acontecia por uma razão muito grande, que não se consegue encontrar no futebol sénior federado. Seja no masculino ou feminino, no profissional ou em divisões mais baixas. A inexistência de experiências anteriores fazia que aquele grupo que treinava não tivesse “vícios”. Em suma, eram como crianças / jovens na sua predisposição e capacidade para a aprendizagem. Somente por isso o modelo de jogo naquele grupo foi possível ser tudo o que imaginava.

Com as crianças é só montar. Mas com os adultos… não consegues desmontar… Como é que colocas um gajo que que tem vinte anos a bater na frente a sair a jogar? Eu mandava abrir para jogar e… nada. Ou abre, mas vai de costas para ninguém lhe passar a bola. Este tempo na Alemanha foi um conflito tremendo. Em vez de dar passos para a frente dava passos para trás…

Por vezes há comentários que surgem no Lateral Esquerdo, uns de regozijo, outros de lamento, que referem uma mudança. As coisas já não são brancas ou pretas. Também há cinzento.

Ninguém está tão sujeito ao erro como os que só fazem reflexões. A prática é o que afina o que pensamos.

Vitor Frade

É da experiência com uma equipa feminina na primeira divisão nacional, onde também venceria por mais de uma vez todos os troféus nacionais que disputei, que começa a surgir o cinzento.

Por isso foi tão fácil para mim identificar-me com o que Vitor Pereira e Vitor Frade referiam. O não conseguir desmontar os jogadores com experiências marcadas. Ou pelo menos, alguns deles.

No futebol feminino, porque era um grupo com um passado de jogo e de vivências já bem notório, nunca foi possível ter o modelo de jogo e todos os comportamentos idealizados. Porque simplesmente há sempre quem não cumpra. Ou por não estar disponível, ou por ser incapaz. Independentemente disso, quem é melhor será sempre melhor. Cumprindo mais ou menos. Um exemplo exagerado para que perceba. Tem o Cristiano e o Karamanos no plantel. O Cristiano não cumpre com a movimentação ofensiva, não cumpre de forma tão eficiente na ocupação do espaço, não cumpre com o estabelecido defensivamente. O Karamanos cumpre com absolutamente tudo o que o modelo de jogo pede. Quem joga? O Cristiano, obviamente! Então, há que pegar no que faz o Cristiano e começar a modelar. Ou seja, pegar no que dão as individualidades e ir modelando, integrando as individualidades no modelo. O Cristiano por vezes, não fecha o lado esquerdo? Então há que criar uma forma de o fazer, sempre que tal acontece. Porque no fim do dia, a equipa terá sempre mais hipóteses de ganhar com o Cristiano mesmo com um modelo que já sofreu algumas alterações, do que com o modelo original mas com o Karamanos a jogar.

Foi essa experiência riquíssima, que me fez entender que nem tudo fica como queremos e muito surge do que modelamos em função do que queremos mas também do que eles / elas podem e conseguem dar. A ideia original nunca é a que surge no campo porque as vivências anteriores dos jogadores assim o determina.

Eles é que jogam. Não somos nada sem eles.

Este plantel não tinha nada a ver com a minha ideia de jogo. A técnica é fundamental. Como podia ter a minha ideia de jogo se (faz o gesto de uma bola que bate no pé e não fica, mas antes vai uns metros para a frente)

Vitor Pereira

Em suma.

Se há dez anos tivesse observado a equipa do TSV a jogar teria sido escrito algo como: O Vitor Pereira não tem competência. Aquilo está tudo errado. Os centrais não abrem. O modelo é assim, logo o treinador pensa assado. Portanto, aqueles de vocês que ainda estão ai… ou pensem ou experimentem e analisem, porque estão a ficar para trás.

Hoje, foi muito fácil perceber e entender tudo o que explicou o último treinador campeão no FC Porto. Hoje, percebo claramente que o modelo de jogo é sempre a interacção do que o treinador idealiza com o que os jogadores conseguem e querem dar! Se a equipa se comporta de forma X ou Y, tal não significa que seja essa a forma como o seu treinador vê o jogo. Porque nunca se consegue a cem por cento desmontar jogadores com experiências anteriores relevantes. E porque tantas vezes os que cumprem com tudo são ainda assim inferiores e a equipa fica menos apta a vencer, do que utilizando os que não cumprem.

Quando deixei de jogar, a adrenalina dentro de mim era tanta que não parava de escrever. Às vezes até acordava a meio da noite para escrever. Fiz um dossiê enorme com o que achava importante trabalhar. Sabem quantas vezes o usei? Zero. Mas pensei tanto naquilo que quando o acabei já estava noutro nível, sem dar por ela. Permitam-se criar e experimentar e refletir porque é isso que vos vai permitir manter a paixão.

Vitor Pereira

O amanhã não sabemos, mas ao ontem não voltamos.

Termino o texto, novamente com um forte agradecimento à malta do Porto (enviem as fotos que também gostaria de as ter), e com a frase de Vitor Pereira, para que se sintam tentados a não permanecerem onde estão.

Quando o acabei já estava noutro nível

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2764 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

9 comentários em O caderno desactualizado. O desmontar e o modelar.

  1. O prazer foi todo meu! És um génio muito à frente do tempo.. e assim continuas! Grande abraço e obrigado também pela disponibilidade

  2. Foi um prazer ter-vos cá por cima. Tal como vos disse na cantina continuem nesta vossa/nossa reflexão pelo bom futebol. Foi um congresso apaixonante. Pena que alguns cépticos k por aqui andam não tenham tido oportunidade de ouvir da boca de alguns treinadores aquilo que é a prática. Como disse luis Castro “só fazemos aquilo que conhecemos”. A periodização tactica é um “teorema em ato” (Vitor frade) só quem anda por la sabe. Mais uma vez um grande abraço a todos os colaboradores deste blogue foi um prazer vos ter conhecido…(depois envio as newsletter

  3. Acompanhei todos os jogos do 1860 desde que o Vítor Pereira lá chegou e tinha muita expectativa para o ouvir falar pela primeira vez sobre o que aconteceu. Não deve ter sido nada fácil para ele digerir este desfecho. Inicialmente, quando os jogadores ainda estavam a reagir a todas aquelas mudanças foi quando ele obteve alguns resultados, e curiosamente é em Abril, um mês muito longo, com 5 jornadas, quando a qualidade de jogo atinge o seu ponto mais alto, que a equipa descarrila. Acredito que não gostem de falar em sorte, mas tudo o que podia correr mal, correu a Vítor Pereira. A quantidade de erros individuais graves, directamente ligados a derrotas, é absurda, assim com a ineficácia dos seus jogadores. Relembro o jogo com o Braunschweig, um candidato à subida, em que o 1860 tem 7 bolas de golo, e sofre na primeira vez que o adversário chega perto da sua baliza. Ou o jogo com Aue, em que uma expulsão perto do intervalo e consequente penalti, deita tudo a perder num jogo em que o 1860 já tinha tido três grandes ocasiões. Gostava também de perceber até que ponto o Vítor teve influência nos reforços de inverno, porque à excepção de Abdoulaye, todos os outros se revelaram muito insuficientes (o Amilton então, parecia era como um peixe fora de água=. Mas o que mais me intrigou nesta sua experiência foi a incapacidade da sua equipa se apresentar ao seu melhor nível quando o momento o exigia (em várias ocasiões, quando o 1860 podia, com uma vitória, escalar 3 a 4 lugares na tabela, falhou sempre). E é aqui que eu não sei se será justo dizer que Vítor Pereira tem muitas responsabilidades. Não ponho em causa as suas qualidades no processo de treino ou na forma como prepara os jogos (a forma como anulou em Dresden, a equipa que melhor joga na 2. Bundesliga, foi brilhante e até aí teve de sofrer porque foi obrigado a jogador com 10 nos últimos 20 minutos, depois de uma exibição perfeita com 11 para 11), mas acho que ele nunca foi capaz de ‘galvanizar’ os seus jogadores. E é aqui que eu não consigo dizer se isso é uma falha dele (isto é, se tem mais dificuldades na parte ‘humana’ do jogo, no trato com os jogadores) ou se é algo que ele não foi capaz de perceber a importância que poderia ter na situação que viveu (risco de descida, que acabou por se consumar). Na antevisão aos playoffs, ele reforçou várias vezes a importância de “cumprir com o plano de jogo”, “gerir os momentos do jogo”, “reduzir ao máximo a ansiedade”, mas a equipa pareceu sempre muito frágil, inclusive nas duas últimas jornadas da fase regular. Relembro que até o capitão de equipa disse que os playoffs eram “uma questão de mentalidade, e não de qualidade”. Não sei se isto também estará relacionado com o facto de ser uma situação nova para o Vítor Pereira (lutar pela manutenção). Enfim, foi apenas um desabafo, continuação de um bom trabalho. Cumprimentos.

    • Estou contigo até certa parte. A parte em que a partir de dada altura deixei de poder acompanhar os jogos, por acaso a recta final. Quando via estava naquela fase em que com uma vitória galgava 3 ou 4 posições na tabela. Qual não é o meu espanto quando de repente está no play-off de descida!

      «mas acho que ele nunca foi capaz de ‘galvanizar’ os seus jogadores» – se calhar até passa por aqui, mas talvez essa galvanização venha dos azares. É uma conversa que já se teve por aqui de como é mais fácil trabalhar uma boa ideia em cima de vitórias, mesmo que fortuitas, por oposição a ter de trabalhar soterrado em derrotas, por muito infelizes que sejam.

  4. “Por vezes há comentários que surgem no Lateral Esquerdo, uns de regozijo, outros de lamento, que referem uma mudança. As coisas já não são brancas ou pretas. Também há cinzento.”…e muitas mais cores, mas mesmo no meio da mudança, tem que haver coerência….e creio que vocês aqui no LE criaram uma filosofia, em que devolveram o futebol aos jogadores, e cada vez mais vês, graças a essa mudança de mentalidades, mais Krovinovic, Tiago’s Silva, Geralde’s (quando estava no Moreirense), Iuri’s, etc, a ganharem lugar nos relvados em detrimento de de qualidade djogadores mais possantes, atléticos, mas muitas vezes dúbia….quero eu dizer com isto, que vos ’tou muito agradecido por me terem devolvido o futebol que sempre me apaixonou desde criança, mas fico sempre “lixado” com a vossa antítese JJ…

    • Não há que ter medo de usar os plurais em português. Não há que ter medo em dizer Tiagos, Geraldes (neste caso até porque é mesmo assim que se escreve o apelido) ou Iuris.

  5. Grande texto, acho que já fazia falta há algum tempo caro Bouças.

    Tenho seguido o blog praticamente desde o inicio e consigo lembrar-me da vossa evolucao. Talvez para quem apenas comecou a ler recentemente seja “natural” apontar o dedo e criticar, mas eu percebo que seja complicado abdicar dos nossos principios ainda para mais quando o motivo que levou a criar este espaco foi precisamente esse – dar a predominancia ao cerebro em detrimento do fisico.

    O futebol será sempre um desporto onde a parte fisica tem uma componente decisiva em determinados momentos mas na sua genese, o futebol é o resultado de ter os jogadores mais capacitados mental e tecnicamente (passe e remate primariamente).

    Esse é o “sumo” que sempre consegui beber aqui, e por isso sempre que tenho “sede” regresso.

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