O fabuloso minuto 55 na Choupana

white corner field line on artificial green grass of soccer field

Decorria a época 93/94, quando o SL Benfica se deslocou a Setúbal para defrontar o Vitória local. Após uma humilhante (5-2) lição de bem contra-atacar, Toni afirmou que não mais o seu Benfica jogaria sem um médio defensivo (que ocupasse o espaço à frente dos defesas centrais). Nos jogos seguintes, surgiu Kulkov em tal posiçao. O SL Benfica acabaria, uns meses volvidos, por se sagrar campeão.

No SL Benfica actual, ainda que possa ser difícil de perceber, as causas para o anunciado insucesso, não se prendem com o posicionamento Rúben Amorim, David Luiz, Aimar ou Maxi Pereira. Antes, com um sistema táctico e dinâmica de jogo, obsoleta para a realidade nacional.

Com o passar dos jogos, criou-se a ilusão de que bastaria Amorim ocupar uma das posições de médio centro e o SL Benfica mudaria para melhor. Criou-se o mito de que era por jogar com dois médios defensivos (Katsouranis e Yebda) que a equipa era incapaz de produzir no plano ofensivo. O próprio Quique parece ter-se convencido de que o problema estava nos jogadores. Só assim se explica o afastamento de Yebda, Katsouranis, entre outros e das imensas duplas de médios que já testou.

O Benfica vence em Setúbal, derrota o Maritimo e parecia ser consensual que havia melhorias. Claro. Quique Flores finalmente colocara Amorim como médio centro e Nuno Gomes ao lado de Cardozo. Como se o cerne da incapacidade deste Benfica estivesse nas suas peças.

Por vezes, no futebol há uma terrível incapacidade de ver para lá da montanha (dos resultados). Há muito que se percebera, que, dificilmente este SL Benfica, teria capacidade para ombrear com os seus rivais. Braga e Nacional são, incomparavelmente melhores equipas que o Benfica de Quique Flores, que se vai valendo somente das individualidades (que por terem tanta qualidade, conseguem disfarçar, amiúde, a total ausência de um colectivo forte e equilibrado).

É inconcebível que a quatro jornadas do término da Liga, uma equipa ainda não seja capaz de se manter coesa, com os sectores próximos e a participarem com iguais responsabilidades no processo ofensivo e defensivo. É inconcebível que uma época volvida o SL Benfica tenha uma transição ataque-defesa ao nível de um qualquer grupo de amigos que se reúne num domingo à tarde para jogar à bola.

Porém, mais grave que tudo isso, é ter um treinador que, ainda assim, nada altera.

Há 16 anos atrás, Toni foi bastante mais astuto que Quique Flores. Bastaria ocupar aquele espaço para incrementar a qualidade de jogo da sua equipa.

P.S. – As substituições, a par da escolha do 11 inicial, são, provavelmente, das tarefas menos importantes de um treinador. Pelo que, habitualmente, são pouco decisivas. Porém, ao minuto 55, substituir Katsouranis por Di Maria foi uma ideia absolutamente genial. Um minuto depois, dava frutos. Em cheio. Aguarda-se o dia em que Quim é substituído por Mantorras. Com o público em delírio, claro.

P.S. II – Nunca antes se percebera, tão facilmente, que muito do que está mal, é passível de ser corrigido pelo treinador. Que nunca o faz.

P.S. III – Desde o jogo em Belém, que não faz sentido ter Flores como treinador. O desfecho do que se seguiria foi sempre prevísivel. Prevísivel é, também, o que acontecerá na próxima temporada, se se persistir no erro.

P.S. IV – Custa admitir que Rui Costa, que sempre se destacou, entre outras coisas, por uma leitura táctica bestial, não perceba o que está mal neste Benfica.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3380 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

4 Comentários

  1. mais uma vez sem garra, o quique não lhes consegue incutir espirito de vitoria, foi uma exibição ao nivel daquela contra o guimarães em que com 47000 espectadores não comeram a relva. enfim é o que temos…espero que o Rui consiga encontrar a melhor solução
    BENFICA SEMPREEE!!!

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