André Gomes, Ivan Cavaleiro, Nélson Oliveira, Tiago Silva e João Mário

Há uns anos, um treinador (não recordo qual. Mourinho / Scolari?) quando questionado sobre a dificuldade que é treinar craques, respondeu de forma tão assertiva quanto brilhante que trabalho dá trabalhar com os que pensam que são craques sem o serem.
Nada mais factual. São os que não têm percepção das suas qualidades e/ou sobretudo dos seus defeitos, os piores jogadores com que se pode lidar. São normalmente os jogadores com pouca compreensão do que é o jogo os que mais dificuldades revelam em perceber o que podem dar, o que devem dar, e acima de tudo o que não é para eles. Mostram-se pouco disponíveis para aprenderem e raramente atingem o seu potencial.
Ainda não era sénior já Nélson Oliveira era um nome badalado no futebol. Quem trabalhou com o avançado uns anos garantiu numa conversa de amigos que o “craque” era fraco cognitivamente. Contudo, o potencial físico e técnico é por demais evidente, e o português tem aquelas qualidades quase inatas, que pouco se podem trabalhar. Tem potencial para ser o avançado da selecção por várias épocas. Porém, ser chamado demasiado cedo à selecção e elogios desmedidos, aliados à fraca capacidade cognitiva fizeram-o sentir-se ainda bastante mais que o que é. Possivelmente menos aberto a novas aprendizagens, menos disposto a jogar em realidades condizentes com o seu real valor, Nélson apesar de ainda bastante jovem tem tudo para nunca chegar sequer a 50 por cento do seu potencial. Talvez andar a jogar na 5a divisão de França possa fazê-lo aprender qualquer coisa. Duvida-se fortemente disso, contudo. Naquela cabeça será sempre um Ibrahimovic injustiçado pelo mundo do futebol.
André Gomes e Ivan Cavaleiro não estão nem perto do nível do onze mais forte do SL Benfica. Nem do da selecção nacional. Têm poucos jogos na Primeira Divisão nacional, mas não é por isso que não podem/devem ser chamados à selecção de todos nós. É mesmo por uma questão de qualidade. Actual, pelo menos.
André Gomes tem crescido. Não joga muitos minutos, mas treinar todos os dias naquele grau de exigência, com aquele nível de estímulo obriga-o a adaptações muito grandes para sobreviver no seio de um grupo com tanta qualidade. Os relatos que surgem de impaciência do jovem perante a menor utilização poderão ser indícios perigosos. É certo que a sua realização pessoal passará sempre por jogar mais tempo, e é certo que na próxima época deverá pedir um empréstimo para se sentir mais feliz, e também poder evoluir e demonstrar mais qualidades para um eventual regresso. Ivan Cavaleiro passou de não convocado para o Mundial u20 para a selecção principal em alguns meses. Na altura referimos que o extremo do Benfica pelo perfil de decisões que tem não apresentava um grande potencial de desenvolvimento. Apesar do sucesso e impacto que vem tendo há dois anos consecutivos na Segunda Liga, a opinião vai-se mantendo. As características físicas são muito importantes, mas só atinge a excelência e contribui fortemente para o sucesso de uma grande equipa quem mostra mais qualidade na tomada de decisão. 
O maior risco destas chamadas totalmente injustificadas à selecção A, é sobretudo um risco para o próprio jogador. Oferecer de mão beijada um estatuto a quem ainda não tem qualidade para o ter, pode ter um impacto negativo no próprio jogador, se cognitivamente não tiver percepção do seu real valor, e paulatinamente mostrar-se menos disponível para a mudança e evolução.
Longe dos holofotes da fama segue João Mário, emprestado ao Vitória de Setúbal, jogando pela primeira vez de forma regular na Primeira Liga, ganhando bagagem e intensidade competitiva para mais tarde se poder integrar com mais possibilidades de jogar no plantel do Sporting. O jovem médio tem um enorme potencial. Não é um “dez” na criação como em tempos se quis fazer passar, porque não abunda a criatividade, mas é bastante interessante pela sua qualidade técnica e inteligência, além de contagiar a disponibilidade com que se dá ao jogo.
Ainda mais afastado da fama, o melhor potencial de todos. Tiago Silva. A passar por uma época bastante complicada por tantos meses inapto, parece ter perdido o seu primeiro ano de Primeira Divisão. Ele que no Estádio da Luz na primeira volta fez provavelmente a melhor exibição individual de um forasteiro no estádio do líder na presente época. Enorme criatividade e qualidade técnica, o miúdo é um talento. A facilidade com que quebra as linhas adversárias em condução, sempre de cabeça levantada, e a forma como vê mais além fazem dele uma das boas promessas do futebol nacional. Ainda lhe sobram alguns meses para salvar um ano que prometia ser bastante diferente, depois de ser a revelação da Segunda Liga na época passada.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3404 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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