Então, porque terminámos com o jogo na rua e avançámos com as academias?

Uma obrigatoriedade dos tempos modernos, pois claro. 
O contexto actual que não permite que tantas crianças passem horas a fio na rua com a bola nos pés, como faziamos na nossa infância, é uma clara limitação ao aparecimento do talento. Os horários e vidas complicadas dos pais que não chegam sequer a saber que os seus filhos têm qualidades que deviam chegar aos clubes. E se o sabem, como levar os miúdos ao clube, quando os horários de trabalho são cada vez maiores? O aspecto financeiro. Onde jogar sem pagar?! 
Perdeu-se o futebol de rua.
E jogar na rua nada tem a ver com freestyle. Não tem a ver com organização, mas com tudo o que tem faltado nos programas orientados. É a bola a bater no chão irregular desenhando diferentes ângulos, obrigando a uma adaptação técnica, a um ganho de agilidade. É o estimular da criatividade usando os obstáculos. É o saltar por cima de um muro e deslizar por baixo dum carro para recuperar a bola que se perdia. A velocidade a que tudo decorre quando enfrentas miúdos com mais três anos, e a forma como tens de te adaptar se pretendes continuar a ser escolhido. É a persistência que adquires enquanto na baliza esperas pela tua oportunidade. Nada é oferecido! É o levantar permanente da cabeça porque não há equipamentos ou coletes, e tu tens de ver tudo. É o driblar quatro amigos porque não conseguiste vislumbrar um colega. É o tempo totalmente gasto a jogar. É o saber onde a bola não pode entrar, porque naquele quintal o vizinho vai furá-la! A variedade de situações… de jogo!
Deixem as crianças ser crianças. Deixem os miúdos driblarem, os defesas ter a bola no pé, não apressem o guarda redes nas reposições de bola e forcem apenas no sentido de os fazer perceber o jogo e não a posição.
“Joguei à bola todos os dias da minha vida desde os três anos” Messi.
Quão castrador é ter pais que depositando os seus miúdos nas academias esperam treinos “XPTO” com filas, rigor, gritos, exigência, mas no fundo pouco sumo. Que pai colocaria (pagando) o seu filho numa academia para que este jogasse uma hora completa 2×2, 3×3, 4×4, 1×2, 1×3? sabendo que ao lado outro treinador organizaria exercícios super complexos com total rigor nas filinhas de espera e com muitos remates depois do passe ao mister? As academias têm uma função tão ou mais comercial que formativa.
“Eu quero é que joguem na desorganização” Francisco Silveira Ramos.
Quantos perceberão verdadeiramente o alcance das palavras de uma das grandes referências do futebol em Portugal? 
“Se treinam na posição X e depois jogam na Y ficam confusos” atirou-me um treinador que lida com meninos da pré-competição! A maluquice da organização está a castrar todo o desenvolvimento dos jovens futebolistas. “Eu quero mesmo é que aprendam na confusão. Que descubram caminhos. Que os inventem!”
Na rua formavam-se jogadores e homens competitivos. Minimizar as perdas do tempo de empenhamento motor e as perdas de carácter / personalidade pelas facilidades com que tudo é obtido na actualidade é o maior desafio que os treinadores enfrentam nos dias de hoje. E todos sabemos como tantas vezes os pais e dirigentes, pelo desconhecimento, são mais um entrave ao que é o correcto. 
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3047 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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