Distância entre linhas. 442. SL Benfica.

No seguimento do comentário do texto anterior, o porquê de tantas vezes não haver a preocupação por manter a mesma distância entre todas as linhas? Nomeadamente o exemplo do SL Benfica.

Importante perceber que são coisas diferentes. Defender da forma mais segura possível ou procurar recuperar mais rápido!

Naturalmente que defender da forma mais segura possível, implicará sempre menos distância entre todas as linhas. Para garantir menos distância entre todas as linhas, a linha dos avançados nunca poderá pressionar mais próximo da área adversária. Nunca poderá aproximar em demasia dos defesas (se estiverem baixos) para não esticar o comprimento da equipa no campo. Porque fazendo-o, para manter a proximidade das linhas, os médios teriam de aproximar também. E ai, porque qualquer jogador tem força suficiente para colocar a bola no meio campo ofensivo, qualquer bola longa ultrapassava as duas primeiras linhas defensivas (a dos avançados e médios ) e colocaria os quatro defesas sozinhos para defender um lance perante avançados e até médios adversários que pudessem esconder-se logo nas costas da linha média.

O exemplo da equipa flaviense no Estádio da Luz. O exemplo de tentar defender da forma mais segura possível. As três linhas juntas. Poder-se-à discutir a possibilidade de poderem estar mais uns metros acima. Mas, seguramente que não muitos.

Por exemplo, na crónica do Jornal Record, escrevia assim:

No jogo da Liga dos Campeões, será expectável um Benfica a colocar a primeira linha defensiva (dos avançados) já bem próximo da linha do meio-campo.

2) Porque o Dortmund é ofensivamente uma das melhores equipas da Europa nas ligações que cria entre sectores, ligando fases com uma qualidade incrível. Se a linha dos avançados do Benfica começar a pressionar mais subida, o espaço entre avançados e médios encarnados aumentará. E é precisamente nesse espaço que se move Weigl e Guerreiro. Sobretudo o alemão é um jogador fabuloso a iniciar desequilíbrios desde a construção. Se recebe com espaço somente já nas costas dos avançados encarnados, terá muito mais sucesso nas suas decisões. Obrigará alguém da linha média do Benfica a sair, o que lhe facilitará as possibilidades para colocar a bola entre linha defensiva e média.

Perante uma equipa que não iria precipitar a construção. Um adversário poderoso, seria mais do que óbvio que se o Benfica esticasse o posicionamento dos dois avançados, como faz nos jogos da Liga (excepção aos confrontos maiores), iria ser “engolido” no espaço entre médios e avançados.

Porém, quando se trata de uma equipa grande, e sobretudo perante jogos com um desnível evidente, há que ser menos conservador. O defender da forma mais segura possível, tem de ser trocado por um misto de segurança, com procurar retirar rapidamente tempo de ataque ao adversário. Há que ser mais proactivo defensivamente (a menos que o jogo caminhe para os últimos minutos e o resultado seja uma vitória por apenas um golo de diferença), ignorando o “mais seguro possível” e juntando-lhe o “obrigar ao erro”.

Na Liga portuguesa, e muito mais no Estádio da Luz, contar-se-ão pelos dedos de uma mão as equipas que mesmo perante grande superioridade numérica na construção, não precipitam decisões. Que procurem sair de forma apoiada e tranquila, quebrando a primeira linha defensiva dos dois avançados do Benfica com bola no chão. Em noventa por cento dos casos (ignore-se jogos perante FC Porto ou Sporting), com a pressão de somente dois, a bola sairá longa na frente. E mesmo os que resistam à tentação e consigam fazer um médio receber, bastará um sprint de um dos avançados para pelo desconforto do pressing pelo lado cego, portador precipitar o lance. Porque há simplesmente demasiado “medo” de perder a bola recuado. Há falta de coragem, associada à qualidade, naturalmente. Partir o espaço entre avançados e médios, permite ao SL Benfica recuperar mais rápido! Manter os médios junto dos defesas permite manter a segurança, pela entrada na situação de jogo de mais jogadores, e pela necessidade que haverá sempre de disputar uma “segunda” bola.

Um exemplo feliz de um jogo na Liga em que em 442, a opção por ter médios a subirem aproximando dos avançados pressionando equipa adversária, terminou de forma trágica, foi a partida do Sporting em Vila do Conde. Cada bola longa do Rio Ave encontrava Gil Dias com espaço para enfrentar somente defesas leoninos. Mesmo em organização ofensiva, qualquer bola na frente trazia vantagem.

Em suma, a opção por aumentar a distância entre médios e avançados justificar-se-à sempre que se perceba que o adversário precipitará decisões. Recupera-se mais rápido mantendo equipa preparada para a precipitação (isto é, bola na frente). Manter as linhas à mesma distância só é possível com linha avançada mais baixa do que no último terço (porque com linha de avançados a defender no último terço não é possível manter proximidade e ao mesmo tempo controlar profundidade… qualquer “balão” entrará nas costas dos defesas mas ainda longe de possível intervenção do guarda redes) e portanto menos passível de controlar o tempo que o adversário “gasta” com bola, quando queres chegar aos golos. Subir linha média com a dos avançados, sempre a pior opção possível, num contexto de Liga portuguesa em que se sabe que sairá bola longa e ficarão apenas os defesas no lance.

Cada jogo e cada adversário deverão trazer estratégias diferentes. Sair com dois tão adiantados contra uma equipa com culto de jogo apoiado, e com qualidade e paciência para construir no chão, será sempre uma má opção. Resguardar tudo junto atrás contra adversários que se sabe não “arriscarem” bola no chão nas saídas para ataque, quando o tempo passa e se pretende chegar ao golo, também nunca será a estratégia ideal. Optar por partir, aumentando o espaço entre defesas e médios, a pior opção possível, provavelmente em noventa e nove por cento dos jogos. Dependerá sempre da forma como adversário aproveita a vantagem que terá…

Sobre Paolo Maldini 3788 artigos
Pedro Bouças - Licenciado em Educação Física e Desporto, Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, bem como participado em 2 edições da Liga dos Campeões em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, Cursos de Treinador e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã", e Co-autor do livro "O Efeito Lage", ambos da Editora PrimeBooks Analista de futebol no Canal 11 e no Jornal Record.

3 Comentários

  1. Muita boa análise. Ando a dizer isso aos meus amigos benfiquistas há imenso tempo. O Benfica podia ter acabado o jogo com o Dortmund a perder por cinco ou mais. Querer jogar com este Dortmund como se joga em casa com o Nacional ou o Tondela… Na Luz basta uma equipa pequena que quer sair com futebol apoiado que cria logo perigo. Porque os avançados do Benfica demoram muito a chegar perto da linha dos médios. Os dois médios centros ficam muitas vezes expostos. E mesmo na profundidade os laterais estão muitas vezes num um-para-um com os extremos contrários e a ajuda demora muito a chegar. Na época passada este desequilíbrio não era tão evidente porque o Pizzi derivava para o meio e ajudava na zona, porque como tinha jogado a 8 sabe posicionar-se e defender melhor que os extremos. E porque Renato Sanches tinha pilhas que nunca mais acabavam.

    Bom trabalho.

1 Trackback / Pingback

  1. Ainda a distância entre linhas. Sector médio a encurtar distâncias. Exemplo na Amoreira. – Lateral Esquerdo

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