Ibra sobre Carlo. Lições sobre quem não cai do topo.

Percebi imediatamente que ele era mais que um treinador. É um treinador brilhante, mas para mim o mais importante é a pessoa por trás. Percebi logo no início que era a escolha certa para o PSG.

Em todas as equipas onde joguei, quem não está a ser opção está sempre chateado com o treinador, mas com o Carlo isso não acontecia! E se algum estivesse próximo desse ponto eu diria-lhe “Acredita, tens um treinador que só quer o melhor para ti, mesmo que não estejas a jogar tanto quanto queres. Ele preocupa-se contigo e tu vais notar a diferença quando tiveres outro treinador…”

Carlo foi o melhor. E eu trabalhei com os melhores. Mourinho é o disciplinador. Tudo com ele são mind games. Gosta de manipular. Os truques dele eram novos para mim. O tempo todo a fazer uma coisa para conseguir outra, todo o tempo a desencadear coisas em mim. Gosto desse tipo de jogos e funcionou muito bem comigo. A forma como Mourinho prepara os jogos também foi nova para mim. Ficava extasiado, vivia a história com que ele nos alimentava.  Entrava em jogo sempre com uma enorme adrenalina. Era como se nunca nada fosse bom o suficiente. Ele dava ele tirava. Mourinho sabe como tratar um futebolista. Carlo sabe como tratar uma pessoa.

…mesmo quando pontapeou a caixa que me acertou na cabeça, não tinha a certeza que estivesse furioso. Nunca ninguém me tinha feito nada assim… mas como foi o Carlo, olhei para ele, vi aquela sobrancelha para cima, percebi que era a sério e baixei a cabeça…

Quando tens uma pessoa confortável com os limites… fazes tudo por ele. A confiança que nos dá, é a confiança que retribuímos. Mataríamos por ele. No futebol para aceitares ordens do general tens de acreditar nele…

Na manhã em que jogávamos com o Lyon, se vencêssemos seriamos campeões, lembro-me que a sobrancelha dele já estava para cima porque ele estava nervoso. Ainda não o tinha visto assim. Perguntei-lhe “Carlo, acreditas em Deus?” “Sim” “É bom… porque assim acreditas em mim…” a sobrancelha dele subiu mais um pouco e atirou “Ibra, és um desgraçado…”. Com ele cresci como jogador e amadureci muito…

Rodrigo Castro
Sobre Rodrigo Castro 103 artigos
Rodrigo Castro, um dos fundadores do Lateral Esquerdo. Licenciado em Ed física e desporto, com especialização em treino de desportos colectivos, pôs graduação em reabilitação cardíaca e em marketing do desporto, em Portugal com percurso ligado ao ensino básico e secundario, treino de futsal, futebol e basquetebol, experiência como director técnico de uma Academia. Desde 2013 em Londres onde desempenhou as funções de personal trainer ligado à reabilitação e rendimento de atletas. Treinador UEFA A.

4 Comentários

  1. Fantástico! Zlatan é um personagem espantoso. Nada a ver com os ídolos Messi e Ronaldo, sem história, ambos. ‘Acreditas em Deus?’. Que maravilha.

    Já Ancelotti, que ganha tudo por onde passa, vê aqui o seu segredo revelado: mais que as tácticas, este jogo de equipa é ganho pelas pessoas, em volta do seu líder. Olá, Rui Vitória.

    • Achar que um, que ultrapassou todas as barreiras da pobreza extrema e um pai alcoólico e outro, problemas físicos e hormonais (bem como um suposto autismo de baixa prevalência), para além de sair da América do Sul com 14 anos de idade como alguém que não tem história é um disparate de todo o tamanho.
      Adoro o Zlatan, não tanto Don Carletto, mas admiro a sua capacidade de mobilizar jogadores. Tacticamente, bastante banal.

      Um abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*