Em terra de aceleras quem tem “desaceleras” é rei.

Sporting's midfielder William Carvalho celebrates after scoring during the Portuguese league football match Sporting CP vs CS Maritimo at the Jose Alvalade stadium in Lisbon on April 9, 2016. / AFP / PATRICIA DE MELO MOREIRA (Photo credit should read PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

A última década não trouxe somente um jogo mais organizado tacticamente, mas também um jogo mais rápido e de constantes acelerações.

Conceitos como ritmo alto e chegar rápido são tidos quase universalmente como receitas para se aproximar da vitória.

Contudo, a melhor forma de se responder às boas organizações adversárias é usar o cérebro. Ser inteligente na forma como se desmonta a teia adversária, criando engodos. Posicionar e fazer a bola entrar em determinados espaços, para provocar a oposição. Chamar os adversários onde queremos que estejam para posteriormente se entrar por outro lado. Um exemplo muito claro aqui.

Fazer algo não tão rápido ou com intuito único de acelerar para provocar desequilíbrio, mas antes usando a cabeça. E no futebol mundial não há muitos para além de Messi que conseguem ao mesmo tempo ser muito rápidos e ainda assim continuar a ter ideias a cada milésimo de segundo. Que acelerem mas que consigam ver tudo, enquadrar decisões e criatividade a cada nanosegundo que passa.

Não há como contrariar a qualidade de um jogo que se deteriora se não há quem para além de executar, o pense. O pense a cada instante, controlando e decidindo a velocidade do jogo, que tantas vezes precisa de baixar para que se possa perceber e definir o momento certo para voltar a mudar a velocidade da jogada.

Quando se fala de William Carvalho, a crítica é sempre a mesma. É lento, não tem intensidade. Demora horas! Curiosamente, a principal crítica que lhe é apontada é na verdade aquilo que o faz ser diferente para melhor de tantos outros. É na forma como desacelera o jogo, dando-lhe cérebro e sentido, ou como entende o momento para em passe acelerar jogo por dentro, que tantas ideias e caminhos se definem.

No Boxe bateres muito no teu opositor poderá trazer-te a vitória por pontos. O futebol é um jogo completamente diferente. Não é por bateres muito no muro, ou correres mais que o golo aparece, ou sequer as melhores oportunidades. O melhor jogo não é o que entra à bruta, mas o que explora subtilezas.

O estilo padronizado de Jesus vai perdendo o seu impacto de ano para ano, com o crescimento de todos os treinadores ao seu redor, e que tanto têm para lhe “agradecer” pelas ideias, sobretudo defensivas, que tantos foram adaptando para as suas equipas, mas também porque com a sua obsessão pelo controlo de um jogo que quer sempre igual, não tem deixado espaço para haver criatividade. À data o Sporting tem sido uma equipa de meros trabalhadores. Fazem, repetem, repetem. Se não está a resultar, faz-se o mesmo, mas tentando mais rápido.

O que se escreveu sobre a partida de sexta feira perante o Vitória de Setúbal aqui não poderia estar mais actual e mais assertivo após novo jogo em Alvalade na noite de ontem.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3011 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

14 Comentários

  1. William, ou qualquer jogador com dois neurónios funcionais, numa equipa treinada por Bilic é atirar pérolas a porcos um dar nozes douradas a quem não tem dentes… Por um lado gostava de o ver no Olympic Stadium, por outro é um desperdício de talento.

  2. Viva, fazer a mesma coisa frente ao mesmo tipo de adversário e esperar resultados diferentes…. Grrrr

    Bruno Fernandes sff, deixem lá o Podence no meio e os resultados vão aparecer, porque tudo o resto está lá.

    Um abraço,

    • Podence vai dividir os minutos com o Doumbia.

      O sucesso do futebol do Sporting vai passar por William-Bruno Fernandes-Podence/Doumbia. Em determinados jogos de pouco vai valer ter o Podence quando não existe espaço entre linhas e a equipa adversária entrega o jogo sem sair sequer com o homem que tenta arrastar a marcação. Nessa situação vale mais ter Doumbia com a sua presença física e golo.

      Está tudo ali, falta parar de inventar…

  3. Tudo dito. Sempre que passo naquela espelunca do Visão de Mercado temos de aturar sempre os mesmos argumentos falaciosos sobre William e o quão é inferior perante esses suprassumos Fejsa e Danilo. Como é lento, o senso comum olha para ele como jogador banal quando, é jogador talhado para outros voos, ou seja, campeonatos de outro gabarito nos chamados tubarões. São poucos aqueles que conseguem variar o jogo com a calma de William.
    Em relação a Jesus, e depois destes últimos tempos conturbados em Alvalade julgo que o seu estado de graça se esgotou. Hoje o intitulado mestre da tática está antiquado nas suas ideais e ele próprio sabe disso daí ter experimentado a nova moda 3-5-2 na pré-época que fracassou redondamente. Não auguro nada de bom para o vindouro e então se William sair para ficarmos com um meio campo tão medíocre no capítulo da criatividade como Battaglia e Adrien é mesmo para esquecer as possibilidade de destronar os rivais.

    • Duvido que o 352 esteja morto e enterrado, até há dinâmicas no 352 da moda que andam muito perto das dinâmicas que JJ imprime ao seu 442, nomeadamente ao nível da saída. Até pode ser que JJ evolua para um 352 próximo do que Tüchel tentou implementar no BVB o ano passado (que por usar não 3 centrais mas um lateral adaptado não passava de um 442, as vezes 451, encapotado).

      Claro que podemos então começar a falar da qualidade ao dispôr. Mas será que é surreal pensar em Adrien para fazer de William?

  4. O que dizer desta aparente “perda de qualidades” do Jesus?

    O Sporting mete cada vez mais dó a jogar, por culta do seu treinador. Que continua sem perceber que quem joga são os jogadores não é ele, e que se não lhes der margem para explorar a sua criatividade não é com este rigor tático que já é conhecido de Lisboa até à Roménia que vai conseguir alguma coisa diferente. Ou seja, as vitórias que lhe têm escapado. Na cabeça dele, o problema estará sempre nos jogadores que não têm qualidade para executar as suas ideias. E enquanto assim for, vamos andar neste marasmo de jogo ofensivo, com fé que alguma bola bata na cabeça do Dost e dê golo.

    Se ao que já se sabia serem fraquezas (gestão de pessoas) acrescenta ainda esta casmurrice tática, daqui a um par de anos ninguém lhe pega. Ou pelo menos, não ao preço que ele pensa que vale

  5. Vende-se o Adrian, o Willian e depois todos os outros. Se ainda ficar algum dinheiro depois de pagas as dívidas, distribiu-se aos sócios e fecha-se a porta. Isto já não tem remédio!

  6. Pior é ver que alguém que fez deu tanto ao futebol português, não está a inovar.

    Se continuar assim vai ser o seu fim. A sua personalidade vai ser o seu fim.

    Hora de “mudar”. A sua teimosia vai decidir o seu futuro.

    Se quiser tem matéria prima para aproveitar.

  7. “Fazem, repetem, repetem” porque lhes falta engenho para criar. Acho que o treinador ofensivamente parece estagnado (o movimento típico do defesa lateral que passa para o extremo que recebe em zonas interiores e sobe para receber novamente e cruzar ou devolver no extremo que já está a subir nas costas já cansa). Defensivamente parece-me que esta época a reação à perda da bola está bastante melhor (ainda que possa ser uma impressão errada tendo em conta os adversários).
    Contudo, acho que Jorge Jesus ainda lhes dá as ferramentas como poucos dão…só que sem arte, sem jogadores que queiram deixar o seu cunho pessoal e fazer coisas diferentes é difícil. Eu percebo, ser arrojado na forma de pensar (como é um William) não está ao alcance de todos e temo que um treinador que dá tantos caminhos acabe por contribuir para que os jogadores façam o que é mais fácil e obrigue a pensar menos. No fundo, e em jeito de metáfora, o Sporting é uma boa turma a fazer ditados (e até têm boa caligrafia) mas não há um único escritor no meio de tantos alunos.

  8. Eu ainda nao dou o JJ como morto. Lembro-me bem de 2015 onde comecou a época sem jogar um caracol.

    Eu acho que a grande diferenca entre os vários Benficas de JJ para o Sporting, foi ter sempre jogadores que aliavam execucao a criatividade. Destaque maximo para Gaitán, Saviola, Aimar e Jonas, podendo juntar Markovic, Perez, Nolito, etc.

    Lembro-me da frase do Nuno – “Jesus escolhe os jogadores certos pelos motivos errados”. Acho que no Sporting, por nao ter mais esse perfil após a saída de J. Mario, tem apenas escolhido os jogadores errados.

    Ainda assim, vao ser super organizados e com esta defesa, vao ser dificeis de bater…

  9. Discordo da opinião aqui generalizada: se não fosse JJ, o Sporting este ano nem em 4º ficava.

    O que o Maldini está a tentar explicar é que WC é, de longe, o melhor da equipa e que, sem ele, vai ser sempre a acelerar, como gosta o povo.

    A matéria prima desta equipa do Sporting é bastante razoável, mas não passa disso. O mito de se ter arranjado todos os meios ao treinador é uma falácia, para proteger BdC. Quando JJ sair, a qualidade do jogo cairá a pique. Ele é que normaliza a coisa, com o seu repetitivo modelo padronizado. Sem ele, qualquer inovação, com estes jogadores, será suicídio.

    • Até concordo em parte contigo, o WC é capaz de ser o melhor mesmo, e até um pouco na parte em que a equipa é razoável (é muito boa, mas não mais que isso).

      Acho é que o JJ está com 2 dilemas que terá que ser capaz de resolver se quer manter-se no topo:

      1 – Como foi referido, a maioria já aprendeu o grosso das suas ideias (embora nos detalhes ainda haja diferenças, sobretudo nos papéis do 6 e 8) e aumentou o seu nível como treinadores.

      2 – Quando tem talvez o PL que mais idealiza (Bas Dost), por ser exímio na finalização no jogo aéreo, já estar melhor no apoio frontal, arrastar marcações e atenções dos adversários, parece que cria todo o seu jogo ofensivo em torno dele. E todos já sabemos como ele deve finalizar: de cabeça.

      Por isso, o Sporting está a tornar-se previsível e até um pouco “chato”. É preciso dar mais liberdade a quem tem condições para tal, é preciso diversificar o jogo ofensivo, senão não vai conseguir ser campeão.

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