Facilitismo numa Liga desnivelada individualmente, e consequências internacionais. FC Porto goleia.

A mesma distância qualitativa que sentem dois terços das equipas da Liga para os três mais bem apetrechados em Portugal, sentem os tais três, quando na prova milionária defrontam equipas provenientes da Alemanha, Espanha, Itália ou Inglaterra.

A falta de competitividade nacional traz consequências também no contexto internacional. Não é somente o potencial individual de cada elemento, mas também o nível e velocidade de jogo, que é totalmente díspar. Na Liga dos Campeões o contexto de cada lance muda a uma velocidade assombrosa quando comparado com os jogos em Portugal. A exigência é incrivelmente maior quando se trata de responder mais rápido. Seja tomando decisões, seja fisicamente ocupando os espaços. O que fazes cá para ter sucesso, porque tens melhores jogadores, não é o que tens de fazer internacionalmente. E por isso, não se criam hábitos…

É mais agressivo, um jogo mais físico e a grande diferença que senti até ao momento é o ritmo competitivo do jogo. Os dois primeiros jogos foram muito físicos e rápidos os noventa minutos! Estamos a correr o máximo que aguentamos o jogo todo, é uma diferença gigantesca para Portugal…

Rúben Neves

O grau de dificuldade que os grandes encontram em Portugal, permite que os seus jogadores sem bola entrem demasiadas vezes num grande facilitismo, porque acabam por ser bem sucedidos, mesmo sem terem de despender o esforço máximo. Mesmo sem serem rigorosos, e poderem aqui e ali “cortar-se” ao “sprint” e à ocupação do espaço que envolve um pouco mais de metros para comer.

Com bola as consequências não são menos nefastas. O jogo é tão lento que o tempo para receber cada bola e tomar decisões é completamente díspar do enfrentado na Liga dos Campeões. São jogos e jogos sem fim a um ritmo baixo, e portanto é completamente impossível dar respostas quando a exigência elevada só surge ocasionalmente. A variação do rendimento de Pizzi que na Liga nacional pauta todo o jogo encarnado, e na Liga dos Campeões onde perde sucessivamente a posse enquanto ainda pensa em que caminho seguir, é um exemplo claro.

Após o descanso retifiquei algumas situações e achei que o Danilo devia fazer um jogo mais posicional com o Herrera. Mais próximos, mas não paralelos.

Sérgio Conceição

Já por cá foi referenciado o incremento de qualidade táctica do FC Porto. Contudo, nos jogos mais recentes, vários têm sido os momentos em que há um “desacelerar” competitivo. Alas menos esforçados e que ficam mais adiantados, e na partida de ontem, médios centro também a facilitarem em demasia nos posicionamentos. Já por cá foi elogiada a coordenação sempre em diagonal garantindo coberturas da linha média e concretamente dos dois médios centros do FC Porto. O problema é que perante o sucesso que chega sem uma taxa de esforço elevada, tende-se sempre a cumprir os “mínimos”. E se os “mínimos” vão sendo suficientes nas competições nacionais, também acabam por coarctar possibilidades internacionalmente. Ai, mesmo quando se quer, simplesmente não há o hábito do rigor absoluto!

A forma como defensivamente a equipa do FC Porto se comportou na recepção ao Portimonense, até lhe permitiu chegar ao golo em transição ofensiva, beneficiando de ter os alas “adormecidos” à espera que atrás resolvessem o problema. E é naturalmente algo interessante de se explorar na realidade campeonato nacional. Porém, o facto de em Portugal se ser bem sucedido ao “facilitar”, é o que depois impedirá por falta de hábitos, o rendimento mais elevado em jogos contra individualidades de maior valia.

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Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3767 artigos
Pedro Bouças - Licenciado em Educação Física e Desporto, Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, bem como participado em 2 edições da Liga dos Campeões em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, Cursos de Treinador e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã", e Co-autor do livro "O Efeito Lage", ambos da Editora PrimeBooks Analista de futebol no Canal 11 e no Jornal Record.

7 Comentários

  1. Este post já dá um cheirinho daquilo que acontece quando gosto menos de ver o Porto. Acho que era nisto que o Porto de VP era muito forte, a equipa raramente era apanhada desposicionada, só que perdia na acutilância ofensiva.
    É exactamente por aqui que a equipa tem de evoluir, porque os comportamentos base, de facto, são bastante bons. Espero que o SC tenha essa capacidade. Ainda assim, acho que o Porto vai fazer uma das Champions mais fracas dos últimos anos (espero estar enganado).
    Obrigado, cumprimentos.

  2. O treinador não pode deixar que aconteça. E o SC é bem “duro”. Os hábitos tem que ter treino muito intenso sempre. Ajudará contra o “inevitável” facilitismo individual. Mou é Mou, tinha qualidade individual, mas muita “normalidade” no plantel, Treino sempre intenso e exigente, preparado para dimensão internacional. Depois cá dentro era brincadeira.

  3. Não é Alex Telles que falha o corte (2x) depois do cruzamento (que o próprio faz) mas sim Herrera. Não tenho grandes dúvidas que, estivesse ali Alex Telles em qualquer um daqueles dois momentos, o lance morria. Herrera tem duas abordagens… à Herrera.

  4. Concordo em parte. Contudo, uma questão: estando o Mónaco também numa liga altamente desnivelada, como conseguiu fazer uma Champions tão brilhante na época passada?

  5. Muito bom!!!
    Adoro estes tipo de posts.
    Aprende-se mais a ver estas falhas com convosco do ver horas de futebol.
    Continuem é o voto deste fiel leitor

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