A bola que incomoda. O contexto social e a formação de jogadores.

A questão espaço/tempo reduziu-se e o talento também. Sendo que outra questão que também está presente, é a questão motora. Aquilo que era um produto da rua, saltava o muro, subia a árvore, ia a pé para a escola, hoje não é o mesmo produto a nível de ferramentas motoras. Hoje há o menino que é levado à escola pelo pai, que sobe pelo elevador, que senta no computador e que faz desporto na escolinha, em condições muito formatadas e não tem a capacidade aquisitiva de destreza e habilidade. Isso condiciona a relação com a bola e, por reflexo, a questão do talento fica condicionada. Não quer dizer que hoje não nasçam miúdos talentosos, com habilidade…

Então que diferenças nota nos jovens que aparecem hoje em dia numa equipa sénior em comparação com o passado?

Fundamentalmente o que acabei por dizer. A relação com a bola. A bola hoje incomoda mais o praticante do que incomodava. Na altura, a bola era uma extensão do próprio corpo em grande parte dos jogadores. A relação com o objeto era fácil. Hoje não, em determinadas alturas, os jogadores fazem esforço para ter uma relação com a bola. Tudo o que se faz nas escolinhas de futebol é muito discutível. Fazer transitar o modelo adulto para o modelo criança muitas vezes não é o mais adequado. Há pouco jogo naquilo que é a sua essência, de deixar que a criança evolua por si mesma. Até na parte tática se começam a introduzir fatores. A criança aprende brincando e no futebol de hoje querem que a criança aprenda não se divertindo

Manuel Machado, ao Maisfutebol

Numa entrevista fascinante de Manuel Machado, ao Maisfutebol, recordamos as dificuldades maiores que se enfrentam hoje na formação de jogadores, já por cá referenciadas há imenso tempo. O contexto actual da nossa própria sociedade com um efeito castrador da habilidade motora e expressão do talento.

 

Numa sociedade que cada vez mais encaminha os jovens para os videojogos, é determinante que no pouco tempo de prática que tantas vezes sobra, que esta para além de dirigida de forma a potenciar o máximo de tempo de empenhamento motor, em contexto de jogo, que possibilite a experimentação, esteja também liberta das ordens que vêm da bancada, que nada mais fazem se não coarctar as posibilidades de desenvolvimento da criança.

Que para além de não aprender e não compreender, não desfruta.

Lateral Esquerdo, no Um jogo que se quer prazeroso

 

Então porque terminámos com o jogo na rua e avançamos com as Academias?

Uma obrigatoriedade dos tempos modernos, pois claro.
O contexto actual que não permite que tantas crianças passem horas a fio na rua com a bola nos pés, como faziamos na nossa infância, é uma clara limitação ao aparecimento do talento. Os horários e vidas complicadas dos pais que não chegam sequer a saber que os seus filhos têm qualidades que deviam chegar aos clubes. E se o sabem, como levar os miúdos ao clube, quando os horários de trabalho são cada vez maiores? O aspecto financeiro. Onde jogar sem pagar?!
Perdeu-se o futebol de rua.
E jogar na rua nada tem a ver com freestyle. Não tem a ver com organização, mas com tudo o que tem faltado nos programas orientados. É a bola a bater no chão irregular desenhando diferentes ângulos, obrigando a uma adaptação técnica, a um ganho de agilidade. É o estimular da criatividade usando os obstáculos. É o saltar por cima de um muro e deslizar por baixo dum carro para recuperar a bola que se perdia. A velocidade a que tudo decorre quando enfrentas miúdos com mais três anos, e a forma como tens de te adaptar se pretendes continuar a ser escolhido. É a persistência que adquires enquanto na baliza esperas pela tua oportunidade. Nada é oferecido! É o levantar permanente da cabeça porque não há equipamentos ou coletes, e tu tens de ver tudo. É o driblar quatro amigos porque não conseguiste vislumbrar um colega. É o tempo totalmente gasto a jogar. É o saber onde a bola não pode entrar, porque naquele quintal o vizinho vai furá-la! A variedade de situações… de jogo!
Deixem as crianças ser crianças. Deixem os miúdos driblarem, os defesas ter a bola no pé, não apressem o guarda redes nas reposições de bola e forcem apenas no sentido de os fazer perceber o jogo e não a posição.
Eu quero é que joguem na desorganização” Francisco Silveira Ramos.
Quantos perceberão verdadeiramente o alcance das palavras de uma das grandes referências do futebol em Portugal?
“Se treinam na posição X e depois jogam na Y ficam confusos” atirou-me um treinador que lida com meninos da pré-competição! A maluquice da organização está a castrar todo o desenvolvimento dos jovens futebolistas. “Eu quero mesmo é que aprendam na confusão. Que descubram caminhos. Que os inventem!”
Na rua formavam-se jogadores e homens competitivos. Minimizar as perdas do tempo de empenhamento motor e as perdas de carácter / personalidade pelas facilidades com que tudo é obtido na actualidade é o maior desafio que os treinadores enfrentam nos dias de hoje. E todos sabemos como tantas vezes os pais e dirigentes, pelo desconhecimento, são mais um entrave ao que é o correcto.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3043 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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