Modelo de jogo, aprendizagens e liderança

Ainda sobre a fascinante entrevista do Professor Júlio Garganta à “The Tactical Room”.

 

O Modelo de jogo tem uma relevância muito grande… é uma espécie de antecipação do que pretendemos com princípios e tendências do que queremos que surjam nos diferentes momentos do jogo. O modelo pode ajudar a essa construção, mas não determina o processo. Muitas vezes aprendemos que os jogadores mudam o modelo, e o vão reconstruindo

 

Quantas vezes se tende a criticar um treinador porque quando jogam jogadores diferentes há comportamentos diferentes? Quando na realidade, tal é a marca do melhor modelo. A integração do que cada um pode e consegue trazer para o jogo da equipa. Porque os jogadores não são robots, há um sem número de vivências e características próprias que trazem que são “cunhos” pessoais que devem ser aproveitados, ou escondidos e protegidos se se tratarem de debilidades. Um modelo de jogo não pode pedir o mesmo a dois jogadores diferentes que se revezam na titularidade ou no jogo, se eles não são jogadores iguais. Embora defensivamente seja mais fácil modelar do que ofensivamente…

O modelo de jogo não é uma espécie de uma base de puzzle perfeito onde apenas se tem de encaixar as peças. É algo que tem de se sistematizar aproveitando as características de cada peça. É algo que se constrói e que não está anteriormente feito! Mesmo nos clubes mais ricos que podem satisfazer todo e qualquer pedido de transferência dos seus treinadores, tal é falível, porque o próprio treinador só percebe verdadeiramente o que pode e “quer” dar cada elemento depois de trabalhar com ele!

 

O modelo é um mapa, mas não o podes confundir com o território. São coisas diferentes. Quando passas do mapa para o território as coisas mudam bastante. No mapa nada acontece. O território é algo vivo! Aí temos problemas, temos de tomar decisões e actuar a cada instante.

 

Entender o modelo de jogo como algo fixo e inamovível seria cair em determinismo…

Seria contraproducente. Cairíamos num determinismo nocivo. Antecipar completamente o final é não deixar crescer e não acreditar nas possibilidades de evolução dos jogadores e dos jogadores ao longo do processo de treino e da competição… A abertura do modelo é fundamental para que este viva. Um modelo fixo e inamovível prejudica em vez de te beneficiar

 

Por isso, em cada “Exclusivo” do “Lateral Esquerdo” realizado com os treinadores Paulo Fonseca, Luís Castro, Filipe Martins, André David, Carlos Carvalhal, foi perguntado como chegam ao seu modelo de jogo, e se este é um produto fechado. Em todos a resposta foi clara, sobre o quanto os jogadores influenciam e modificam as ideias. Porque o jogador é o centro, e sem estar confortável nunca atingirá o rendimento proposto.

 

Às vezes pensamos que estamos a ensinar directamente, mas na realidade ninguém aprende directamente do outro, mas sim de si próprio em confrontação com as situações. Nós criamos tendências, mas são os jogadores que lhes dão vida e forma.

 

Sobre a importância da criatividade e da forma como se manipulam contextos para se chegar ao meio termo entre o que se idealiza e o que os jogadores conseguem e poder dar:

…percebemos que não o poderíamos transmitir aos jogadores tal como era, porque quem cometia muitos deslizes era uma referência da equipa, era internacional e sancioná-lo assim seria catastrófico! Então procurámos outras dez jogadas em que o jogador decidiu bem. Mostrámos primeiro as acções negativas sem mencionar nenhum jogador em concreto. “Assim não queremos jogar”. À terceira repetição o jogador já estava aborrecido… Se naquele momento o treinador o tivesse mencionado teria explodido e haveria uma guerra… Eu creio que o treinador deve estar preparado para iniciar uma guerra com determinados jogadores, mas só se tiver a certeza que tal é vital para a equipa e que tem muitas probabilidades de ganhá-la! Quando então passou as jogadas seguintes e reforçou “É assim que queremos jogar!”, sem nunca referir-se a ninguém em particular, o mesmo jogador começou a entender que não era nada pessoal contra si próprio e ficou mais tranquilo… E passou-se a mensagem que se queria passar. Este é apenas um exemplo do como temos de ser criativos para conseguir o equilíbrio entre o que os jogadores fazem e o que nós queremos para a equipa… mantendo uma disposição adequada na liderança

 

P.S. – Bibliografia disponível para patronos na Drive do Lateral Esquerdo. Para se juntar às duas centenas de patronos deste projecto – REGISTO AQUI. Mais infos – lateralesquerdo.com@gmail.com

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3013 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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