Francisco Silveira Ramos, o treinador do alto rendimento

Faz-me sempre imensa confusão alguns dos preconceitos que este país à beira mar plantado ainda guarda. Hoje numa entrevista fascinante ao Jornal A Bola, o mestre do processo de treino e do jogo em Portugal, enquanto volta a dar lições sobre o jogo e sobre a formação, sente necessidade de romper com um paradigma.

Tenho vindo a trabalhar com jovens, mas a minha área até é o alto rendimento. A minha participação no futebol jovem é sempre com a preocupação de que as etapas sejam bem construídas e que tenhamos jogadores que estejam na melhor condição possível quando chegam ao alto rendimento.

É no treino que me sinto bem, que me sinto em casa. É com jogadores à minha volta, com equipas técnicas à minha volta, que me sinto realizado…

…não sou nada apologista daquela ideia de que quem não sabe ensina, e quem sabe faz. Pelo contrário, procurei na minha vida quebrar esse paradigma

 

Fica a sensação de que poderá haver demasiada gente a olhar para uma das maiores referências sobre o jogo em Portugal, como alguém que deve unicamente encaixar em determinado contexto. É certo que o seu percurso na Federação Portuguesa é genial, e contribuiu para promover um sem número de talentos que mais tarde enriqueceram a selecção portuguesa principal. Todavia, é impensável continuar a associar Francisco Silveira Ramos somente ao trabalho de excelência na formação. E não precisaria de ter tido o percurso absolutamente brilhante que teve na temporada transacta em Fátima, para o provar.

Sobre a deliciosa entrevista, uma série de assuntos também abordados cá ao longo do tempo:

o futebol é um jogo de enganos

Nem a propósito, sobre o último texto que construí para o site, na véspera de ter saído a entrevista: Kevin de Bruyne, a arte do engano (aqui). Texto publicado hoje, mas redigido no dia de ontem, conforme a data de upload do video no youtube ajudará a confirmar.

São os frutos do nosso futebol de rua, da aprendizagem sem o adulto estragar (sobre Ronaldo, Ricardo Carvalho ou Rui Costa). Sem essa cultura teremos muitos jogadores como a Dinamarca e a Noruega, aqueles jogadores de laboratório, com processos muito lineares, mas sem o que futebol que nos apaixona, da imprevisibilidade.

Estamos a criar jogadores de futebol aos 12 anos, e não há jogadores com essa idade. Há miúdos que jogam à bola. Isso, sim. Só começas a construir futebolistas a partir dos 16/17. Vejo meninos de 12 anos cheios de táctica e depois aos 18 / 19 vejo-os a cometerem erros. Deixem os miúdos jogar à bola, porque têm muito tempo para aprenderem o futebol. Aos 12 / 13 têm de arriscar o drible… mesmo que percam a bol

Mas o jogo é colectivo… Ninguém consegue resolver os problemas de jogar em equipas se não resolver os problemas da bola e do adversário directo.

Nos últimos anos os grandes laterais foram extremos na sua formaçaõ. Isto deve ser uma grande lição para nós. Para se jogar no alto rendimento, a destreza técnica, o engenho, é importantíssimo.

Sobre problemas da formação, tantas vezes abordados cá (etiquetas – Futebol Formação – Futebol de Rua). A importância do jogo, do crescimento livre de amarras, e da qualidade técnica e da destreza como forma de maximizar potencialidades e resolver problemas.

Aproximou-se de mim e terá dito: aquele vai ser dos melhores do mundo. Lembra-se de quem era?

Imagino. Muitas vezes disse que o Cristiano iria ser o melhor português a seguir a Eusébio… diziam-me que estava louco…que havia o Chalana e o Futre… o que via é que poderia ser um extra terrestre, e hoje já terá ultrapassado o Eusébio…

Recordo um episódio algures entre 2001 e 2002, no ano em que o Sporting voltaria a sagrar-se campeão nacional. Terá sido a primeira vez que ouvi o nome de Cristiano Ronaldo. Encantava Ricardo Quaresma, ainda antes da chegada de Ronaldo à equipa principal. Porque Silveira Ramos era também treinador de Quaresma nas selecções jovens, uma turma em peso perguntava-lhe pelo “cigano”. “…é bom… é muito bom… mas quando vocês virem outro que lá anda…” “…quem…?” “Cristiano Ronaldo. Fixem o nome…”.

Portugal foi pioneiro nessa capacidade de aliar a vertente estratégica às metodologias de treino mais avançadas. Isso produziu alguns dos melhores treinadores do mundo. Não percamos isso, não nos agarremos a preconceitos. Identidade não é jogar sempre com os nossos argumentos expostos. Nenhum grande general faria isso… Estratégia é utilizar o que temos de melhor…

Há muita dificuldade em perceber que no jogo, tudo é contextual. Frases ou ideias feitas, não encaixam em diferentes contextos. Uma certa vaga de quem não tem experiências de campo relevantes acredita que só há uma única forma de jogar e que essa forma é infalível. Embora me pareça ser muitas vezes o caminho manter sempre a identidade, é importante perceber que só quem tem mais recursos que o adversário se pode dar ao luxo de nunca preparar estrategicamente cada batalha. A frase de Silveira Ramos não traduz somente um conhecimento muito grande sobre o que é o jogo e de que forma se pode vencer nele, mas sobretudo garante-nos que está preparado para o passo seguinte. E que não tarde, porque o futebol em Portugal precisa de génios como ele no campo.

 

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3013 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

1 Comentário

  1. De facto, outro nível. Gostaria de vê-lo a treinar uma equipa da Primeira Liga, mas que fosse inserido num projecto a longo prazo. Falou-se no Estoril, sempre será verdade? Mas considerando o micro-clima empresarial que gira à volta desse clube, tenho dúvidas de que seria o mais indicado.

    No que toca a grandes “visionários”, e se conseguirem fontes em inglês, pesquisem sobre o alemão Helmut Groß, Mentor do grande Coordenador do “actual” Futebol Alemão – Ralf Rangnick, que influenciou os principais treinadores, casos de Jogi Low, Klopp, Tuchel, Ralf Schmidt, Nagelsnmann, entre outros, e esteve na base do modelo de sucesso do Hoffenheim e Red Bull – Leipzig e Salzburgo.

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