Os repelões trouxeram um 0 a 0

Quem segue o Lateral Esquerdo desde há muito, recordar-se-à da forma como me referi aos clássicos de há vários anos atrás, quando Jorge Jesus e Vitor Pereira lideravam SL Benfica e FC Porto respectivamente.

Autênticos jogos de nível mundial, capazes de rivalizar em qualidade táctica e até individual com os melhores confrontos na Europa dessas épocas.

Fruto da própria conjuntura da realidade económica portuguesa a que os clubes não escaparão, a noite de ontem trouxe mais um clássico de nível baixíssimo se comparado com os jogos entre FC Porto e SL Benfica de então. O nível individual das equipas está hoje a léguas das verdadeiras equipas de titãs que FC Porto e Benfica apresentavam (confirme para onde se transferiram e onde jogam Danilo, Otamendi, Mangala, Alex Sandro, Moutinho, Fernando, Falcao, Jackson, James, Garay, Oblak, Coentrão, Sequeira, Enzo, Matic, Witsel, Gaitán), e é o nível individual que determina praticamente tudo o resto. Mas, não apenas.

O clássico do Dragão, foi mais uma confirmação da perda de qualidade das equipas em Portugal. Demasiados erros técnicos, (Krovinovic e Brahimi foram as excepções), más decisões por se querer acelerar cada posse. Equipas que não subiam de forma conjunta, pressa para chegar, correrias, bolas por cima, e duelos. Benfica tinha em Krovinovic um jogador que queria fazer diferente, mas o nível técnico de Pizzi (não basta pensar, embora nos jogos de ritmo mais baixo, tal seja suficiente para o fazer um jogador especial), e a forma como Salvio e Cervi pensam o jogo impediam maior efectividade. Brahimi, como previsto demasiado baixo para dar ele início às ligações ofensivas, e se até está num dos lances de maior perigo, em que recebendo ainda no seu meio campo, liga com Marega que desperdiçaria na cara de Varela, a verdade é que poderia ser um factor de muito maior desequilibrio ofensivo, se não tivesse ele próprio de se mostrar a todo o instante para garantir a saída de bola azul, ficando muitas vezes longe das zonas de decisão ofensiva.

Benfica muito bem preparado por Rui Vitória, enquanto a força dos duelos não se fez sentir fisicamente (onde apenas Fejsa se conseguiu impor do lado encarnado), para a sua primeira fase defensiva, precisamente o momento / fase onde se começa a definir a toada do jogo (ver aqui), mas sem trabalho de pormenor defensivo na linha média, isto é, sem trabalho de posicionamentos eficazes para impedir FC Porto de entrar na criação, sempre que ultrapassava a primeira fase, onde de facto, Rui Vitória condicionou de forma excelente o jogo. Ao contrário, do que havia sido a minha expectativa no texto que antecedeu o clássico.

Um FC Porto que se viu surpreendido no primeiro tempo pela forma como o Benfica condicionou as suas saídas, e a impor-se posteriormente bastante mais pelos traços físicos dos seus jogadores, do que pela forma como pensa os seus ataques. Já o venho a referir amiúde desde os últimos jogos: Começa a notar-se uma clara tendência azul e branca por um jogo em que tenta impor sempre a velocidade e poderio físico dos seus jogadores, em detrimento de um jogo mais elaborado que permita chegar ao último terço sem ser aos repelões. Vários erros técnicos e dificuldades para criar no espaço entre linhas, e todos os lances perigosos que somou, e que deveriam ter sido suficientes para vencer o jogo, a surgirem mais pelo erro que as individualidades da equipa do Benfica têm (abordado aqui), e da forma como os seus jogadores se impõem nos lances de bola parada (lançamentos ofensivos e pontapés de canto) do que pela forma pensada como constrói o seu jogo.

Em suma, se na segunda parte o FC Porto retirou vantagem do jogo que impôs: o da intensidade, também por ter imposto esse jogo, não ligou de forma qualitativamente suficiente o seu jogo pelos espaços entre sectoriais do Benfica, para criar algo que não chegasse somente do ganho de bolas divididas. E face à desarticulação da linha média encarnada na zonas de criação em situação defensiva, não estava difícil penetrar por dentro. Apenas envolveria mais cérebro e maior elaboração…

A vantagem que vai retirando do choque nos lances em que envolve Marega demasiadas vezes não se traduz de forma claramente positiva no jogo, porque o maliano tem dificuldades técnicas evidentes, que o impedem de beneficiar da vantagem que o seu poderio físico lhe confere.

O clássico, foi pois, uma desilusão para todos quanto os que gostam de bom futebol. Todavia, não se pode dizer que o mau jogo seja de todo inesperado. Reflectiu apenas a tendência recente do jogo de encarnados e azuis e brancos.

A curiosidade de um Benfica em 4x5x1 e de um FC Porto em 4x4x2, quando até há bem pouco tempo, partiam de sistemas diferentes.

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Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3047 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

9 Comentários

  1. Trocando apenas Sérgio Oliveira por Oliver e Marega por Otávio mantendo o 4-4-2 com herrera na direita e penso que o Porto passaria a ter qualidade de sobra para jogar um jogo mais envolvente.

  2. Resultado que espera. Duas equipas fraquíssimas a atacar. O Sérgio Conceição cada vez uma versão um pouco melhor do NES, no tipo de jogo e escolha do 11. A maior desilusão da liga face ao começo do campeonato.

  3. De facto, desperdiçar Oliver, num contexto de um plantel cujas limitações começam agora, nesta fase, a ser mais visíveis que nunca (os resultados, regra geral, acabaram sempre por ser melhor do que o futebol exibido) por consequente desgaste, é um dos mistérios insondáveis desta época.
    De resto, diria que foi um FC Porto a ser potenciado ao máximo dos máximos por um treinador consciente dos limites da sua matéria-prima, contra um Benfica que pura e simplesmente não faz mais nestes jogos e muitos outros por causa de um treinador que teima em dar razão a quem diz que ele não dá mesmo mais que isto. Aliás, o que se passou no momento da substituição de Pizzi(e que já se tentou disfarçar como sendo resposta aos adeptos adversários) foi um inegável saltar cá para fora de que as coisas já estiveram bem mais rosadas para Rui Vitória lá dentro.

  4. Excelente análise Bouças. Fez-me lembrar os bons velhos tempos de VP vs JJ. Os 3 grandes tem tido este tipo de ciclos vamos aguardar que voltem a atinar nas contrataçoes e se possa ter materia prima de qualidade novamente.

  5. Epa desculpem lá, há ali jogadores que são fracos, é verdade, mas caramba,a maior parte dos jogadores têm muito mais qualidade do que efectivamente mostraram.

    E isso é culpa dos treinadores.

    O Jonas passa o jogo a disputar bolas no ar com aqueles monstros? Lol

    Herrera e Sérgio na vez do Oliver? Lol x2

    Zivkovic a suplente? Salvio? Lol x3

    Soares? Lol x4

    Opa, há ali muita matéria prima, muita qualidade, agora, se ela não entra, querem bom futebol?

    Por amor de Deus, que má publicidade ao futebol Português.

    Um abraço,

  6. É verdade, também me pareceu isto tudo. Mas fiquei muito surpreendido por ter sido o Benfica a querer jogar desde o início… Sem grande convicção e sem grandes ideias mas o FCP na primeira parte fez um jogo de bloco baixo e de charutos sem grande nexo. Surpreendentemente mau. Grandes tamancos e o Marega e afins. Se calhar não ando a ver os jogos com atenção mas foi muito fraco para quem passou as últimas semanas a desejar este jogo: um meio-campo com Danilo, Herrera e Sérgio é de baixíssimo nível. Muito mau, meus ricos Fejsa, Pizzi e Krovi (fantástico este rapaz). Na segunda parte, com a entrada do Otavio as coisas mudaram um pouco e o FCP ligou muito mais jogo mas dentro das características que já foram referidas (e Brahimi perfeitamente controlado). Para além do que disseste, o argelino foi sempre apertado nas costas e com as coberturas bem atentas. Libertou-se algumas vezes mas foi sempre ele contra o mundo. Nesta altura, o Benfica também não se importou muito em não jogar, o que é sempre horrível e não havia necessidade. Mal entrou o Zivkovic percebeu-se que havia espaço para jogar entre as linhas do FCP. Mesmo com alguma falta de qualidade individual, as duas equipas podiam jogar muito melhor.

  7. Incrivel a maneira como encontras suporte em video para as ideias que metes “no papel”.

    Ate podia ter dito no whatsapp, mas assim nao ficava a vista de todos o elogio que mereces.

  8. Sérgio Conceição: A preferência pela proposta actual não poderá ser percepção do que tem e adequação enquadrada a isso, com menos posse e mais esticões? Com outros, com mais qualidade optaria e saberia fazer diferente?

    Obviamente “tem” Óliver, para pensar mais e melhor, mas e a relação com o resto em campo? Valeria a pena? Acho que sim. Um desafio conseguir a sua inclusão.

    Mas se for uma preferência de estilo independentemente do que tem ou terá?
    Aí, mesmo com as carências de qualidade de plantel, as transições, os avanços, os esticões podem sair bem melhor. Há demasiadas imprecisões, erros. Operacionalização para repetir bem. Muitas vezes.

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