Não há vitórias morais

Diz o povo, mas tenho alguma dificuldade em o ter por certo.

Certo é que a vitória é sempre melhor e mais importante que a vitória moral. Porém, quando o desnível por orçamentos é mais do que evidente (é moda dizer que os sacos de notas não compram golos, mas perguntem a qualquer treinador, ou a qualquer outra pessoa que esteja no terreno, qual é a maior preocupação que têm na hora em que se sentam com os dirigentes. Se não é precisamente perceber que orçamento há para a equipa…), custa-me um pouco a crer no que o povo diz.

O Benfica nos últimos quase trinta anos esteve em duas finais europeias. Não as venceu. Mas, não foi importante para a sua marca e para o seu prestígio tal feito?

O Sporting não passou uma vez a fase de grupos da Liga dos Campeões nas duas temporadas em que Jorge Jesus a dirigiu. A forma como equilibrou sucessivamente jogos com Real Madrid, Barcelona, Borussia Dortmund e Juventus, não foram vitórias. Mas, não são motivo de orgulho?

Mas, não é sobre prestígio e orgulho que se pretende falar aqui.

Tantas vezes por cá nos referimos ao quão influenciador Jorge Jesus foi nos aspectos tácticos da nossa Liga. É o treinador que marca os últimos dez anos em Portugal. Não chegou antes, talvez não por impreparação, mas porque somos e sempre fomos, um país incapaz de perceber o jogo que amamos. Escapou à crítica e escapou aos dirigentes o quão Jorge Jesus estava à frente do seu tempo. Mesmo que o próprio tantas vezes num tom que nem lhe ficava bem, embora fosse sempre verdadeiro, assegurasse o quão via mais à frente.

Sabemos que tem uma grande admiração por Jorge Jesus…
Acho que foi o treinador que mais me marcou.

Porquê?
Primeiro porque estive dois ano com ele, coisa que nunca tinha acontecido com nenhum treinador. Depois a maneira dele ver o futebol mudou também a minha. Se tivesse ido para Inglaterra depois de ter treinado com ele, eu teria outro sucesso. O Mourinho também me marcou, mas com ele estive apenas três meses e meio. Dois anos com o mister Jesus a absorver tudo o que ele nos tinha para dar, que era uma barbaridade, a nível de conhecimento futebolístico

Ele percebe tanto de futebol com diz?
Percebe mesmo muito. Para mim, não é antes de Cristo e depois de Cristo, mas antes de Jesus e depois de Jesus (risos). Porque comecei a ver o futebol de maneira totalmente diferente.

Silas

Quem é mesmo muito bom, quem tem sucesso, quem tem uma competência extrema na actividade que desenvolve, cria sempre um sem número de anticorpos entre até mesmo quem não entende um pouco sequer do que é a actividade de quem é bom.

Há quem chore e a pés juntos faça birra, garantindo que o treinador do Sporting não é um treinador positivamente especial. Entre os argumentos evocará as vitórias morais de Jorge Jesus na Europa.

Quando as equipas portuguesas voltarem sistematicamente, não é ocasionalmente, é sistematicamente, a equilibrarem os seus jogos com as melhores equipas da Europa, e a vencerem sistematicamente aquelas de nível médio, mas que ainda assim estão acima das nossas (Leverkusen, Bordéus, Newcastle, Fenerbahce, Tottenham, Juventus, são algumas das equipas que Jesus bateu até às finais Europeias), cá estaremos para perceber quem está a desenvolver tão incrível trabalho.

Até lá… as vitórias morais de Jorge Jesus são onde outros não triunfariam nem moralmente.

O que não teve nada de somente “moral”, foi a forma como quebrou uma hegemonia de longos trinta anos ao FC Porto, e como voltou a colocar o Sporting como um sério candidato à vitória final na Liga portuguesa.

O Sporting não seguiu para os oitavos da Liga dos Campeões. Todavia, a prestação leonina foi de um nível tremendo. E tudo porque acima de tantas outras coisas tem um treinador que é um génio na preparação de cada partida.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3047 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

13 Comentários

  1. Artigo extraordinário Pedro! Não sou da área do futebol ou das motricidades humanas, sou financeiro, mas amo futebol. Sou benfiquista, mas Jorge Jesus bate forte no coração, cresci com a personagem mais irreverente do futebol português, para mim, de sempre a nível do que é o treino, o mediatismo e a própria pessoa que é um ser especial e com os seus defeitos normais. Ao lado de Jesus todos são anões, pois em Portugal se tens qualidade sem cunhas estás tramado, ele conseguiu, ele tornou o Benfica de novo competitivo, levou às finais, jogava bem e bonito. Hoje o Sporting é temido. Tal como Messi ou Ronaldo, quando Jesus se reformar vamos chorar.. E muito!

  2. Pedro, se o Jesus é isso tudo o que dizer do Fonseca que num grupo de grau de dificuldade semelhante apurou-se sem espinhas?

    • Grau de dificuldade semelhante. Messi Iniesta e Suarez ou Higuain e Dybala colocados no patamar dos jogadores do Napoli ou mesmo do City.

      • Caro Gonçalo Mano

        O Shakthar tem uns 10 brasileiros/argentinos que não brincam nas selecções e estão sempre disponíveis para o treinador.

        Mas o verdadeiro caso de análise desta temporada não é o pseudo-sucesso de JJ nas competições europeias mas sim o colapso das equipas alemãs (salvou-se o Bayern).

    • Grau de dificuldade semelhante? O Shaktar fez uma excelente Champions. Mas para todos os efeitos, o Nápoles não é uma Juventus nem o Shaktar é um Sporting. 🙂

    • Grau de dificuldade semelhante pela qualidade dos treinadores. O plantel do Nápoles é inferior ao da Juventus. E o plantel do Shaktar talvez seja superior ao do SCP. E o SCP esteve muito perto de também de se apurar sem espinhas a diferença esteve nos imponderáveis, bastava ter mantido o empate em Turim e a Juve não ter ganho em Atenas como o Napoles não ganhou aos Holandeses. De qualquer modo sim o Fonseca actualmente é top mundial e para mim como Sportinguista preferia tê-lo a ele de o JJ porque para mim ainda é melhor. O que não invalida que o JJ seja muito bom. Do JJ só não gosto dos preconceitos que têm com a morfologia físico dos jogadores e a preferência por executantes ao invés de criativos.

  3. Neste momento, até os benfiquistas queriam ter celebrado vitórias morais este ano, mas o descalabro na champions foi de tal forma que não saímos do buraco que estamos com a tremenda vergonha que temos. Um grupo mais que acessível e o registo e zero pontos é inaceitável e ainda não se viu por parte do treinador publicamente um pedido de desculpas ou a assumir o cenário negro.
    Mas como é de Jesus que se fala, eu ao artigo apenas acrescentaria que trata se de um treinador que é nos últimos anos se aperfeiçoou também para os jogos de maior pressão, ao contrário do que as pessoas querem muitas vezes fazer querer aprendeu com as derrotas que teve no benfica na Europa. É claramente um treinador de topo ficaremos sempre na dúvida e o que daria numa premier league, mas pior que o wenger não seria de certeza.
    E o que dizer do Paulo Fonseca (ou antes do Zorro) ?! Extraordinário o seu trabalho … joga muito a sua equipa

  4. Bom dia!

    Com o vosso blog aprendi a olhar o futebol de uma outra forma e isso inclui um outro olhar para a forma como o JJ influenciou o futebol português. No entanto, não compreendo muito bem como um treinador tão evoluído como o JJ não resistiu a “inventar” sucessivamente na Liga dos Campeões (“doença” da qual não parece padecer na Liga Europa), já que um Benfica muito mais forte que o actual (a tal equipa “de titãs”, como lhe chamaram no post de análise ao clássico) só por uma vez conseguiu passar a fase de grupos com JJ ao leme, mesmo perante equipas claramente ao seu alcance.

    Não estou com isto a pôr em causa o mérito do JJ; apenas me parece óbvio que foram desperdiçadas algumas fases de grupos por culpa própria e não por mérito dos adversários.

  5. A questão é sempre a mesma: o que está aqui escrito só serve mesmo para alguns anormais enfiarem a carapuça na areia, porque quem tem dúvidas da qualidade e do conhecimento do homem é um palhaço. Ponto final.

    Agora, há certas coisas que ele tem na cabecinha que não o deixam voar mais. Só isso.

    E por incrível que pareça o Vitórias tem mais passagens (e apenas três tentativas contra sete) aos oitavos de final da Champions do que o Jesus. São factos. E não pode ter sido apenas azar, apesar de também ter sido.

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