Derby na Luz

Ainda que estejamos na primeira volta da Liga, o derby da Luz poderá ajudar a definir de forma decisiva candidatos. Se o FC Porto vencer na Feira, um tropeço do Benfica poderá ganhar contornos determinantes para o que há para jogar. Sobretudo porque à desvantagem pontual para dois adversários, há a falta de confiança e de qualidade de jogo que a equipa vem trazendo de jogo para jogo.

O que poderá trazer o derby na Luz?

Algumas questões e respectivas respostas em forma de antevisão.

Sendo o jogo na Luz, com um Benfica tetra campeão e com a motivação de poder encostar no rival, é expectável que asfixie o Sporting? 

Por norma, para se “asfixiar” um adversário, é necessário uma pressão forte sobre a sua última linha. Embora o Salvio e o Cervi tenham características para o fazer, não me parece crível que a estratégia passe por desgastar o Jonas e o Pizzi a saírem em simultâneo ao Mathieu e ao Coates. Não só não são jogadores com saída rápida para pressionar no momento oportuno, como o facto de a postura mais conservadora do Benfica nos jogos desta natureza, e que lhe tem trazido os resultados que pretende, indicia que defensivamente a estratégia será apertar mais baixo, para manter a equipa mais junta. E portanto na sua organização defensiva, acredito que veremos um Benfica a sair com Jonas entre centrais, dando espaço para progressão ao Coates ou ao Mathieu para então depois sim, quando o espaço encurtar por si só, procurar recuperar e sair em ataque rápido.

Ao longo de toda a primeira parte, no Dragão, a toada do jogo, foi diferente do que projectaste…

Nesse jogo o Sérgio Conceição trocou o 442. Não pressionou os centrais do Benfica em simultâneo com dois avançados, mas antes fez o que o Benfica fará com o Sporting. Um sai entre centrais, e depois tinha o Aboubakar a encostar no Fejsa.

O Jorge Jesus é muito menos “camaleónico”. Ou seja, surgirá garantidamente com o seu 442, e com dois avançados a caírem nos centrais (Bruno Fernandes e Bas Dost, creio), projectando o William para não deixar o Fejsa receber e ligar o jogo. Com grande certeza, pelo histórico já muito grande de jogos que leva desta natureza, que o Sporting entrará a querer que o Benfica jogue longo… vai apertar na frente, até porque sabe que por cima, o Jonas não terá qualquer hipótese de segurar e tocar de frente perante o Mathieu ou o Coates…

E como pode o Benfica contornar isso?

Forçado a sair longo, tem de direccionar o seu primeiro passe para o Salvio. Só ai poderá obrigar o Coentrão a jogar mal e ficar com a bola, ou para lançamento ou aproximando quem possa receber a bola de frente. Porque essa será a maior dificuldade táctica no jogo para o Benfica. Ter portador a receber de frente…

Se sai longo para qualquer outra zona que não o seu corredor direito, dificilmente conseguirá ganhar a bola, e os centrais estarão baixos e ficarão com pouco tempo para subir metros, até ao Coates, Mathieu ou Piccini entregarem bola limpa para Sporting começar a construir…

Imaginas o Sporting por cima, portanto… 

Depende do que é o “por cima”. Na Luz, haverá sempre momentos em que o Benfica, seja quase contra quem for, consegue tomar as rédeas do jogo. Imagino o Sporting confortável, isso sim. Imagino o Sporting preparado para lidar com todos os momentos do jogo, e portanto a conseguir dominar ou controlar melhor o que se está a passar, mas isso também já aconteceu no derby do ano passado na Luz, e o Benfica acabou por vencer.

São jogos em que depois também surge muito a individualidade. Portanto imagino o Sporting confortável e a trabalhar melhor tacticamente para chegar ao resultado que pretende, mas também não é difícil imaginar um ataque rápido em que o Salvio e o Jonas possam fazer a diferença. São jogadores que por norma basta terem uma bola para finalizar e marcam. Sobretudo o Jonas…

William e Battaglia?

Creio que sim. Eu sei que o Jesus é muito apreciador do Podence, mas chateia-se um bocadinho porque ele ainda não tem aquilo que eu falava à pouco do Salvio ou do Jonas. A eficácia na zona de finalização. E portanto, num jogo em que há por norma poucos lances, com certeza que quererá ter o Bruno mais próximo da baliza adversária. Mas, não é somente isso, com o Battaglia ele aumenta e muito a sua competência no momento em que o Benfica mais poderá ferir o Sporting, isto é, nos momentos após a perda. Para além de que o próprio William se sente mais confortável com o argentino próximo, e isso também conta muito…

Com o Batta, aumenta a capacidade do Sporting para parar rápido os ataques do Benfica após as suas perdas, e esse é o momento onde por norma surgem os golos… se não for William e Battaglia ficaria muito surpreendido, e seria até um sinal de que o Jesus tem menos “respeito” pelo Benfica do que o que o próprio Sérgio Conceição teve no Dragão, quando surgiu muito mais recuado do que o que eu imaginava…

O Pizzi pode voltar a ser decisivo?

Jogar com Pizzi e Krovinovic ajuda o Pizzi, creio. Passa a haver mais um elemento activo para construir e criar, e torna mais difícil ao adversário encostar tanto nele, porque há mais quem tenha argumentos para baixar para vir tocar na bola. O Pizzi continua a ser um grande pensador do jogo, as maiores dificuldades que revela são precisamente nestes jogos em que o espaço e o tempo se reduz. Não é o mesmo jogador com pressão e sem ela. Ser decisivo, poderá ser, embora imagine mais os alas do Benfica a terem maior preponderância numa possível vitória, porque muito do Benfica ofensivamente passará por ai…

Que papel poderão ter as bolas paradas no jogo?

As bolas paradas são quase aquele “bónus” que dá oportunidade à equipa que está menos bem no jogo, vencê-lo. Embora não sejam aleatórias, e dependam das características dos jogadores que tens. E mais disso do que do trabalho de casa que fazes, são sempre aquele momento em que algo pode acontecer. Com Mathieu, Bas Dost, Coates, Piccini, Battaglia, o Sporting está claramente por cima, até porque no Benfica não há Luisão, que defensivamente é extraordinário nesses lances. Mas, é talvez aquele momento em que a aleatoriedade é maior.

Homem do Jogo?

Se estivermos a falar de notoriedade… os principais candidatos são o Bruno Fernandes e o Bas Dost de um lado, e o Jonas e o Salvio do outro. Se estivermos a falar daquele que joga mais e que mais fez para aproximar a sua equipa do sucesso, isto é, que nas bolas que teve definiu sempre bem e ajudou com a sua individualidade para condicionar todo o jogo, acredito mais num Krovinovic no lado do Benfica, e no Bruno ou até no Mathieu do lado do Sporting.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3767 artigos
Pedro Bouças - Licenciado em Educação Física e Desporto, Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, bem como participado em 2 edições da Liga dos Campeões em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, Cursos de Treinador e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã", e Co-autor do livro "O Efeito Lage", ambos da Editora PrimeBooks Analista de futebol no Canal 11 e no Jornal Record.

10 Comentários

  1. Na minha óptica considero o Jonas o melhor jogador do campeonato português se considerarmos as últimas 10 temporadas. Contudo nestes jogos desaparece sempre um pouco…
    Tens alguma “explicação” para isto?
    Talvez a grande preocupação que as equipas adversárias têm para anula-lo e efectivamente conseguem ou haverá outro motivo?
    Abraço e bom ano

    • O Jonas não pode ser considerado o melhor jogador do campeonato português nas últimas 10 temporadas pela simples razão de que sempre que o nível sobe, champions e clássicos/derby, ele desaparece.

  2. Penso que seria interessante haver uma abordagem diferente do Benfica. Acho que se no momento defensivo o Cervi e o Sálvio saíssem aos dois centrais com Jonas encostar no Batta e William e Bruno Fernandes ficarem seguros por Krovi e Pizzi libertando o Fejsa para o Apoio constante ao Quarteto defensivo.

    Será interessante saber quanto tempo dura Jonas e quem entra se Raul se o Seferovic. Acho que o Raul e Zivkovic podem ter um papel preponderante no jogo. Do outro lado cuidado com as possíveis saídas do banco do Acuna e do Podence

  3. Análise ao derby na Luz também aqui (vertente benfiquista): http://www.epluribusunum.pt

    João,
    O Jonas rende menos porque a equipa do SLB deixa de jogar como costuma (com a bola pelo chão) e não assume nunca o jogo. A culpa não é do Jonas…

    Rui,
    se o Benfica fizesse isso o SCP saía sempre a jogar pelo Coentrão ou pelo Piccini e o buraco seria ainda pior porque seria mais à frente.

  4. O problema do 433 simples frente a um 442 é os dois avançados do 422 explorarem as costas dos defesas não deixando a defesa juntar-se ao meio campo e assim ganhar superioridade no meio-campo, onde se decidem os jogos, normalmente. Se os extremos do 433 descerem para ajudar o meio-campo, os laterais acompanham. Para não se expor o 433 simples a este problema, recuam-se as linhas e joga-se no contra-ataque. Penso que era isto que o Jesus queria dizer quando caracterizava o 433 como sistema de equipa pequena.
    O problema do 442 clássico do Jesus sempre foi as costas dos laterais. Como precisa deles para atacar, uma vez que com dois medios centro e um 10 que é mais avançado que médio e precisa de estar na área para ter mais poder de fogo perdendo no jogo interior, dá espaço nas costas.
    Os treinadores têm a sua importancia óbvia numa equipa mas quem decide os jogos são os jogadores de qualidade; um grande jogador desmonta qualquer sistema, mas que raros são esses jogadores, principalmente nos dias que correm.
    Não espero nada deste jogo. Ofereceram-me o bilhete e eu declinei. Como aparte, que suplício é para mim ir ver jogos ao vivo para perceber que os jogadores não conseguem dominar uma bola, fazer duas tabelas seguidas, etc, etc.
    Esqueceste-te do William?

    • Esqueci-me de caraterizar o 442 clássico do Jesus: É forte contra os mais fracos mas quando apanha equipas de igual valor, costuma perder; daí os resultados brilhantes na liga dos campeões.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*