Rato atómico à esquerda e pecados de Jesus

Jorge Jesus na conferência repetiu uma série de chavões completamente desconectados com a realidade do jogo, e infelizmente ninguém esteve à altura para fazer uma série de questões que permitiram ajudar a perceber melhor alguns porquês sobre o que se passou no jogo.

As suas equipas são por norma muito fortes nos momentos defensivos, tal como o referiu, mas na Luz, foi um Sporting muito débil e incapaz de materializar a vantagem e aproveitar a “pressa” encarnada.

Defensivamente, o destaque da equipa leonina vai apenas e somente para a sua última linha. Não tivessem a qualidade posicional e individual que têm e a falta de controlo leonino ter-se-ia notado no resultado.

Mas, afinal qual o pecado capital do Sporting na Luz?

Ontem um dos bons treinadores portugueses falava sobre a dificuldade que Jesus tem em lidar com o seu próprio ego, e o quanto isso o impossibilita de aceitar e perceber que há momentos em que precisa de controlar. Em que ir apertar sempre é errado. Na Luz, em vantagem, com um Benfica que tem ao longo de toda a época demonstrado imensa dificuldade para penetrar por blocos juntos, o Sporting jogou até ao último minuto a querer ir roubar a bola em todas as zonas. Não juntou a equipa. Não juntou Bas Dost e Bruno Fernandes aos médios, obrigou médios a saírem a zonas muito subidas no relvado, e um Benfica que a perder passou a “arriscar” mais, trocando a bola longa pela saída pelo chão, conseguiu sucessivamente atacar contra menos adversários, porque Jesus nunca quis controlar!

Em suma, não quis ou não percebeu que a hora era de juntar defensivamente a equipa, fechando caminhos, e não a de tentar recuperar todas as bolas do jogo. E isso trouxe um jogo partido, que possibilitou ao Benfica inúmeros ataques com os médios leoninos ultrapassados. A vencer, não o poderia ter permitido!

Notas soltas do jogo:

  • Exibições tremendas de Grimaldo, Krovinovic e Bruno Fernandes. O lateral encarnado foi a solução ofensiva para a construção do Benfica. Com Sporting estendido a querer apertar todos, bola entrava no espanhol que conduzindo para dentro ultrapassou praticamente sempre Gelson e ligou o jogo com as zonas de criação. Não deverão ter havido muitos ataques prometedores do Benfica que não tenham tido o desequilíbrio inicial de Grimaldo. Krovinovic e Bruno Fernandes a responderem à altura do que havia mencionado na antevisão. Dois jogadores diferentes, com uma qualidade técnica e inteligência que lhes permite sempre ter soluções, seja associando-se aos colegas, seja libertando-se da oposição. Sabem sempre o que fazer e têm recursos para o cumprir. Um luxo ter dois jogadores deste nível na nossa Liga;
  • Muito boa primeira parte de Bas Dost, conseguindo na inferioridade numérica, pelo ar ou pelo chão, manter sempre a posse para a sua equipa. Fica a dúvida sobre o porquê de ter ido até ao fim, quando nos últimos vinte minutos da partida não era ameaça ofensiva nem tão pouco conseguia contribuir defensivamente no “jogo corrido”. Muito provavelmente a opção por não lançar Doumbia, que traria outra disponibilidade e agressividade para o momento defensivo, tapando melhor os espaços, e tendo maior capacidade para condicionar a saída encarnada, deve-se à excelência de Bas Dost nas bolas paradas. Sobretudo nas defensivas;
  • Referiu que ia esperando um “contra golpe” para matar o jogo, Jorge Jesus, mas a forma como no banco preferiu guardar Podence e Doumbia, só pode ser explicada por estar a guardar centímetros para as bolas paradas defensivas… Nas suas escolhas individuais pensou sempre mais defensivamente que ofensivamente, e foi penalizado por isso;
  • Terá sido muito provavelmente o melhor jogo (do ponto de vista do adepto – emoção, jogadas rápidas e com qualidade técnica) da temporada em Portugal. Para isso muito contribuiu o golo cedo do Sporting que obrigou o Benfica a ter de se assumir e não ficar somente na expectativa, e as opções erradas de Jesus sobre como abordar o jogo defensivamente. Ofensivamente faltou um pouco mais de Sporting para ser um derby “à antiga”.
  • Apesar de ser sempre uma desilusão perder-se a vitória nos últimos momentos, o resultado mantém o Sporting bem dentro do caminho para o título, e penaliza bastante o Benfica que daqui a duas semanas em Braga jogará o campeonato, numa partida que até o pode fazer descer para fora do pódio…

Para quem “aterrou” aqui pela primeira vez, é importante perceber o que é controlo, e de que forma este difere de pressionar, quando estamos em organização defensiva:

E para perceber melhor o trabalho de “fecho de espaços” e diagonais defensivas dos avançados, para controlar o espaço à frente dos médios, e como difere do ir pressionar sempre, é interessante recordar:

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3309 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

16 Comentários

  1. De facto sempre que os defesas do Benfica ultrapassaram a 1ª linha de pressão do Sporting, encontravam depois uma autoestrada no meio-campo. Juntando a isto a intensidade que o Benfica colocou na conquista de cada espaço, fica sem dúvida a dever a vitória no jogo ao pouco acerto na finalização. Pensei mesmo que no intervalo o JJ ia rever posicionamentos, mas veio tudo na mesma, felizmente para o Benfica.
    Aproveito para agradecer aos autores do blog por cada vez mais disponibilizarem conteúdos de qualidade. Abraço.

  2. Nunca vi o Sporting (de Jesus, ou mesmo antes dele) a dar tanto espaço e tempo para os seus adversários enquadrarem dentro do bloco. Foi de doidos!

    Como dizes, o Sporting nunca quis controlar. O que é estranho dado que chegou à vantagem cedo. As minhas perguntas:
    – Como interpretarias a entrada do Brian Ruiz? Qual a lógica se o treinador à partida tudo fez para NÃO controlar o jogo?
    – O que se passou na cabeça do JJ para não tentar controlar e juntar linhas? Fezada? Soberba?
    – Dizes frequentemente que por mais ideias e planos que os treinadores tenham quem jogam são os jogadores. Estás numa situação óptima para nos tentar explicar porque raio não há nenhum jogador (ou membro da equipa técnica) que diga ao JJ “temos que mudar de comportamento, esta estratégia não está a resultar” ou mesmo em campo contrariar as orientações do técnico e juntar linhas?

    Raramente comento aqui mas uma vez mais obrigado pelos inúmeros artigos de alta qualidade que por aqui vão publicando.
    Obrigado

  3. Boa comparação. Acho sinceramente que para elevar o nível do nosso futebol não é esperar que os treinadores mudem o discurso do costume com declarações super defensivas e que raramente acrescento algo ao jogo nem sequer sinceridade quanto ao que se passou (salvo raras excepções como o Miguel Cardoso e o Luís Castro) mas sim ter jornalistas que saibam fazer as perguntas certas (por vezes incómodas) e aos poucos ir expondo, quase que obrigando, os treinadores a serem mais concretos e objectivos e de certo modo apresentar algum sumo nas suas declarações.
    Cumprimentos

  4. O Rui Patrício não faz uma única defesa difícil.. Há um remate à barra e há um remate do João Carvalho que passa perto da barra. Quando o JJ diz que as defesas que o Patrício fez até o jornalista fazia… não é assim tão descabido. Se é este o “chavão”, concordo com ele.

    Há outros pormenores do jogo interessantes. Eu sou sportinguista e nunca me senti tão confiante nas bolas paradas defensivas. 20 cantos e mais uns 10 livres laterais a favor do SLB e daí surgiu pouco…

    Acho que há vários factores que contribuíram para o fraco jogo do Sporting em organização ofensiva, mas principalmente o facto de jogar com Battaglia (como bem explicou o Pedro Bouças há uns dias atrás), Dost e um Acuña e Gelson desinspirados com bola. Só Bruno Fernandes tratou bem a bola (e tão bem que a tratou). Já para não falar do William, que viu-se que na passagem de ano não foi para a cama cedo.

    Dost, Gelson e Bruno não juntaram cá atrás e ajudaram pouco mas houve situações de transição ofensiva em que por más decisões (Gelson / Batta) ou inaptidão técnica (Bas Dost na receção e/ou Batta na saída) jogadas de potencial perigo com Benfica descompensado resultaram… em perigo na baliza do Sporting depois da perda.

    Com Podence ou Doumbia a história tinha sido bem diferente nas transições ofensivas e mesmo em organização com Bruno mais recuado. Mas por outro lado… Sem Battaglia e sem Dost a espectacular eficácia nas bolas paradas defensivas ia por água abaixo.

    E com mais um “chavão” de Jesus com o qual concordo, o resultado (alcançado a 5 minutos do fim) foi pior para o Benfica do que para o Sporting. O Sporting jogava na Luz contra o tetra campeão que fazia basicamente o jogo tudo ou nada (6 pontos para Porto e Sporting, nesta fase…). Acho que o Jesus acreditou que fazia o 0-2 a qualquer momento por isso “não quis” controlar mas a desinspiração individual não ajudou. E depois do outro lado também jogam… e estavam a lutar pela vida. Jonas, Cervi, Krovinovic, Rafa, Jimenez, J Carvalho.. é artilharia pesada.

    É por isso que não crucifixo Jesus, tendo noção de que brincou com o fogo. Mas também tendo noção de que por muito pouco não saiu com os 3 pontos… E não sabendo bem em que pensar sobre o jogo de ontem… Sei que se vencermos o Marítimo fazemos 43 pontos na primeira volta. Com o mesmo desempenho na segunda volta… acabamos com 86 pontos.

  5. “Ontem um dos bons treinadores portugueses falava sobre a dificuldade que Jesus tem em lidar com o seu próprio ego, e o quanto isso o impossibilita de aceitar e perceber que há momentos em que precisa de controlar”
    Eu disse várias vezes isto aqui na anterior encarnação do LE e tanto tu como o Baggio/Blessing discordaram, para dizer o mínimo. Mas é bom ver que pelo menos agora concordas.

    De que forma achas que o Benfica pode melhorar a sua saída de bola e a condução a meio campo, se é que achas que deve melhorar aí?

  6. Como é que o Sporting quer partir o jogo (supostamente) e depois só tem Gelson para o contra-ataque (retirado até por Bryan Ruiz…). Não percebi a estratégia de JJ neste jogo… Pode-se falar em JJ estar a regredir como treinador?

    • Regredir? O homem já passou os 9 milhões ano. Fora comissões!
      Agora a sério: com o meio campo povoado que o Benfica tinha, contra 2 do Sporting, passando a primeira linha de pressão tudo fica mais fácil!
      Com os jogadores que o Benfica perdeu, os que o Sporting contratou e mesmo assim o Vitória está o jogo todo por cima do Jesus…
      Um pouco mais de humildade não faria mal.

  7. Boa noite,

    Boa analise, acho.

    Sporting nao conseguiu controlar nos jogos com Porto, Benfica, Braga e Rio Ave (esse sim um festival…).

    Nao foi um problema deste jogo com o Benfica, e sem duvida que vao valendo as bolas paradas que representam metade dos golos dos leoes (e defensivas tambem muito fortes pelas caracteriaticas dos seus jogadores).

    Coletivamente este Sporting muito aquem do esperado e do “falado”…em ataque organizado dificuldades tremendas. Bruno Fernandes uma aposta ganha (seria expectavel), Gelson vai fazendo a diferença… Caso nao perca jogadores Sporting estara muito perto do titulo, mas muito pela capacidade individual dos seus jogadores, quem em alguns setores estao num patamar de excelencia.

    Uma nota para a forma como por vezes analisamos os treinadores: existe um contexto, um momento do clube, o tempo de trabalho, etc…tudo interfere. Nao acho que por exemplo NES “tao mau” como li varias vezes (pensem na equia e contexto do Porto quando chegou) e nao acho JJ “tao bom” como varias vezes se… Uns tem é mais oportunidades que outros, muitas vezes. Neste nivel todos tem valencias de excelencia, e falham como qualquer um de nos treinadores “amadores”. Agora ha sem duvida aqueles que acrescentam mais à sustentabalidade do jogo e espetaculo positivo que deve ser o futebol, mesmo que outros acrescentem muito no plano tecnico.tatico, sao no meu entender, dispensaveis!

  8. À uma parte significativa do jogo em que o Sporting depois de recuperar a bola na sua zona defensiva não consegue sair a primeira zona de pressão perdendo a bola novamente inúmeras vezes.
    Acresce que, mesmo nos casos em conseguiu sair perde a bola novamente rapidamente em más decisões de jogar rápido na transição ofensiva, maus passes, perda de duelos individuais, etc.
    Estas perdas resultam em novos ataques do benfica com a equipa desequilibrada…
    Consegues adicionar aqui alguns vídeos com estas situações com a tua análise?

  9. O mestre de uma tactica só (e sofrível) nunca soube controlar os jogos mas tudo bem… é do ego, das batatas que estavam mal cozidas, etc.
    O Vitória chega, resolve o problema juntando as linhas e pondo o pizzi a jogar por dentro, no segundo ano põe o benfica a jogar um futebol muito bom, que foi sendo traído pelas constantes lesoes no plantel e pela venda do jogador mais importante em Janeiro. Vendem-lhe 4 titulares, 3 deles importantíssimos sem os substituirem, recomeça do zero. O Jardel, o André Almeida e o Pizzi começam a época numa forma lastimavel, começa a resolver o problema, adaptando-se ao que (não) tem, mas esse é um coitadinho… não tem tomates, é sonso (tem nível) etc, etc, etc.
    O mestre da chiclete é um potenciador de jogadores ( Di Magia, Gaitan, Coentrão, Matic, Enzo, etc, tudo contratados por 10M), um génio portanto. O outro vai buscar miusos por nada e por 1 milhao, vende-os por 30M ou mais e continua a ser um triste.
    Enfim… Siga para bingo!

    • Faltam aí uns pontos finais e uma ou duas virgulas mas deve dar para entender. Continuando…
      O triste do Vitoria desaproveita talentos incríveis como a abébia do Rafa, que mesmo neste jogo a unica coisa realmente boa que fez foi o passe que origina a jogada do golo, jogada essa que ja se preparava para estragar com um renate à figura a 5 metros da baliza, porque no resto limitou-se a aproveitar as condiçoes que o Vitoria lhe criou ao desposicionar a defesa do Sporting, o que como voces demonstram, não era assim tão dificil. De resto, mais do mesmo: corre uns metros com a bola para depois a entregar ao adversário. Façam lá um apanhado dos lances do Rafa para verem.
      Ou mesmo desse craque à escala global que é o Zivkovic, que quando joga na esquerda não consegue jogar por dentro, e quando joga na direita só joga por dentro, tornado-se altamente previsivel e facilmente anulável pela organização defensiva contrária. Centra bem mas esquece-se de dar o corpo ao manifesto na hora de defender e tem (ainda?) lacunas tacticas.

      • O eunuco Vitória senta uma contratação de 22 milhoes porque embora seja abnegado, não tem escola; não sabe ser um 9 na área e fora dela tem varias limitaçoes: Precipita-se muito e falha passes e tabelas faceis, alem de não saber jogar em espaços curtos.
        Senta ma bancada a abébia que custou 16M, juntamente com o Cervi e o Zivkovic e dá minutos ao Diogo, que serão importantes para se poder afirmar na proxima época. Lança o Rubem, espera pelo timming ideal para lançar o maior talento do Seixal desde o Bernardo, não o queimando. Fez o mesmo com o Lindelof e com o Gudes, este comparando com o Diogo.

  10. Concordo com tudo excepto com este “Endeusamento” para com o Jorge Jesus. Analisar apenas o jogo dizendo que o resultado se deveu ao demérito do Sporting e nao ao mérito do Benfica nao me parece justo. Continuação de um bom trabalho. Abraço

  11. Maldini,

    Há um lance de contra ataque do Sporting que eu gostava de vos ver comentar porque tinha potencial para ser muito perigoso e parece-me que o Ruben Dias “eliminou” o perigo sem tocar na bola. Não me lembro bem quando foi, mas foi na 2ª parte, e acho que talvez seja por volta dos 50′. O SCP recuperou a bola perto do meio campo, com o Benfica completamente desequilibrado/desorganizado e, se não me engano, em inferioridade. O Ruben, pelo seu posicionamento e movimentação controla o portador de tal forma que dá tempo para o resto da equipa recuperar e o lance acabou por não criar perigo nenhum. Sou só eu que sou parvo e o lance não foi nada de especial ou o Ruben aí esteve imperial?

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