Um jogo de Grandes na Pedreira

Assistiu-se ontem em Braga a um excelente jogo de futebol. Duas excelentes equipas, duas excelentes organizações e dois excelentes treinadores. Depois de muito ponderar, creio mesmo que o título que dá origem a este artigo, é o mais acertado. Um jogo de Grandes.

De um lado um Sporting de Braga, que se preparou estrategicamente muito bem para este jogo. Não foi uma equipa tão marcadamente protagonista com bola como costuma habitualmente ser, antes pelo contrário, foi uma equipa mais controladora no que à gestão dos momentos do jogo diz respeito. Controlou quando tinha que controlar, pressionou quando tinha que pressionar. Defensivamente partiu de um 4x4x2 clássico e foi alternando a altura do seu bloco, embora tivesse passado mais tempo com o mesmo instalado no seu meio campo defensivo dando a iniciativa e a bola ao Rio Ave, mas sempre com os indicadores de pressão bem definidos para o momento de acelerar e subir a equipa e sempre com a intenção de após recuperar a bola, tentar criar verticalidade e velocidade no seu jogo, tentando ferir o adversário neste momento. Muito interessante ainda neste capítulo, a forma como condicionava o pontapé de baliza da equipa vilacondense, com a formação de um losango. Hassan e André Horta a condicionar a saída pelos dois centrais, Vukcevic subia para dividir entre o duplo pivot vilacondense e depois Wilson Eduardo e Ricardo Horta ficavam por dentro preparados para sair aos laterais caso a bola fosse para lá direccionada ou saltavam a pressionar rápido pelo lado cego a construção pelos dois médios do Rio Ave. Num desses lances, curiosamente quase marcou. Ofensivamente, houve uma pequena alteração no que à dinâmica da primeira fase de construção diz respeito em relação a jogos anteriores. A equipa organizou-se  como habitualmente em 3x4x3, mas com um dos dois médios centro sempre a baixar para o meio dos centrais e André Horta, o médio mais ofensivo e mais próximo de Hassan, a baixar para junto do outro pivot formando uma saída com 3+2, os laterais Jefferson e Goiano projectados, os extremos Wilson e Ricardo Horta por dentro e Hassan entre os centrais.

Do outro lado um Rio Ave fiel à sua identidade marcadamente ofensiva e com o gosto por ter a bola. Miguel Cardoso apresentou algumas alterações em algumas posições no onze, que representaram apenas uma mudança de características no que a essas posições diz respeito e não uma mudança no seu jogar, essa manteve-se idêntica. Foi uma equipa que durante todo o jogo não apresentou um ponta de lança de raíz, mas antes jogadores com maior mobilidade a aparecer naquela zona, tentando com isso confundir a organização bracarense. À frente do duplo pivot que apenas o é na teoria, existiu uma mobilidade bastante interessante com bastantes trocas posicionais dos seus jogadores mais ofensivos. A equipa vilacondense é uma equipa com capacidade para ter bola, que consegue ligar construção com criação com muita qualidade, faltando por vezes maior objectividade e profundidade para chegar a situações de finalização. As situações que teve, foram ainda assim, fruto de uma construção criteriosa, pausada e ligada. Com bola, a construção a três é uma evidência, e não faltam opções interiores por dentro do bloco adversário, assim como a projecção dos seus laterais, verdadeiras referências à largura e que são usados muitas vezes para criar situações de 1×1 ou 2×1 no corredor quando já estão mais altos, ou como referências para atrair adversário ao corredor, obrigar o adversário a bascular e chamá-lo aí, para depois a bola ir dentro e gerarem-se os espaços entre sectores que o Rio Ave tanto gosta de explorar. Ora, obviamente que esta forma de jogar e seus respectivos posicionamentos envolvem riscos, riscos esses assumidos pelo seu treinador. O Rio Ave expõe-se muito em termos ofensivos e tem alguns problemas posteriores na sua transição defensiva. Percebe-se a ideia de ter uma posse larga de forma a poder controlar essa mesma transição defensiva, e a equipa consegue muitas vezes ter essa posse larga, mas quanto a mim, depois de chegar com muita qualidade e critério a zonas de criação, tem dificuldades em criar situações claras de finalização e são aí que os problemas aparecem. A forma como coloca a sua linha defensiva quer em transição quer em organização é também ela arrojada e por vezes surgem problemas no que ao controlo da profundidade diz respeito (daí possivelmente a opção de Abel de lançar jogadores como Wilson Eduardo de início). É uma equipa, na minha opinião, que se sente claramente mais confortável quando defronta equipas que assumam o jogo, sejam mais pressionantes e que assumam os riscos inerentes a essa ideia, pois os espaços aparecem com maior facilidade, do que equipas que procuram ser controladoras defensivamente e onde aí é preciso criar e gerar esses mesmos espaços. Abel, possivelmente percebendo isso, organizou a sua equipa estrategicamente desta forma e acabou por colher os seus frutos. Todavia, devo acrescentar que esta ideia de jogo de Miguel Cardoso é, quanto a mim, muito valiosa no que ao colectivo e à individualidade do jogador diz respeito e acredito que o caminho que tem traçado o levará a voos claramente mais altos, porque a sua ideia assim o merece.

Fica o vídeo para análise.

 

José Carlos Monteiro
Sobre José Carlos Monteiro 47 artigos
Treinador de Futebol, Uefa B, com percurso e experiência em campeonatos nacionais nos escalões de formação. Colaborador como observador e analista em equipas técnicas na Primeira Liga. Alia a paixão pelo treino e pelo jogo à analise de jogo.

2 Comentários

  1. Gostaria muito de fazer um período de estágio em um Grande clube da Europa, devido minhas condições financeiras não tenho essa oportunidade, sou técnico de futebol profissional, gostaria de melhorar meus conhecimento. Obrigado.

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