O protagonismo do defesa central no processo ofensivo

O futebol tem evoluído imenso ao longo de todos os anos. Ao longo destes anos, houve sempre coisas novas para explorar, reflectir e praticar.

No desenvolvimento que o futebol teve, também a forma como se foi olhando para algumas posições e seu papel dentro do próprio jogo, foi mudando. Hoje, falo-vos do papel do defesa central no processo ofensivo. Em tempos antigos, o defesa central era considerado apenas como estando dentro de campo com missões praticamente só defensivas, hoje em dia percebemos claramente que não é assim e ainda bem.

Os vídeos abaixo mostram situações de desequilíbrio desde a construção até entrar em zonas de criação, por parte de algumas acções dos mais variados defesas centrais que escolhi para dar corpo ao meu texto. No cenário perfeito do treinador de futebol, quem não gostaria de ter jogadores com esta capacidade para começar a criar desde trás? Mas será que é mesmo assim? Hoje em dia, quase todas as equipas de topo (e não só obviamente, mas principalmente), porque passam muito mais tempo em ataque posicional do que as restantes equipas da sua liga, quando procuram defesas centrais, têm (e devem ter) muitas preocupações no que à qualidade da construção diz respeito. Hoje em dia, os defesas centrais são também eles uns criadores. Tendo qualidade para o fazer e se as ideias do treinador potenciarem essa mesma qualidade, são eles que começam a criar desde trás, jogando curto ou longo, por fora ou por dentro, a queimar linhas do adversário, a conduzir, a atrair e a soltar, a meter passe vertical interior e a eliminar sectores do adversário, ficando a equipa já em zonas altas no terreno e muitas vezes com a linha avançada e média do adversário batida e só com a linha defensiva para enfrentar, etc, etc. É muito a partir do que se tem atrás, que os treinadores começam a moldar as suas ideias no que à fase de construção diz respeito, embora alguns não sejam totalmente assim e mantenham as suas convicções e ideias independentemente do que têm à disposição. Um exemplo muito concreto, aquando da chegada de Jorge Jesus ao Sporting. A dupla de centrais inicial com que começou a temporada era composta por Paulo Oliveira à direita e Naldo à esquerda. Se Paulo Oliveira à direita tendo dificuldades, conseguia cumprir minimamente com as ideias, os movimentos e as ligações ofensivas preconizadas pelo treinador, Naldo à esquerda tinha muitas mais dificuldades, apesar da sua competência em termos defensivos. Ao ter essas dificuldades, a equipa perde qualidade nas ligações e perde fluídez e consistência no seu jogo, porque terá mais erros, mais perdas e sofrerá com mais saídas rápidas do adversário. Coates e Ruben Semedo foram a dupla que a partir de Dezembro se assumiu como titular e a equipa ganhou maior qualidade neste momento de jogo com esta dupla de centrais, que continuou a titular na época seguinte, tendo actualmente Jorge Jesus com Coates e Mathieu, a melhor dupla de centrais desde que chegou ao Sporting.

Por outro lado, em conversa com alguns treinadores amigos que estão no nosso campeonato mas em equipas de menor dimensão, deparo-me muitas vezes com dificuldades e preocupações dos mesmos no que a este momento ofensivo diz respeito. E porquê? Porque a qualidade individual não é a melhor. E porque por muitas ideias que tenham, por muitas dinâmicas que ousem planear executar, é a qualidade individual ao dispor que manda. Compensará pedir aos jogadores fazer algo com o qual eles não se sentem confortáveis e que os potenciará ao erro? Portanto, se normalmente algumas destas equipas privilegiam a maior solidez defensiva do que o arrojo ofensivo, o aproveitar dos erros do adversário para explorar espaços à profundidade, quando têm que assumir o jogo de forma mais organizada e posicional porque as contingências do próprio jogo assim o obrigam, era giro ter centrais que ligassem por dentro com passe interior, que conseguissem variar o centro do jogo com um passe diagonal, que conduzissem para atrair e depois soltar e que ao mesmo tempo, não necessitassem de retirar jogadores da zona intermédia para assumirem eles a construção e com isso tirar profundidade à equipa em zonas mais avançadas. Seria o cenário ideal, mas se não há jogadores com a qualidade individual mínima para dar corpo a essas ideias, o que fazer? Adaptar ao contexto. Criar condições para que esses jogadores não sejam expostos a essas dificuldades e a esses erros e criar outras dinâmicas que lhes permitam ainda assim ter uma boa saída. Nestas realidades, é muito assim que funciona. Não é o cenário de sonho, é o contexto que manda adaptar. Porque apesar de tudo, e porque muita gente por vezes se esquece disso, estamos a falar de resultados, de classificações finais, etc, etc. No ganhar e não no entreter.

Ainda assim, o cenário de sonho para os treinadores, seria muito do que estes vídeos mostram. Não estão todos os centrais que queria colocar, estão alguns dos que mais gosto, mas as ideias estão lá, desde a nossa liga até a ligas internacionais. Como começam os desequilíbrios desde trás e o quão os centrais hoje são também eles uns criadores. É apenas uma visão muito pessoal.

 

 

 

 

José Carlos Monteiro
Sobre José Carlos Monteiro 31 artigos
Treinador de Futebol, Uefa B, com percurso e experiência em campeonatos nacionais nos escalões de formação. Colaborador como observador e analista em equipas técnicas na Primeira Liga. Alia a paixão pelo treino e pelo jogo à analise de jogo.

4 Comentários

  1. Isto é muito giro o sair a jogar e a condução e criação pelos centrais, mas levanta um novo paradigma q se prende com o facto de ser cada vez mais raro existirem centrais q consigam marcar bem e defender com qualidade..

    David Luiz, Lindelof, Ramos, Otamendi, Rojo etc… em comparação cm os centrais feios de à uns tempos como Stam, Ferdinand, Vidic, Materazi, Jorge Costa e Couto..

    • Uma coisa não a impede a outra e é o seu argumento é falacioso até porque inclui apenas dois jogadores efetivamente muito fortes a construir na lista dos que são supostamente bons a construir mas maus a defender. Começando por essa mesma lista, daí Otamendi é um exemplo paradigmático de que se pode ser forte a defender e atacar, é provavelmente o central na Europa mais inteligente neste momento a defender porque não tem armas física, não é excecionalmente rápido, é baixo, não é um bicho e ainda assim é fortissimo na antecipação, ganha imensos duelos aéreos, posiciona-se de forma exemplar, e alia isso a uma construção inteligentissima quer em passe quer em progressão e mais uma vez sem ser um jogador tecnicamente fabuloso( como é aliás assumido pelo Guardiola), depois o Lindelof é o outro que é muito bom a construir, e mais uma vez não implica que seja mau a defender, agora tem que crescer e ajudava estar inserido num modelo onde pudesse destacar-se pelas qualidades que tem a defender e não num modelo de HxH onde é bom quem é forte fisicamente, coisa que ele para os critérios da Premier não é.
      Depois fala do Ramos e do David Luiz, sendo ambos jogadores com qualidade técnica, é falso que sejam muito fortes a construir, são o oposto do Otamendi, razoáveis tecnicamente, monstros físicos( e é por aqui que têm a carreira que têm) e muito pouco inteligentes a jogar quer a atacar quer a defender, são sim exemplos de jogadores sobrevalorizados pelo físico e não porque são muito fortes a construir.
      Depois Rojo, nem tenho palavras, como é que o argentino pode ser supostamente bom a construir, se há coisa em que nunca foi bom foi a construir.

      Há bons e maus centrais, como sempre houve, há centrais inseridos em equipas fortissimas coletivamente e outras que só querem exploar o físico, um jogador de futebol não é feito com 100 pontos em que se dá uns para uns atributos e o que vai sobrando para outros. O caminho é haver uma maior capacidade dos 11 jogadores contribuirem para todos os momentos do jogo, e isso não é mau nem vai tirar qualidades defensivas aos centrais, vai é continuar a haver centrais mais inteligentes e menos inteligentes como sempre houve e obviamente que num caminho de maior foco nos posicionamentos, na ocupação racional do espaço, o central duro do HxH tem menos espaço, o que está longe de ser mau.

      • Grande explanacao a respeito dos centrais. Tenho uma opiniao muito parecida com a sua e mesmo no “passado” tiveram grandes centrais que sabiam marcar e sabiam construir o jogo, um exemplo para mim e o comparando com o Otamendi e o Ayala. Outro zagueiro que citarei e o Aldair (Roma-ITA). Parabens pelo comentario e desculpe-me pela falta de assentos, meu teclado e de outro pais.

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