Jogar o que o jogo pede – O Bayern de Jupp Heynckes

Quando em Outubro do ano anterior, Carlo Ancelotti foi substituído no comando técnico por Jupp Heynckes, legitimamente, muitos colocaram em dúvida as capacidades do experiente treinador alemão, tendo em conta que estava reformado e sem treinar há duas épocas. Pois bem, dúvidas dissipadas e os resultados à vista. Jupp caminha a passos largos para continuar a escrever a sua história em Munique, com títulos e com bom futebol.

Fui dar uma olhada pelo último jogo do Bayern, por sinal uma goleada expressiva a um Borussia à procura da sua melhor identidade e que sofreu uma goleada por números que indicam a diferença de nível entre as duas equipas. Quanto ao Bayern, creio que para além das competições internas, é um forte candidato a vencer a Champions, pela qualidade colectiva e pela individual que naturalmente suporta a ideia colectiva. No jogo de passado sábado, um festival de bom futebol. Com espaço para acelerar após recuperação ou a precisar de o criar em ataque posicional, um festival de criatividade e talento individual a sobressair e a colocar em evidência todo o poder da equipa alemã. Destaque para o recuo de James para zonas de construção, muito próximo de Javi Martinez, a dar qualidade, critério e clarividência na saída da segunda fase de construção para zonas de criação. Quem diria, conhecendo as características do criativo colombiano, sempre mais próximo de zonas de criação e finalização, que o veríamos noutro papel e a desempenhar funções de ligação entre as fases ofensivas. Aliás, do meio campo para a frente, só Javi Martinez tinha características ditas mais defensivas, tudo o mais, eram jogadores com forte apetência e caudal ofensivo. Nos corredores, Robben e Ribery com espaço para explorar as zonas interiores como tanto gostam, vindo de fora para dentro, com os laterais a oferecer a largura necessária no corredor. Muller sempre a aparecer quer próximo de Javi e James, como próximo de Lewandovski entre linhas e a explorar as rupturas na profundidade entre central e lateral pelo corredor direito e o avançado polaco a fazer tudo aquilo que de melhor sabe e que conhecemos.

A primeira parte foi um festival de oportunidades e ocasiões para o Bayern, perante um Dortmund perdido e sem reacção, com boa qualidade individual ao dispôr, embora distante do nível do Bayern, mas com qualidade colectiva insuficiente para uma equipa desta valia e dimensão. Às constantes perdas em zonas de construção ainda baixas, a respectiva transição do Bayern, sempre com os extremos a oferecer largura nos corredores e ainda com a chegada de trás para a frente de apoios no corredor central e sempre com menos jogadores para enfrentar na linha defensiva do Dortmund. Sofreu também quando procurava sair verticalmente em transição após recuperação, mas após ganhar a posse, ao segundo passe sofria a respectiva reacção e contra transição do Bayern (ver um dos golos), que normalmente é letal nestes momentos. Também em ataque posicional, competência dos comandados de Jupp. Sem ter um jogo interior muito vincado (a ideia é muitas vezes atrair dentro e libertar fora para criação de desequilíbrios nos corredores laterais), competência no jogo exterior, com combinações muito assertivas de 2×1 entre lateral e extremo (sempre um dentro, outro fora) e por vezes 3×2 com a incorporação de um médio vindo em cobertura mas com espaço para atacar a ruptura sempre que possível. Para chegar a esses desequilíbrios nos corredores, uma equipa paciente com bola, com capacidade para saber definir a velocidade e a intencionalidade da sua circulação e na procura dos melhores espaços para mover o adversário e criar posteriores desequilíbrios.

Ficam os vídeos em situações de transição para ataque rápido e contra ataque e também algumas partes do Bayern em ataque posicional.

 

 

José Carlos Monteiro
Sobre José Carlos Monteiro 47 artigos
Treinador de Futebol, Uefa B, com percurso e experiência em campeonatos nacionais nos escalões de formação. Colaborador como observador e analista em equipas técnicas na Primeira Liga. Alia a paixão pelo treino e pelo jogo à analise de jogo.

1 Comentário

  1. Não discordando do sentido geral do artigo, não terá sido o melhor jogo para avaliar as reais capacidades e o que realmente o Bayern faz.

    A chave para o jogo é mesmo a frase «perante um Dortmund perdido e sem reacção». O desnorte na Vestfália desde que decidiram correr com Tüchel é a nota dominante de uma temporada desastrosa. Futebol de distrital, o implementado por Pieter Bosz no início da época, seguida de uma incapacidade de Stöger em inverter o que quer que seja (apenas marginalmente a equipa joga no centro quando no meio-campo adversário) fazem desta a pior época, futebolisticamente falando, dos tempos recentes, e um BVB a perder o comboio.

    Vale aos clubes alemães o novo formato da Champions para se encherem ainda mais, mas se o BVB não começar a contratar treinadores com critério e arranjar um departamento médico à altura (a lista de lesionados, à semelhança do ano passado, daria para um 11 bastante competitivo), rapidamente passará a um clube de meio da tabela.

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