Lições de futebol – A entrevista de Vitor Severino

E é óbvio que para jogarmos o jogo que queremos jogar temos de perder poucas vezes a bola…

Num artigo absolutamente brilhante do Ricardo Ferreira, aqui, referia ele que a seguir ao número de golos, o dado estatístico mais relevante de um jogo é o número de perdas de bola. E porque o número de perdas, excepto em casos muito singulares, em que é o próprio colega que entrega em más condições e expõe quem vai receber, está completamente relacionado com a capacidade para tomar decisões, é um indicador óptimo para se perceber quem poderá ou não jogar na realidade acima. Pisar zonas de menor espaço, naturalmente que aumenta a dificuldade ao portador, ainda assim, é aí que se percebe quem tem, e quem não tem o que é preciso, mesmo que tenha potencial para um dia lá chegar. Num clube grande, então, o número de perdas é obviamente um indicador determinante para se proceder a avaliações. Por mais “desculpas” que se queiram encontrar.

O resultado valida a ideia, não é? Aquilo tem de fazer sentido para os jogadores. Não podemos obrigá-los a jogar a partir de trás só porque é a nossa ideia de jogo. Não, eles têm de se apaixonar, eles têm de gostar daquilo. E acho que nesta fase do ano eles gostam mesmo de jogar, não é preciso dizer para construir por trás, porque se alguém de repente começa a chutar para frente ouve logo umas bocas dos colegas: “Joga, mete bola no pé”. Eles têm de se ir apaixonando pela forma de jogar, mas é claro que o que valida isso são os resultados, não há como fugir aos resultados. A parte estética do jogo interessa-nos, mas os resultados é que validam essa forma de jogar. Neste momento, posso dizer que a equipa tem essa estabilidade.

Nós acreditámos sempre e nunca largámos a nossa ideia. Ajustes mais micro, isso sim, fizemos. Nós começámos, a determinada altura, a construir com três, porque achámos que fazia sentido, e no início não estávamos a fazê-lo, também porque achámos que isso exigia uma certa maturidade, uma série de coisas mais coletivas que achávamos que a equipa ainda não estava preparada para fazer. Também alterámos um pouco a nossa forma de pressionar, defendendo com mais linhas e com mais gente a chegar à frente, quando no início tínhamos apenas três linhas a defender: quatro mais quatro mais dois, com um dos médios a saltar à frente. Ou seja, foram ajustes mais micro nesses momentos, mas em termos de ideia, de como ter ou não ter bola, isso nunca mudou. E, felizmente, começámos a ter resultados.

e calhar já perdemos menos vezes a bola, já conseguíamos fazer chegá-la de um lado ao outro sem que houvesse uma quebra pelo meio… Ou seja, acaba por haver mudanças mas não quer dizer que sejam declaradas pela equipa técnica, porque uma equipa tem vida própria, não é? E a nossa foi crescendo para ter maior estabilidade, é essa a minha perceção.

or exemplo, o jogador que jogava na posição ‘seis’, que é um jogador que às vezes tem de fazer passes para trás, as reações mexiam um bocado com ele, porque eles são todos diferentes, não é? Fora de casa, já era ao contrário: se nós passássemos para trás, já havia palmas, mas eram palmas dos adeptos adversários, que gostavam que nós jogássemos para trás [risos]. Fomos desmontando isso, mas a questão emocional é muito importante, ao ponto de nós em alguns momentos termos tomado algumas decisões relativamente à equipa que jogava em casa ou fora, numa ou noutra posição, porque sabíamos que alguns deles iam ficar um bocadinho mais afetados e não iam ter estabilidade no jogo. Numa forma de jogar como a nossa, em que queremos que todos estejam constantemente envolvidos, se houver uma unidade que está mais perturbada, aquilo é um castelo de cartas na equipa. Deixa de haver ligações e começa a cair tudo.

Há dez anos no nascimento do Lateral Esquerdo, a visão era sobretudo ou branca ou preta. Ou era assim, ou estava errado.

O jogo estava muito atrasado em Portugal. A forma como se defendia, como se atacava. A importância que ainda não se dava ao jogo pensado e à capacidade para tomar decisões dos jogadores. A forma como as equipas eram o somar de várias características individuais e o jogo não se ligava, era uma marca do jogo nessa altura. Em simultâneo, eu orientava um grupo de rapazes universitários que absorviam absolutamente tudo o que pretendia e tudo o que se treinava. Tudo o que idealizava acontecia no campo. Os miúdos goleavam os jogos todos e naquele contexto em que estávamos inseridos venceríamos tudo ao longo das duas épocas que tive o prazer de os ter sob o meu comando. E sobretudo vencíamos tudo com uma equipa em que todos se comportavam cumprindo ao milímetro aquilo que EU idealizava.

Obviamente que tal experiência, mesmo a um nível amador, condicionava fortemente tudo o que acreditava. Era Deus. Tudo o que trazia e propunha acontecia. Portanto, cinzento não existia.

Que saudades… (de Jackson e de James)

Com os jogadores que fui tendo depois… percebi que não sou Deus

Vitor Pereira

O que não percebia na altura é que tal só acontecia por uma razão muito grande, que não se consegue encontrar no futebol sénior federado. Seja no masculino ou feminino, no profissional ou em divisões mais baixas. A inexistência de experiências anteriores fazia que aquele grupo que treinava não tivesse “vícios”. Em suma, eram como crianças / jovens na sua predisposição e capacidade para a aprendizagem. Somente por isso o modelo de jogo naquele grupo foi possível ser tudo o que imaginava.

Com as crianças é só montar. Mas com os adultos… não consegues desmontar… Como é que colocas um gajo que que tem vinte anos a bater na frente a sair a jogar? Eu mandava abrir para jogar e… nada. Ou abre, mas vai de costas para ninguém lhe passar a bola. Este tempo na Alemanha foi um conflito tremendo. Em vez de dar passos para a frente dava passos para trás…

Por vezes há comentários que surgem no Lateral Esquerdo, uns de regozijo, outros de lamento, que referem uma mudança. As coisas já não são brancas ou pretas. Também há cinzento.

Ninguém está tão sujeito ao erro como os que só fazem reflexões. A prática é o que afina o que pensamos.

Vitor Frade

É da experiência com uma equipa feminina na primeira divisão nacional, onde também venceria por mais de uma vez todos os troféus nacionais que disputei, que começa a surgir o cinzento.

Por isso foi tão fácil para mim identificar-me com o que Vitor Pereira e Vitor Frade referiam. O não conseguir desmontar os jogadores com experiências marcadas. Ou pelo menos, alguns deles.

No futebol feminino, porque era um grupo com um passado de jogo e de vivências já bem notório, nunca foi possível ter o modelo de jogo e todos os comportamentos idealizados. Porque simplesmente há sempre quem não cumpra. Ou por não estar disponível, ou por ser incapaz. Independentemente disso, quem é melhor será sempre melhor. Cumprindo mais ou menos. Um exemplo exagerado para que perceba. Tem o Cristiano e o Karamanos no plantel. O Cristiano não cumpre com a movimentação ofensiva, não cumpre de forma tão eficiente na ocupação do espaço, não cumpre com o estabelecido defensivamente. O Karamanos cumpre com absolutamente tudo o que o modelo de jogo pede. Quem joga? O Cristiano, obviamente! Então, há que pegar no que faz o Cristiano e começar a modelar. Ou seja, pegar no que dão as individualidades e ir modelando, integrando as individualidades no modelo. O Cristiano por vezes, não fecha o lado esquerdo? Então há que criar uma forma de o fazer, sempre que tal acontece. Porque no fim do dia, a equipa terá sempre mais hipóteses de ganhar com o Cristiano mesmo com um modelo que já sofreu algumas alterações, do que com o modelo original mas com o Karamanos a jogar.

Foi essa experiência riquíssima, que me fez entender que nem tudo fica como queremos e muito surge do que modelamos em função do que queremos mas também do que eles / elas podem e conseguem dar. A ideia original nunca é a que surge no campo porque as vivências anteriores dos jogadores assim o determina.

Eles é que jogam. Não somos nada sem eles.

Este plantel não tinha nada a ver com a minha ideia de jogo. A técnica é fundamental. Como podia ter a minha ideia de jogo se (faz o gesto de uma bola que bate no pé e não fica, mas antes vai uns metros para a frente)

Vitor Pereira

Em suma.

Se há dez anos tivesse observado a equipa do TSV do Vitor Pereira a jogar teria sido escrito algo como: O Vitor Pereira não tem competência. Aquilo está tudo errado. Os centrais não abrem. O modelo é assim, logo o treinador pensa assado. Portanto, aqueles de vocês que ainda estão ai… ou pensem ou experimentem e analisem, porque estão a ficar para trás.

Hoje, foi muito fácil perceber e entender tudo o que explicou o último treinador campeão no FC Porto. Hoje, percebo claramente que o modelo de jogo é sempre a interacção do que o treinador idealiza com o que os jogadores conseguem e querem dar! Se a equipa se comporta de forma X ou Y, tal não significa que seja essa a forma como o seu treinador vê o jogo. Porque nunca se consegue a cem por cento desmontar jogadores com experiências anteriores relevantes. E porque tantas vezes os que cumprem com tudo são ainda assim inferiores e a equipa fica menos apta a vencer, do que utilizando os que não cumprem.

Gosto de pensar no jogo e gosto muito de pensar no treino, isso é a parte que me dá mais prazer, é preparar a semana, preparar a estratégia para jogo e, claro, o dia de jogo. Mas o dia de jogo é muito… é muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, na parte emocional

A capacidade que a escola portuguesa tem para pensar no treino para que se chegue ao jogo, tem paralelo com poucas outras a nível mundial. E se hoje cada vez mais tantas outras se aproximam, tal deveu-se à forma como vários treinadores portugueses mostraram e abriram o caminho. Do treino, da estratégia, do pensamento, do cérebro!

O guarda-redes sabe perfeitamente o que tem de fazer, a linha defensiva também sabe como se comportar com a bola coberta ou descoberta, com a bola no corredor central ou lateral, mas de repente há ali um que falhou e é um castelo de cartas, depois olhamos e a linha já está toda deformada. Às vezes um erro micro põe em causa um plano mais macro.

Quantas vezes após um erro de posicionamento se ouvem críticas facto do treinador X ou Y não saber organizar a sua equipa da maneira X ou Y, após um erro? Na verdade, é um jogo de jogadores, e cada vez mais com a informação disponível para todos, tal é acentuado. Há dez anos atrás, quando defendia por cá os conceitos tácticos que hoje podemos observar nos campos da primeira liga em Portugal, era óbvio que não havia treino ou conhecimento na maioria das realidades, e os erros aconteciam por falta de coordenação colectiva. Hoje, em praticamente todas as equipas da Liga, é o individual que provoca o erro no colectivo. Ou que exponencia a ideia!

Vamos vendo outras equipas a jogar e vamos discutindo: “Ontem vi esta equipa a construir de determinada forma”. O Borussia Dortmund, por exemplo. Depois faço uns cortes em vídeo para os outros verem. E depois podemos utilizar ou não, mas vamos discutindo aquilo.

Cada vez mais ser treinador exige disponibilidade para se poder manter actualizado e ao corrente de novas tendências tácticas. Estar no topo e por lá continuar, exige também, este tipo de cuidados, e sobretudo de humildade para se perceber que o melhor treinador, também bebe dos outros.

E algumas delas têm formas de jogar distintas, mas tanto me dá prazer ver o Liverpool como o City. Claro que me identifico mais com a forma de jogar de uma, mas também gosto muito de ver a outra jogar.

Ou seja, esta não é a ideia de jogo que eu acho que deve ser jogada, é uma ideia de jogo que pode ser jogada. Em qualquer contexto. Como gosto dela, não vou largá-la. Até porque não saberia treinar de outra forma. Imagina que tinha de abdicar da minha ideia. Não estou preparado para pensar no jogo dessa forma. Porque todos os nossos exercícios, dos mais micro até aos mais macro, refletem aquilo que é nossa ideia. Às vezes temos essa discussão na equipa técnica: “Se jogássemos de outra maneira, com um bloco baixo e de forma direta, como é que íamos treinar? Que exercícios fazíamos?

Mas também tens de fazer exercícios. Fazes o quê? Nós fazemos imensos jogos posicionais, de posse, pequenos, maiores, sei lá, alternamos muito entre o grande e o pequno, também para haver ali um bocadinho de caos organizado. Portanto, não sei o que faríamos [risos]. Não estou a dizer que é mau, atenção, estou é a dizer que para nós seria difícil. Teríamos de instalar um software novo e logo se via. A verdade é que a minha profissão é treinador de futebol, não é treinador de futebol com a ideia de jogo ‘A’.

Recordo um jogo determinante aquando da minha passagem pelo futebol feminino, que viria a ser decisivo para a conquista da Liga. Episódio já relevado aqui:

Partilho com vocês, a forma como no meu último ano como treinador no futebol feminino preparámos um jogo que viria a ser decisivo na conquista do título nacional. Depois de duas derrotas (as únicas na época) contra o mesmo adversário, uma equipa que esperava sempre no seu meio campo pela nossa construção apoiada, e que nos venceu ambos os jogos com uma bola que perdemos na construção, para então disparar as duas atacantes mais rápidas da Liga (uma é a que está nos vídeos virais que temos partilhado, e a outra joga hoje no Sporting), cabia-nos preparar o terceiro confronto da temporada contra o mesmo adversário, agora na fase final. Depois de termos perdido os dois anteriores exactamente da mesma maneira. Se entrássemos sem mudar um milímetro ao nosso jogo, não era somente a possibilidade de voltar a perder a bola com meio campo para correr para as duas melhores individualidades da Liga, que pesava. Era o facto de as pessoas que esperam que lhes indiquem o caminho, sentirem que íamos para a terceira vez contra o muro. Nesse jogo específico, na casa do adversário, mudámos a construção, não perdemos uma bola no meio campo defensivo, e pela primeira vez vencemos o nosso opositor. Com um estilo de jogo menos atractivo. Entre nós comentámos: “… que ninguém tenha visto este horror”. Para dentro, um “já fizemos o trabalhinho sujo, agora é voltar a jogar”. Poucas semanas depois comemoraríamos mais um título de campeão nacional!

Muitos vós dirão, ou pensarão que não requer treino, ou que não é preciso pensar demasiado para sair o exercício quando a ideia é sair a jogar directo. Nada mais errado, como tão bem explicou Vitor Severino. Na verdade, naquele dia, foi talvez o treino que mais dificuldade tive para preparar em toda a minha vida. Porque dentro das ideias que concebo para que um exercício tenha qualidade (tempo de empenhamento motor – número de repetições – oposição – aproximação à realidade do jogo), não consegui objectivamente encontrar nenhum exercício que pudesse ao mesmo tempo preparar a equipa para uma construção directa, e que fosse um exercício capaz de reunir os requisitos para ter qualidade. Foi um treino e um exercício tão fora do comum, e tão desconfortável para mim próprio, que na sua explicação senti-me na obrigatoriedade de referir que fazermos aquele exercício era um mal necessário, que seria um exercício sem andamento, mas que não iríamos perder muito tempo nele, e que rapidamente, logo que assimilados posicionamentos, mudaríamos para outro!

Provavelmente teríamos de adaptá-la um pouco. Existe um património histórico e cultural de um clube e depois tem também a ver com os jogadores que lá estão.

Sobre a adaptação, o Artur dissecou aqui a fantástica entrevista de Unai Emery, que explicou que até a forma como se veste e gesticula importa.

Provavelmente teria de haver alguns ajustes, mas é como te digo: os pilares podem sempre ser os mesmos, depois o resto da ‘casa’ é que pode ser construído de forma diferente. Nós já o fizemos, por exemplo, no ano passado, no Rio Ave: tínhamos, por exemplo, o Gil Dias e o Rúben Ribeiro a jogar por fora. E o Rúben era um jogador de procurar muito mais espaços interiores – e o Rafa andava por fora – e o Gil não, porque o Gil era um jogador de pouco toque e pouco envolvimento, e nós respeitávamos essas características, porque também trazia coisas boas à nossa ideia. Agora, este ano, já jogamos com dois alas que são mesmo alas.

Sobre o Modelo de Jogo, o reforçar de algo já cá muito falado. O quanto importa os jogadores, e a forma como estes contribuem para o modelar! Por isso Severino mencionou o facto de as equipas terem vida própria!

O Modelo de jogo tem uma relevância muito grande… é uma espécie de antecipação do que pretendemos com princípios e tendências do que queremos que surjam nos diferentes momentos do jogo. O modelo pode ajudar a essa construção, mas não determina o processo. Muitas vezes aprendemos que os jogadores mudam o modelo, e o vão reconstruindo

Júlio Garganta

Quantas vezes se tende a criticar um treinador porque quando jogam jogadores diferentes há comportamentos diferentes? Quando na realidade, tal é a marca do melhor modelo. A integração do que cada um pode e consegue trazer para o jogo da equipa. Porque os jogadores não são robots, há um sem número de vivências e características próprias que trazem que são “cunhos” pessoais que devem ser aproveitados, ou escondidos e protegidos se se tratarem de debilidades. Um modelo de jogo não pode pedir o mesmo a dois jogadores diferentes que se revezam na titularidade ou no jogo, se eles não são jogadores iguais. Embora defensivamente seja mais fácil modelar do que ofensivamente…

O modelo de jogo não é uma espécie de uma base de puzzle perfeito onde apenas se tem de encaixar as peças. É algo que tem de se sistematizar aproveitando as características de cada peça. É algo que se constrói e que não está anteriormente feito! Mesmo nos clubes mais ricos que podem satisfazer todo e qualquer pedido de transferência dos seus treinadores, tal é falível, porque o próprio treinador só percebe verdadeiramente o que pode e “quer” dar cada elemento depois de trabalhar com ele!

O modelo é um mapa, mas não o podes confundir com o território. São coisas diferentes. Quando passas do mapa para o território as coisas mudam bastante. No mapa nada acontece. O território é algo vivo! Aí temos problemas, temos de tomar decisões e actuar a cada instante.

Entender o modelo de jogo como algo fixo e inamovível seria cair em determinismo…

Seria contraproducente. Cairíamos num determinismo nocivo. Antecipar completamente o final é não deixar crescer e não acreditar nas possibilidades de evolução dos jogadores e dos jogadores ao longo do processo de treino e da competição… A abertura do modelo é fundamental para que este viva. Um modelo fixo e inamovível prejudica em vez de te beneficiar

Júlio Garganta

Claro que há coisas que lhes agradam menos e coisas que lhes agradam mais, em termos de exercícios de treino, mas nós também temos de ter essa perceção deste lado, as coisas têm de fazer sentido para eles do ponto de vista emocional. Não podemos fazer exercícios para obrigá-los a fazer determinadas coisas. Aquilo tem de fazer sentido para ele

Também muito recentemente, o “Vialli” falou sobre a importância do que Vitor Severino revela:

“Unai entendeu que havia jogadores que devido à sua qualidade técnica, eram mais importantes para a estrutura do PSG do que o seu próprio papel com treinador e adaptou-se a essa situação. Aqui está a razão de Zinedine Zidane ser bem sucedido no Real Madrid. Apesar de todas as críticas que tem recolhido sobre o jogo da equipa que vai para a terceira final da Champions League seguida.

Há jogadores que me explicaram: Zidane é o melhor treinador para nós porque nos entende. Todos estamos contentes com ele e sabemos que nos momentos importantes, não podemos falhar. Podia ser melhor? Claro, porque não são constantes. Zidane sabe o que os jogadores querem e faz o que é preciso para os deixar contentes. Eles estarem contentes, às vezes, faz com que estejam relaxados e isso aconteceu na Liga, por exemplo. Mas exige intensidade na Champions.

No meu primeiro ano como analista de futebol, perguntei ao treinador: “Este treino de finalização é básico. Não tem complexidade nenhuma. Porque é que continuas a fazer isto?”

Ao que ele me responde: “Se fosse por mim não o fazia mas eles divertem-se com isto. Deixa-os relaxados. Dou-lhes exercícios que eles gostam para depois exigir deles o máximo. É dar e receber. Não faço tudo o que gosto, eles são os protagonistas.”

Os excertos das declarações de Vitor Severino foram retirados daqui.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3383 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

5 Comentários

  1. É pá, vocês estão a subir demasiadamente o nível aqui no tasco. Parem lá com isso 😀 Pedro, que grande post!! Incrível mesmo. Parabéns, a ti e a toda a malta deste projeto.

  2. Maldini: antes de mais, obrigado pelo texto. Quem acompanha a página já foi percebendo e coleccionando esses pontos ao longo do tempo, mas fica aqui mais uma vez sublinhada essa linha.

    Não vejo grande contestação ao ponto de que nem sempre é possível transpirar toda uma ideia de jogo de forma perfeita para os jogadores, e que disso resultarão necessários ajustes. E também me parece bastante compreensível que o trabalho das equipas técnicas é complexo, envolvido em inúmeras limitações, e também por isso acessível apenas a alguns. Onde eu acho que há um ponto de conflito é na forma como estes pressupostos devem condicionar a nossa análise do jogo. Pegando no Real Madrid como exemplo: vou arriscar que a esmagadora maioria dos habituais visitantes aqui do site concordará que a qualidade individual é um factor determinante e que ‘jogar com os melhores’ é muitas vezes o suficiente para ganhar grande parte dos jogos. Mas, e se na nossa análise conseguimos identificar repetidamente falhas defensivas e dificuldades em controlar o jogo? Mesmo considerando que as individualidades condicionam a ideia colectiva, e que o Zidane tem uma tarefa difícil que muitos de nós nem sequer estamos qualificados para chegar lá perto, e outros tantos pressupostos, não fará sentido apontar o dedo a isso e explorar? Afinal de contas, esse é um dos hábitos que vocês e outros blogues nos reforçaram ao longo de todos estes anos: olhar para o jogo de forma mais atenta e exigente. Muitos de nós olham para o jogo e identificam falhas, outros até se atrevem a imaginar soluções teóricas. Isto não quer dizer necessariamente que o Zidane é uma merda, e muito menos que nós somos melhores do que ele ou do que o outro. Há todo um cinzento aí pelo meio. E, a mim, parece-me bastante razoável que se questione sobre as dificuldades do Real Madrid. Ou do Man Utd. Porque elas existem e muitas vezes permitem que várias equipas de qualidade individual bastante inferior consigam dividir o jogo. Apontar o dedo a isto e tentar trocar ideias sobre estes pontos não nos leva necessariamente para o campo de guardiolistas fundamentalistas ou de pessoas que estão a rejeitar outras formas de ver e jogar ou atrasados no tempo.

    Como há observações mais excitadas que partem logo para a conclusão que isto ou aquilo é automaticamente merda porque não está a resultar, por vezes apontar o dedo a quem identifica e quer falar sobre dificuldades ou falhas colectivas também pode funcionar como a outra extremidade da ferradura. E se as duas extremidades estão a focar grande parte da atenção entre si, tudo o resto que está no meio acaba por ficar fora da conversa.

    Por exemplo: levantam-se muitas dúvidas na minha cabeça quando oiço ou leio considerações sobre este Real Madrid como uma das melhores equipas dos últimos anos (para não pegar noutros exageros), porque vejo dificuldades sistemáticas da equipa a defender e a controlar os jogos. Uma forma de responder a esta minha comichão seria catalogar-me como parado no tempo ou guardiolista ou que não tenho acesso à prática por isso não sei nada ou outra coisa qualquer. Ou pior: relembrar-me que o Real Madrid conquistou isto e aquilo e que os resultados falam por si (o que me parece ir contra um grande leitmotiv desta página). Outra forma de responder seria confrontar-me com os meus erros de análise e mostrar que de facto essas dificuldades não existem, ou são irrelevantes. Se alguém se quiser prestar a esta última abordagem, ou apontar-me a caminhos já trilhados, sou todo ouvidos. Eu e muitos dos duvidosos que por aí andam espalhados.

    • muito bom comentário, exigia da minha parte mais tempo para responder bem! De forma rápida, ninguém disse que o Zidane tinha uma organização táctica de topo. O que se disse é que no ano passado jogavam muito, e jogavam! mesmo muito! E que ele tem mérito nisso. abraço

    • Brilhante comentário e que expõe muito daquilo que penso sobre a evolução do Lateral esquerdo.

      Se por um lado, percebe-se claramente uma evolução do pensamento do Maldini, moldado pela prática no terreno e sendo menos purista, isto nunca me mereceu grande critica nem confusão, porque os textos continuam a ser bons da parte do Maldini, porque mesmo quando não concordo, a maioria das vezes argumenta bem e tem sempre coisas para nos fazer aprender e refletir ( como este brilhante post) e percebo também tal evolução no sentido de se terem formados muitos puristas de um estilo e um método ( critica que até percebo e às vezes enfio a carapuça) e se querer um bocado romper com isso e mostrar que se pode fazer bem e diferente, porque se pode mesmo como tem sido demonstrado.

      O que menos gosto nesta evolução, é que há posts que claramente surgem porque determinado jogo ficou com um determinado resultado e que não têm nada a ver com o que se passou em campo e gosto também que se tenha perdido muito da discussão que havia no formato blog, onde eram sempre imensos os comentários, e isso é provocado não só por haver muitos mais posts o que dispersa a discussão, mas também por alguma arrogância que dantes nunca se via por aqui, sendo repetido até à exaustão que não treinas por isso não percebes. Se percebo que esse argumento seja possível de usar em certas situações, era muitas evitável e ganhavam mais em desmontar os argumentos pelo que neles é dito e não recorrendo a isto.

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