Tudo tem um fim… ou um novo princípio. Rui Faria enquanto sistema complexo.

“«Muito obrigado por me teres dado este contrato, muito obrigado por me teres trazido para Barcelona, muito obrigado por teres mudado a minha vida». O meu trabalho e a minha dedicação são a minha forma de gratidão. Eu nunca senti, em nenhum momento, que lhes devia alguma coisa. Quando decidi ser treinador principal e vir embora, nunca pensei que estava a ser incorrecto. Não lhes devo nada, paguei-lhes tudo, e por isso senti-me sempre livre para decidir. Se sentisse que não tinham pernas para andar sem mim, se calhar hipotecava um ano ou dois da minha independência. Era capaz de o fazer. Mas eles não precisavam de mim para nada. Tanto um como outro disseram: «Tu estás preparado».”

(José Mourinho, 2003) a propósito do seu percurso como treinador assistente de Bobby Robson e Van Gaal no Barcelona

Tornou-se uma curiosidade na equipa técnica liderada por José Mourinho. Iria Rui Faria acompanhar Mourinho até ao fim? Em vários momentos afirmou a sua felicidade e satisfação na função de treinador assistente e consequentemente a indisponibilidade em abandonar a equipa técnica e iniciar um percurso como treinador principal. Pouco crível para muitos, mas legítimo. Neste contexto, em 2012, (Miguel P., 2012) questionava se “Rui Faria não pode simplesmente… gostar de ser treinador adjunto? Há algum mal nisso? Nem toda gente que “vai para treinador”, quer ser treinador principal. Se ele se revê na metodologia de treino e na liderança do Mourinho, se sente que é útil, se o próprio Mourinho faz questão de dizer várias vezes que o Rui Faria é fundamental. Ele pode muito bem querer continuar com as funções que tem”. Durante muito tempo partilhámos esta opinião e que as pessoas, independentemente do contexto, perante a felicidade, procurarão eternizá-la.

Porém, à luz do pensamento complexo, a autora (Ana K R, 2009), sustenta que “há a convivência da ordem, desordem e organização, sem uma anular a existência da outra”. Rui Faria conviveu e foi feliz com essa “ordem” resultante do trabalho e convivência na equipa técnica de José Mourinho. Porém, como ser complexo que é, mesmo vivenciando uma sensação de equilíbrio, a sua natureza solicita-lhe um novo estímulo, neste caso, um novo desafio. É no fundo, o que exactamente se passa no processo de treino e a sua interacção com os jogadores. Portanto, e reforçado a ideia pela teoria do caos, o ser humano nunca está verdadeiramente em equilíbrio. Pequenas perturbações estão sempre a afectá-lo e podem mudar por completo o estado geral do sistema, podendo levá-lo ao desequilíbrio ou à sua necessidade. Ilya Prigogine, citado por (Esteves, 2010), refere que os sistemas complexos não podem evoluir (gerar novos padrões) em estados de equilíbrio ou próximos do equilíbrio”. Por isso, para (Manuel Sérgio, 2012), “o ser humano é imprevisível, é por isso que ele é complexo, o que significa ser complexo? No fundo é porque dentro dele também há ordem e desordem, também há certeza e incerteza, é por isso que ele é complexo”. Rui Faria, estará portanto, à procura de um nível superior de complexidade, ou na perspectiva do treino, de adaptação.

“Se o sistema permanecer em equilíbrio, ele morrerá. O “longe do equilíbrio” ilustra como sistemas que são forçados a explorar seu espaço de possibilidades vão criar diferentes estruturas e novos padrões de relacionamento.”

(Nicolis e Prigogine, 1989)

“17 anos… Leiria, Porto, Londres, Milão, Londres de novo e Manchester. Treinar, viajar, viajar, estudar, rir e também algumas lágrimas de alegria. 17 anos e agora a criança já é um homem. O estudante inteligente é um especialista de futebol, pronto para uma carreira bem sucedida enquanto treinador. (…) Vou sentir a falta do meu amigo e essa é a parte mais difícil para mim, mas a sua felicidade é mais importante e, claro, respeito a sua decisão, especialmente porque sei que vamos estar sempre juntos. Sê feliz, irmão.”

(José Mourinho, 2018) sobre Rui Faria

 

Bibliografia

Sobre Ricardo Ferreira 23 artigos
Apaixonado pelo jogo desde a infância, foi o professor Silveira Ramos, na especialização em Futebol, que lhe transmitiu o mesmo sentimento pelo treino. Teve experiências como treinador e coordenador na Academia de Futsal de Torres Vedras, Paulenses (Futsal), Torreense, A-Dos-Cunhados e Sacavenense. É coordenador de zona no recrutamento do Sporting Clube de Portugal. É ainda fundador do projecto www.sabersobreosabertreinar.pt.

5 Comentários

  1. A tristeza da pseudo intelectualidade. Deu-lhe a metáfora para o Prigogine, podia-lhe ter dado para a física quântica – ‘a múltipla existência de Rui Faria’ – ou para a relatividade – ‘o espaco-tempo de Rui Faria’. Com a certeza que qualquer faria o mesmo pouco sentido e sairia assim, em bicos de pés e colada com cuspo. God bless him

    • Habitualmente, não respondo a comentários, muito menos da natureza que o seu foi feito. A roçar a ofensa, escondido atrás de um perfil anónimo, se calhar toldado por outras motivações que não o assunto em causa. É também por isso que não tenho comentários abertos no projecto que desenvolvo. Mas estou sempre disponível, a quem quiser dar a cara e estiver disposto a discutir de forma saudável, a abordar qualquer assunto no âmbito do projecto, através de email. Já o fiz por diversas vezes.

      Mas desta vez, abro a excepção, e correndo o risco de ser uma pura perda de tempo.

      Podia, de facto ter usado várias metáforas. Contudo aqui nem se tratava de uma metáfora, mas de uma possível explicação da realidade na perspectiva destas áreas cientificas. Se estou longe na interpretação das mesmas? Possivelmente. Não sou especialista nestes domínios, mas tenho sobre eles bastante curiosidade. Portanto leio e pesquiso sobre o assunto, porque há alguns anos para cá acredito que a base do entendimento da realidade, e consequentemente da realidade específica do Futebol, encontra-se “por aqui”. Mas no seu comentário, também não vi a justificação para que a minha interpretação fosse descabida. E é por aí que começamos. Com a crítica ao conteúdo e não com comentários fúteis e agressivos sobre a motivação do texto. Espero então, que me dê mais luz sobre o assunto.

      Finalmente, sobre a pseudo-intelectualidade. Ou a própria intelectualidade. Não sei que esses rótulos significam. Quando, ou em que quantidade, ou qualidade de conhecimento, alguém é considerado intelectual, pseudo-intelectual, senso-comum, ou idiota? Que pessoa ou entidade avalia isso? Nessa sequência, quem pode ou não escrever sobre determinado assunto? Mas posso-lhe afirmar que não me pretendo inserir em nenhum. O meu objectivo é outro e é simples: procurar e desenvolver mais conhecimento e ajudar outras pessoas que têm o mesmo objectivo.

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