Tenham juízo – O futebol formação por Luís Castro

O nosso know-how, que levou vantagem durante anos e anos sobre outros países, era formar com excelente perspetiva tática e técnica, como treinar para jogar de determinada forma. Hoje o mundo já o domina. Temos de ter algum cuidado, pois podemos hipotecar o que fizemos até hoje.

 

Defendi sempre, enquanto líder de processos, recrutar pessoas com bons valores de vida, que respeite os outros e tenha muitos valores educacionais. Este é o principal pressuposto para recrutar alguém.

Depois, é necessário ter a formação para ocupar cargos. Mesmo que não consiga dominar a dinâmica por completo, é nossa obrigação ensinarmos e dizermos o que queremos. É muito mais fácil ter gente boa à nossa volta e que estejam disponíveis para aprender do que alguém que já aprendeu tudo e sabe tudo e que a nível de valores humanos não é uma pessoa respeitável e cria mau ambiente. Eu prefiro começar ao contrário: pelos valores humanos e educacionais e ir para o profissional. Há quem prefira o contrário.

 

Ensinavam-me a respeitar alguém que queria ganhar como nós e isso de respeitar quem está do outro lado e quer ganhar tanto ou mais do que nós é muito difícil. Isso tem regras. Eles ensinaram-me a respeitar alguém que dirigia o jogo, que era o árbitro. Ensinaram-me a respeitar o treinador. Ensinaram-me um conjunto de caminhos muito importantes na minha vida.

 

Devemos olhar também para a política desportiva de cada clube e perceber que não é através de desporto pago pelos jogadores que criamos um desporto mais saudável. O princípio está logo errado, porque quem paga tem direito a, mas o futebol não é “quem paga tem direito a”. No futebol é assim: quem joga bem, deve jogar mais tempo; quem joga bem, deve ter espaços que tenha à volta jogadores que joguem bem; a meritocracia deve estar sempre presente dentro de todo e qualquer processo formativo.

 

Eu disse muitas vezes que o perigo está nos vencimentos que cada treinador tem por ocupar determinada posição. Se os sub-13 fossem pagos da mesma maneira que os sub-19, ou ainda melhor, se calhar não haveria essa tentação. O melhor treinador para os sub-13 deve ser muito bem pago. O treinador que tem melhores competências para treinar os sub-9 deve ser muito bem pago. Devia ser feito de forma uniforme, talvez, para acabar com essa tentação de subir para ganhar mais. Tem de estar onde tem mais competências. Quando um treinador tem bons resultados nos sub-11 quer ir logo para os sub-15. Se tem nos sub-15 quer ir logo para os sub-19. E depois eles com 27, 30 anos já querem ser treinadores da Primeira Liga.

 

Há uma avidez pela escalada que pode ser fatal para o futebol de formação. Tem de haver extremo cuidado na escolha de recursos humanos para cada escalão. Deve haver um cuidado tremendo no olhar sobre esses treinadores, dar-lhes condições para desenvolverem o seu trabalho, quietá-los. Eles são muito inquietos, os treinadores de hoje em dia, naquilo que é a sua escalada. Olham sempre para cima, nunca para baixo. É perigoso para o futebol de formação. Assim como a formação deficiente dos treinadores, em termos de oportunidades para adquirirem conhecimento. Não é só com o curso nível 1, 2, 3 ou 4… Há um mundo para além dos cursos que tem de ser tocado por todos nós.

Mais uma brilhante entrevista de Luís Castro ao Notícias Magazine, tocando em diversos pontos que já por mais de uma vez foram abordados por cá. Da evolução táctica que torna hoje necessário perceber a importância de outras variáveis outrora menos importantes no desenrolar do processo, o civismo, e a dificuldade de em Portugal se perceber que há sempre adversário do outro lado, e que o jogo não se joga nem se desenha apenas com base no que uma das equipas faz ou não faz, da formação e das suas dificuldades crescentes, aos problemas que os treinadores de jovens sentem, mas também colocam em quem tentam formar, por uma avidez de estatuto. Não deixe de ler tudo aqui.

4 Comentários

  1. Não posso estar mais de acordo. No futebol sou apenas um adepto curioso e apaixonado pelo jogo, na minha área profissional de actividade acredito e sigo o mesmo princípio: no momento de recrutar elementos para a minha equipa valorizo sobretudo a educação, a empatia e a humildade / disponibilidade para apreender. Acredito que o saber técnico se possa apreender desde que existam instrumentos de base que o permitam. As condições humana e social têm de estar lá antes, tudo o resto se pode construir em cima disso. Fantástica referencia. Obrigado pelo link para mais uma demonstração de saber do Luis Castro.

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