O exercício de treino… na perspectiva da terceira pessoa… e a intervenção na sua operacionalização

“A intervenção do próprio treinador também é contexto!”

(Marisa Gomes, 2015)

Assistia-se a um exercício de treino. Procurando analisar o mesmo, várias pessoas opinavam sobre o seu objectivo e organização. No entanto, ignoravam uma dimensão fundamental na sua operacionalização… a intervenção do treinador. Sem este dado, todas elas podiam estar certas… ou erradas. Isto, porque tratando-se de um exercício que respeite as características do jogo, mesmo que represente apenas numa fracção do mesmo, será consequentemente, um exercício rico em comportamentos, assim, posicionando-se externamente ao processo, diferentes pessoas podem-lhe atribuir diferentes objectivos.

Assim, perante o “mesmo” exercício, alterando-lhe “apenas pequenas” coisas, como por exemplo a forma ou o momento como ele se inicia, este poderá servir objectivos de planeamento muito distintos. No fundo, para sermos correctos, na verdade já não será o mesmo exercício, nem sequer uma sua variante se o analisarmos na perspectiva dos objectivos. A este propósito, (Maciel, 2011), explica que na concepção do exercício “modela-se os contextos para que estes, não perdendo a sua natureza aberta, sejam facilitadores e catalisadores dos propósitos desejados. Em tais configurações de exercitação o papel principal é dos jogadores, devem ser eles a decidir e a interagir, desencadeando uma dinâmica que não deixando de ser determinística, por estar sobredeterminada a determinados propósitos, intencionalidades, não perde a dimensão imprevisível”. Jorge Maciel reforça que a ideia de propensão tem a ver com o facto de ser mais propício ou provável a ocorrência de determinado acontecimento, no caso do treino de Futebol, determinada interacção. Daí a ideia de modelar o contexto no sentido de tornar mais provável aquilo que se deseja que aconteça. Um aspecto relevante prende-se com o facto de ter de ser deliberadamente propenso, isto é, deve ter subjacente uma intencionalidade ou conjunto de intencionalidades conformes com o modo como queremos que a nossa equipa jogue e conforme as preocupações que entendemos mais prioritárias naquele momento do processo”. Importa salientar que, se o exercício de facto expressa a riqueza do jogo, a oposição será à partida garantida, portanto, o objectivo de planeamento estará numa das equipas / jogador, porém, a equipa / jogador adversário também estará a ser estimulada/o noutros comportamentos.

É deste modo que a intervenção do treinador na operacionalização do exercício se torna fundamental, por forma a incidir o foco, a concentração, para determinado comportamento ou acção, ou melhor, como explica Maciel… interacção. A sua intervenção, a sua expressão corporal, a sua emotividade, o seu feedback, ou mesmo a intencional ausência do mesmo, torna-se decisiva no processo aquisitivo, ou, no conceito mais generalista… na adaptação que o estímulo mesmo provoca no jogador. Na mesma linha de pensamento, Maciel acrescenta que “somente deste modo se torna possível que a configuração dada ao contexto, juntamente com uma intervenção condizente durante a exercitação, despoletem interacções que ao acontecerem façam emergir de forma exponenciada os critérios subjacentes aos nossos princípios de jogo. (…) Destaquei também o papel da intervenção, porque é esta que conjuntamente com a modelação do contexto que vai servir de catalisador e de meio para aproximar os critérios que os jogadores manifestam com os desejáveis para a forma como queremos jogar“. Também (Campos, 2007), defende que “Se tivermos que fazer essa intervenção e parar imediatamente o exercício para fazer perceber claramente que algo é errado, que algo não está correcto ou que algo pode ser importante, também não é só quando as coisas acontecem de negativo é também quando elas acontecem de positivo (…) “. Portanto, o autor acredita que “a focalização da atenção dos jogadores é direccionada pela configuração prática do exercício e por uma intervenção do treinador centrada nos aspectos hierarquicamente mais importantes”.

Como defendemos, esta intervenção não será uma qualquer, nem sobre a totalidade dos comportamentos que emergem do exercício. Deverá ser específica relativamente ao objetivo pretendido, principalmente na perspetiva do treinador que lidera o exercício. Neste contexto, (Casarin, et al., 2010), sustentam que a intervenção do treinador deve “fazer com que uma palavra signifique mil imagens” para o jogador e isto só se constrói com intervenção específica e constante durante o processo de treino”. Também para (Azevedo, 2011), “mesmo que os exercícios estejam em sintonia com o modelo de jogo, se não existir intervenção ou se esta não for adequada, eles podem tornar-se desajustados”. Citado por (Romano, 2007), Vítor Frade (2003, cit. por Martins, 2003), defende existir a necessidade de ser interventivo antes, durante e depois do processo.” Romano reforça assim, que “em primeiro lugar, parece importante a formação de uma «intenção prévia», de modo a antecipar a activação do córtex pré-frontal (Goleman et al., 2002). Interessa portanto, antes de iniciar o exercício, defini-lo claramente, assim como os objectivos que, através do mesmo, se pretendem alcançar, já que, de acordo com Goleman et al. (2002), quanto maior for a activação antecipada maior é a capacidade da pessoa para executar a acção. Posteriormente, durante o exercício, a intervenção do treinador é também ela decisiva. Ela pode (e deve) condicionar um exercício para os aspectos que se pretendem trabalhar, através de uma intervenção específica, centrada nos princípios que se pretendem abordar. Carvalhal (2003; 2005) afirma que o mesmo exercício pode ter objectivos diferentes consoante o momento, e que a forma como o treinador o conduz e direcciona é que é fundamental”.

Assim, desconhecendo o planeamento do treinador, sem a sua intervenção na operacionalização do mesmo, será uma tarefa extremamente difícil, e perigosa na perspectiva da avaliação do trabalho realizado, procurar identificar os objectivos e consequentemente o sucesso de determinado exercício ou sessão de treino.

“(…) a edificação do Modelo de jogo, dos vários momentos do jogo e a Especificidade é conseguida através dos exercícios propostos pelo treinador e pela sua intervenção nos mesmos.”

(Pedro Batista, 2006)

Só faz sentido existir o treinador se este for interventivo, mas interventivo no sentido de catalisador da apreensão de tudo aquilo que é conveniente e importante para o crescimento do processo.

(Vítor Frade, 2003)

 

Bibliografia

Sobre Ricardo Ferreira 22 artigos
Apaixonado pelo jogo desde a infância, foi o professor Silveira Ramos, na especialização em Futebol, que lhe transmitiu o mesmo sentimento pelo treino. Teve experiências como treinador e coordenador na Academia de Futsal de Torres Vedras, Paulenses (Futsal), Torreense, A-Dos-Cunhados e Sacavenense. É coordenador de zona no recrutamento do Sporting Clube de Portugal. É ainda fundador do projecto www.sabersobreosabertreinar.pt.

3 Comentários

  1. Boas… Excelente artigo!

    Relativamente a esta parte:

    “Romano reforça assim, que “em primeiro lugar, parece importante a formação de uma «intenção prévia», de modo a antecipar a activação do córtex pré-frontal (Goleman et al., 2002). Interessa portanto, antes de iniciar o exercício, defini-lo claramente, assim como os objectivos que, através do mesmo, se pretendem alcançar, já que, de acordo com Goleman et al. (2002), quanto maior for a activação antecipada maior é a capacidade da pessoa para executar a acção. ”

    O VP, no congresso da Per. Tática, falou que antes dizia claramente para que é que o exercício servia, o que se pretendia promover com o exercício, mas deixou de o fazer, porque por vezes os jogadores (sobretudo num nível já elevado) fazem coisas que ele não estava à espera, não previa, e que isso não deve ser cortado.

    Qual o teu comentário sobre isto?

    • Boa noite. Obrigado, e retribuo o elogio… excelente questão.

      A resposta mais óbvia… seria… depende do contexto. Mas temos que ir além disso. Se a questão é a escolha entre um exercício construído num regime de aprendizagem em Descoberta Guiada ou outro, mais dirigido, em que claramente o treinador procura definir objectivos, metas, critérios de êxito… penso que sim, dependerá muito do contexto. Do conhecimento e qualidade dos jogadores nesse comportamento, do momento da época, se é um exercício introdutório, aquisitivo ou de consolidação, entre outros critérios.

      Se a questão prende-se “apenas”, perante um exercício dirigido, com a quantidade de informação sobre o “como fazer” e não com “o que fazer”, que o treinador avança durante a sua explicação, concordo em absoluto com o Vítor Pereira. Definir o “como fazer” inibirá não só a decisão, como castrará a criatividade e o nascimento de uma nova solução para o problema que nem o próprio treinador antecipava. E por mais ou menos conhecimento que tenhamos, treinadores e jogadores, todos temos que ter consciência que devemos estar sempre em “regime aquisitivo”.

      “O exercício não pode ser castrador. Não pode ser limitativo. Não pode ter muitos constrangimentos. Quanto mais direcionador for o exercício, e quanto menos necessitar da intervenção do treinador, melhor”. Tal como o Vítor Pereira defendeu no mesmo congresso, por vezes penso que o melhor exercício é aquele que não necessita da intervenção do treinador no seu decorrer, para que leve os jogadores ao objectivo desejado. Assim, é aquele que apenas necessita que lhe descrevam as regras, ou como diz o Vítor Pereira, os constrangimentos. Simultaneamente também estou de acordo com o Vítor Pereira sobre a questão dos constrangimentos. Quanto mais constrangimentos… menos Futebol é, mais se afasta do jogo, das suas regras, da sua especificidade, e mais obriga as equipas a cometerem “erros” ou a desfasarem-se do jogo, mesmo que se aproximem de outros comportamentos desejados. Deste modo, na receita do exercício, é necessária uma grande dose de conhecimento e consciência sobre o próprio jogo, do objectivo traçado, de criatividade do treinador e do equilíbrio entre tudo isto. E à mistura, ainda há todo um contexto a ter em conta.

      Voltando à intervenção, também concordo com o Vítor Frade… professor do Vítor Pereira. O treinador deve ser um catalisador do processo. Portanto, talvez o cenário do exercício equilibrado, passe, na sua explicação pela descrição das suas regras, momentos e sub-momentos do jogo em causa e objectivo geral. E depois que este leve os jogadores ao objectivo desejado. Independentemente da forma como tal sucedeu. Claro… sem comprometer o equilíbrio da equipa no resto do seu jogo. E nesse momento de sucesso o treinador deve intervir, por vezes… emocionalmente, de forma a vincular de forma mais profunda o comportamento obtido… de forma a criar hábito.

      • Confesso que já não me lembro muito bem o que o VP disse, mas penso que ele se estava a referir aos objetivos… Talvez definisse claramente e com alguma rigidez os objetivos, e tendo em conta o nível dos jogadores que treinava, talvez isso não faça tanto sentido.

        Penso que a Descoberta Guiada é sem dúvida algo a ser utilizado na aplicação dos exercícios, mas essa mesma Desc. Guiada deve ser diferente se treinar os sub19 do Porto ou os sub19 do Carcavelinhos… devido à diferente dificuldade e complexidade que o exercício deve ter. E mesmo assim, em níveis mais baixos, talvez o treinador tenha que ser mesmo mais direto no que se pretende alcançar.
        Ou seja, penso que o principal factor é precisamente o nível de qualidade e de entendimento do jogo dos jogadores que temos à nossa frente.

        E sim, concordo que quanto mais constrangimentos e mais direcionado no como fazer for o exercício, menos rico este se torna e mais se afasta da lógica do jogo de Futebol. Mas talvez isso seja mais necessário em contextos de níveis mais baixos, se o treinador realmente pretender passar a sua mensagem.

        Já agora, pensas que de forma geral falta nos treinadores o vincar emocionalmente os momentos de sucesso num exercício? Continua a haver muito foco no aspeto negativo?

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