Mourinho, Silvino Louro e os Guarda-Redes (e outras considerações sobre um dos melhores de todos os tempos)

José Mourinho.

Nunca ninguém no “burgo” imaginaria que alguém que começou a ajudar o próprio pai nos treinos, que passou pela função de tradutor e observador para o saudoso Bobby Robson e acabou como adjunto de Louis Van Gaal no poderoso Barcelona conseguisse, um dia, tomar o Mundo do Futebol de assalto.
Foi isso que ele fez… tomou de assalto, mudando-lhe as “vigas-mestras” e acrescentando ideias basilares, na forma de preparar uma equipa para vencer provas europeias. Ele pôs nas bocas de muita gente de variados panoramas da vida comum diária, expressões como “Microciclo”, “Mesociclo”, “Periodização Táctica”… expressões que outrora só estariam ao alcance de estudantes do Curso de Educação Física e Desporto ou de apaixonados pelo trabalho do Professor Vítor Frade. Basicamente, ele “Licenciou” um país inteiro.

Mourinho foi dos principais catalisadores para eu próprio me iniciar como Treinador de Futebol na Formação.

Nunca, jamais em tempo algum, conseguiria ter a percepção do quão influente ele foi e é naquilo que é o Futebol hoje em dia, se não tivesse tido a coragem de me atirar ao Futebol de cabeça, arriscando tudo… e aqui entram os Guarda-Redes.

Mourinho levou a seu lado o fiel Silvino Louro, pessoa pela qual nutro admiração pela constante capacidade de adaptação, com sucesso, aos mais variados contextos. Mourinho esteve (e continuo a dizer que está, embora tenha muitos empregados de café e técnicos de ATL para contra-argumentarem comigo isso…) na vanguarda daquilo que é a preparação de uma equipa e também a sua gestão. Silvino teve de fazer um trabalho de se lhe tirar o chapéu no que concerne a seguir num caminho de contra-cultura no que toca ao treino específico de Guarda-Redes. “Mou” foi um dos primeiros ao mais alto nível a confiar num “Treinador-Adjunto que trata dos Guarda-Redes” algo que hoje, 14 anos mais tarde, ainda vai chocando de frente com muitos contextos culturais, que se querem de topo, onde existe “um gajo que chuta umas bolas e que analisa o jogo com os Guarda-Redes”. Acredito piamente que, a influência de Silvino naquilo que foi e será a forma de jogar do bloco defensivo das equipas de Mourinho, a organização e consequentes reacções à perda de bola e até aspectos mais basilares, como onde e como sair a jogar a partir da baliza, se continuará a notar com o tempo. Sim, porque Mourinho voltará à carga. e mais forte que nunca.

Por causa da forma de organizar os seus ciclos de trabalho, sobretudo pela aplicação prática da Periodização Táctica na preparação das suas equipas, Mourinho elevou os graus de exigência, até para os Guarda-Redes. Aquilo que se espera do Guarda-Redes já não é o mesmo que se esperava. Exige-se mais e melhor, com e sobretudo, sem bola. Por causa de Mourinho e Ca., o jogo dos Guarda-Redes tem mais cérebro, mais sumo que nunca e, prova disso, é o salto estratosférico que a preparação e o jogar dos Guarda-Redes, assim como o rendimento dos mesmos nas equipas de Mourinho deu, nos últimos 20 anos. A José Mourinho e sobretudo, a Silvino Louro, tenho de agradecer. Porque me fizeram perceber desde cedo que, treinar Guarda-Redes não é só rentabilizar o tempo que tenho com eles a “chutar bolas”. É mais, é ter de entender o Jogo, fazer entender o Jogo. Ser um “Catalisador de Vivências”, ser mais Futebol.

 

 

Mourinho, Silvino, Faria (que já não trabalha com o “Special One”), Formosinho mudaram de forma basilar aquilo que víamos aos finais de semana. Elevaram a fasquia e obrigaram os outros a ter de elevarem a fasquia quando se fala de preparar as suas próprias equipas. Valorizaram jogadores, clubes, ligas inteiras. Rentabilizaram colegas treinadores que colaboraram com eles ao longo dos anos e ainda o irão fazer.

Não me leiam mal, não me interpretem mal. Guardiola veio influenciar o jogo de uma forma diferente, Klopp trouxe uma irreverência fantástica e necessária ao por vezes demasiado formal mundo do Futebol. Existem demasiados Treinadores de Excelência pelo Mundo fora, mas todos eles tiveram a coragem de mudar algo em alguma altura. Mourinho, nesta mesma pauta, assume-se como “diferenciado” (ouvi esta expressão de um colega Treinador de Guarda-Redes, o César Gomes, e ficou-me na cabeça…) pela forma como se distancia dos “iguais”: todos têm um Modelo de Jogo, todos trabalham em regime de Periodização Táctica (muitos tentam…), dos clubes mais pequenos a muitos clubes de topo, mas Mourinho trouxe para a mesa a capacidade de adaptação e tentou revitalizar o pragmatismo de outrora, aliado à constante busca pela estratégia como base da acção. De uma forma mais ou menos conseguida, ele e a sua equipa técnica, tentaram e, como diz Samuell Beckett:

“Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.” 

Mourinho e também Silvino voltarão certamente a tentar, de uma forma melhor, voltará a falhar, tentará revitalizar-se e reescrever-se e todos nós, voluntária ou involuntariamente, vamos segui-lo…ou não, porque na realidade das realidades, todos queremos “ser Mourinhos” mas só o somos nos cafés, nos restaurantes, nas pausas de almoço do nossos enfadonhos empregos de escritório, aos jantares de família e na Internet, por detrás dos nossos computadores…nunca nos campos de Futebol…acaba por nos faltar a coragem e a fibra.

“Ser Mourinho” é provocar as pessoas a regozijarem-se nas redes sociais porque a sua passagem em Manchester foi curta. Mesmo aquelas que só passaram pelos distritais de miúdos e mesmo nesse contexto foram sempre mal sucedidos e nunca tiveram capacidade para não serem corridos no final de uma única temporada, ou menos!

Eu arrisco. Eu prefiro construir-me “Pedro Espinha” através de tentar “ser Mourinho e Silvino” que viver frustrado até à hora da minha morte sem ter sentido o prazer da liberdade em campo.

 

Pedro Espinha
Sobre Pedro Espinha 5 artigos
Coordenador do Departamento de Treino de Guarda-Redes e Treinador de Guarda-Redes do Lyn Toppfotball, e da NFF (Federação Norueguesa) nos escalões de formação. Passagem pelo Stabæk Fotball (Treinador de Guarda-Redes e Treinador de Formação), Bergsøy IL (Treinador de Guarda-Redes, Analista, Treinador de Formação e Coordenador de Children Football) na Noruega, e pela formação do SL Benfica, onde foi treinador e exerceu funções de Técnico Auxiliar de Coordenação. Apaixonado pelo treino, desenvolvimento e pelo Jogo, e sobretudo pela posição específica do Guarda-Redes, possui o curso UEFA B e A de Treinador de Guarda Redes.

2 Comentários

  1. O Mourinho fez coisas incríveis e abriu a porta de uma nova fase no futebol europeu.
    A meu ver, fê-lo sempre a manipular em excesso os egos dos jogadores, ao ponto de invariavelmente em cada projeto tudo implodir em 2 ou 3 anos.
    Ainda assim, acho que foi sem dúvida o melhor em determinado momento no que aqui importa, o modelo e jogo.
    Será que hoje é ou consegue voltar a estar de forma consistente ao nível dos melhores, que basicamente quase se resumem a parte dos treinadores que estão à frente do MU na Premier?
    Ou será uma vítima de si mesmo nesse desiderato?
    O futebol que mostra já há anos que não diz isso. Nem o futebol, nem os erros de casting, nem a manutenção de uma atitude quezilenta e de puxar dos galões quando está a correr mal.

  2. Belíssima homenagem. Estou em sintonia com a admiração que alguns / muitos / não sei quantos adeptos e treinadores sentem por J. Mourinho e com o respeito que instiga, no sentido em que hoje (ainda) basta assinar por um qualquer grande clube para imediatamente elevar as expectativas e fazer quase toda a gente pensar que a sua equipa / o seu clube terá argumentos para contestar todas as provas em que participa. Tal diz muito da aura deste treinador, uma que não existe por acaso. Todavia, ela tem sobretudo origem em feitos (qualidade) e triunfos alcançados num passado que já não é recente (FC Porto e Inter, essencialmente, bem como as duas primeiras temporadas no Chelsea), e não nos projectos que abraçou nos últimos 8 ou 9 anos, independentemente dos troféus conquistados em Madrid, em Londres (segunda passagem) e em Manchester. O facto de que para se expressar admiração e construir uma homenagem a José Mourinho é constantemente necessário lembrar êxitos passados não existindo nada de relevo para mencionar ou exaltar (de 2010 para cá) quando treinou clubes como o Manchester United ou o Real Madrid é um testemunho de que ele não tem feito tudo o que está ao seu alcance para retirar o melhor dos seus jogadores e para fabricar equipas merecedores de elogios … Pelo contrário: nos últimos anos qualquer jogador treinado por J. Mourinho exibe menos qualidade do que a que tem. Assim é (hipótese) porque Mourinho tem muito conhecimento mas não se trata de um indivíduo especialmente inteligente ou genial.

    Acontece com muita gente em todas as áreas.

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