Bernardo e Rúben – Lições no país do futebol

No passado fim de semana Pep Guardiola rendeu-se definitivamente a Bernardo (na verdade, há muito que já o deveria estar, apenas sentiu ser este o momento para o exteriorizar), mas também por Rúben suspira, afirma-se.

Os dois portugueses, e perante o mesmo adversário, na mesma semana, deram uma verdadeira lição do que é jogar bem, num país onde outrora, não se apreciava quem com as suas decisões com bola coloca paciência, pausa e inteligência no jogo.

A dupla curiosidade de ambos terem tido o seu momento de notoriedade (golo e assistência) num jogo que, porque lhes foi pedido que tocassem na bola, maioritariamente em zonas de segunda fase ou primeira, no caso de Rúben, de construção, o calibre e a qualidade da sua exibição traduziu-se, precisamente pela inteligência nas suas decisões, que serviu sempre para ligar o jogo e possibilitar que a bola pudesse, mais tarde, chegar à frente com mais qualidade.

E jogar bem, realizar uma grande exibição de nível individual tem tudo a ver com percentagem de acerto, e seguimento que se dá a cada lance, e não com procurar inventar a que algo aconteça quando não é o momento, nem há condições para tal. E foi precisamente onde tantos outros erram sistematicamente, emperrando toda a dinâmica ofensiva das suas equipas com as suas perdas, ou decisões erróneas que para além de exporem as suas equipas defensivamente, ainda lhe retiram capacidade para ligar e chegar de forma contínua e junta ao último terço, que os portugueses maior diferença fizeram.

Da qualidade técnica incrível, mas também da inteligência e porque não dizê-lo, coragem para ter a bola em zonas mais baixas, bem expressa no conforto que mesmo perante opositores e pressionados demonstram em posse, Neves e Silva iniciaram sempre com critério muitos dos ataques das suas equipas.

E se os melhores devem estar atrás para que a bola chegue mais limpa à frente, Bernardo e Rúben deram uma lição de simplicidade e de categoria nas suas tarefas.

Talvez chegue o dia em que Portugal produza jogadores com esta enormidade de qualidade em quantidade suficiente, para jogar nas costas dos médios (Para já, “desenha-se” João Felix). O que seria ter jogadores do calibre de Silva e Neves a alimentar as zonas de criação? E ai ter a mesma qualidade a alimentar a finalização? Cada saída, um potencial ataque de golo.

A estatística por si só, mesmo perante percentagens absurdas, dirá pouco. Porque, e se a cada passe certo havia uma opção melhor para dar seguimento?

O vídeo complementa o nível a que dois portugueses chegaram na terra da correria, sempre mantendo critério inolvidável na sua decisão. São estes os jogadores, e estas as decisões, que permitem que à frente outros tenham a notoriedade.

…jogas para a equipa! No final do dia, os melhores jogadores de futebol são os que fazem jogar bem os outros. E eu joguei com alguns assim… que não dizem nada, mas que te tornam melhor… quem faz jogar bem, esses são os grandes… mesmo que não tenham a notoriedade…

Pablo Aimar

 

Um regalo imperdível, a primeira parte de um e outro, porque já bem longos os videos, perante tantas acções e tanto jogo que se iniciou nas suas botas:

Bernardo

 

Rúben

 

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3704 artigos
Pedro Bouças - Licenciado em Educação Física e Desporto, Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, bem como participado em 2 edições da Liga dos Campeões em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, Cursos de Treinador e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã", e Co-autor do livro "O Efeito Lage", ambos da Editora PrimeBooks Analista de futebol no Canal 11 e no Jornal Record.

2 Comentários

  1. Eu acho que a melhor posiçao do Bernardo no modelo do City é na ala esquerda porque ele é também o jogador de riscos. Na posiçao de meio-esquerdo joga mais na segurança. Claro, as suas decisoes sao justas consoante o seu potencial mas nesta posiçao, ele ja nao morde os adversarios, como tu dizes tao bem, porque o seu jogar natural asujeita-se mais à perda. O Kevin de Bruyne é o melhor nesta posiçao porque tambem a sua decisao é justa mas como a sua finta é mais letal e ao mesmo tempo segura, ele é mais perigoso nas ofensivas.

    Na estrategia ofensiva do modelo, ele tem vindo muito a crescer porque lê muito bem o jogo como também na estrategia defensiva a compensar as posiçoes dos companheiros e a cubrir muito bem as zonas de espaço. Foi isso que Guardiola enalteceu quando ele falou da sua alta inteligencia.

  2. Há um City-Wolves segunda-feira que vai ser interessante… (Prevejo muitas dificuldades para o Rúben face ao pressing do City.. a ver vamos…)

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