Vitórias, mentiras e vídeo


Como sabem, estamos num processo de renovação e a tentar passar do 4-3-3 para o 4-4-2. Como é que se faz isso? É simples: tentar treinar o máximo possível sem criar desgaste, havendo, por isso, muito recurso ao vídeo. Neste caso até se torna mais fácil porque simultaneamente fazemos a abordagem da nossa equipa e a análise ao comportamento do adversário.

Bruno Lage


A equipa percebeu o que fui fazendo ao longo do jogo em termos estratégicos e de dinâmicas. Conseguiu alterar as dinâmicas, e isso é o que extraio de positivo do jogo.
O que pode mudar para o próximo jogo?
Posso projectar aquilo que é a ambição para esse jogo, agora aquilo que vou alterar em termos estratégicos para o jogo, tenho de analisar bem aquilo que acabou de acontecer. Não consigo pormenorizar em função de ter de rever o jogo com muito mais atenção e muito mais pormenor..

Houve várias fases no jogo, vários momentos, houve um momento em que estivemos em 4x3x3, outro em que estivemos em 4x4x2, houve um momento em que nesse 4x4x2, jogámos com o Joã Carlos ao lado do Waka, e permitimos que o João também saltasse e ficámos com equilíbrio a três, que era o Waka e os dois centrais, e libertámos os dois laterais, com os alas a vir para dentro… houve um conjunto de dinâmicas que aconteceram ao longo do jogo e os jogadores se portaram bem… estavam comprometidos com essa dinâmica… ficámos pela meia eficácia. Levámos a bola onde queriamos, mas não a introduzimos onde a queriamos…

Houve muitas alterações ao longo do jogo, e eles estiveram muito bem ao longo de todas as alterações, e estou muito satisfeito com eles

Luís Castro, no pós jogo


Somos capazes de apresentar algumas nuances estratégicas… Algumas coisas são para manter, outras são para tentar aproveitar no adversário, assim como o Benfica também irá tentar aproveitar alguns espaços que tenha detectado… pode haver surpresas de um jogo para outro, mesmo sendo as mesmas equipas

Luís Castro, na antevisão

O jogo da Taça de Portugal que opôs o Vitória de Luís Castro ao SL Benfica de Bruno Lage, foi de uma riqueza táctica absolutamente soberba. E se o jogo não teve mais qualidade, tal se cingiu unicamente ao nível técnico e de tomada de decisão dos intervenientes.

Dois treinadores que estão no nível seguinte da evolução do jogo. Que modelam a sua identidade, e que dão armas e condições aos seus jogadores para que mesmo durante o próprio jogo, sejam capazes de responder de diferentes formas tacticamente às incidências da partida. Porque o “nós”, nos dias de hoje, já olha para o “eles” se pretende maximizar possibilidades de triunfar.

Por isso ao longo da partida foram várias as trocas de ambas as partes, numa espécie de jogo do “gato e do rato”, com Luís Castro a alterar dinâmica para chegar com maior perigo à baliza encarnada, e Bruno Lage a responder, com uma alteração táctica (linha média a cinco, e alas mais baixos) que lhe garantiu maior equilíbrio em função da alteração inicial do técnico vimarenense. Ao longo da partida, ambas as equipas trocaram de sistema! O Vitória para procurar o que não estava a conseguir ao longo de um primeiro período na partida, e Bruno Lage, na parte final, como forma de proteger a sua equipa do crescimento do oponente.

Venceu Bruno Lage, porque com as suas alterações preservou a vantagem, mas não perdeu Luís Castro, porque não foi do que de si dependia que a vitória foi encarnada.

Nas conferências pós jogo e de antevisão do jogo de hoje, mais lições de treinadores diferenciados. Enquanto comentava o Tottenham x Barcelona para um canal inglês, o excelente Carlos Carvalhal, referiu que nos dias de hoje no futebol de topo, um treinador não perceber o que se está a passar durante vinte minutos e dar-lhe respostas poderá bem ser o suficiente para que o resultado fique condenado.

O jogo desta noite no Castelo, poderá perfeitamente não trazer o espectáculo que promete. A diferença técnica da nossa Liga para as melhores, é um absurdo. Todavia, para quem gosta de tentar perceber o jogo e o que este traz tacticamente, fica a previsão de mais um jogo “futurista”, onde todo o pormenor conta. Do eu, ao nós, acabando no “eles”. Porque no jogo há sempre oposição.

Sempre foi um jogo de enganos, o futebol. No presente, enganar já não se resume apenas ao individual, ao enganar dentro da situação de jogo, mas também às mentes que estão por trás a traçar os planos de jogo.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3715 artigos
Pedro Bouças - Licenciado em Educação Física e Desporto, Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, bem como participado em 2 edições da Liga dos Campeões em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, Cursos de Treinador e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã", e Co-autor do livro "O Efeito Lage", ambos da Editora PrimeBooks Analista de futebol no Canal 11 e no Jornal Record.

2 Comentários

  1. “Levámos a bola onde queriamos, mas não a introduzimos onde a queriamos…” Isto é tão bom.. Estão ou não os treinadores portugueses na vanguarda? E, já agora, para qual canal o Carvalhal comenta?

    • Mandaram-me o audio em que ele dizia isso… creio que veio do “the coach voice”… mas nao sei que canal foram os comentários (live)

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